No último dia 10 junho, completaram-se 12 anos de uma iniciativa do Rio de Janeiro que marcou a relação entre o Brasil e a Argentina. Foi na véspera da abertura da Copa do Mundo de 2014. Algo impensável ocorreu naquele dia. O mais importante símbolo da nação argentina ficou duas horas iluminado com as cores verde-amarelo em homenagem ao Brasil. Seria algo semelhante ao Palácio do Planalto ficar duas horas iluminado com as cores da Argentina. Foi um feito que merece ser revivido e uma história que precisa ter os bastidores revelados pela primeira vez na história.
Para se ter uma ideia da dimensão do fato que teve como protagonista o Rio de Janeiro, é preciso primeiro dar a dimensão do significado do Obelisco da Avenida Nove de Julho para o povo argentino. Só assim é possível se ter uma noção da audácia e do ineditismo deste momento.
O Obelisco de Buenos Aires, localizado no cruzamento da Avenida 9 de Julho com a Avenida Corrientes, é o monumento mais emblemático da capital argentina e um marco de orgulho nacional. Representa a capitalização da cidade e a unificação da República Argentina. A homenagem de todas as províncias (estados) argentinas existe de forma visual ao redor do monumento: a Plaza de la República (a praça circular onde o Obelisco está localizado) possui os escudos de todas as províncias desenhados ou destacados no próprio solo e nas floreiras ao seu redor.
O Obelisco foi iluminado com as cores do Brasil no dia 10 de junho de 2014. O evento foi um marco histórico de diplomacia esportiva, que surpreendeu o mundo às vésperas da Copa do Mundo daquele ano.
A ação foi planejada de forma síncrona: enquanto o Obelisco de Buenos Aires brilhava em verde e amarelo, o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, foi iluminado simultaneamente com o azul e o branco da bandeira argentina.
A ação celebrou o Dia do Fair Play (espírito esportivo). O objetivo das secretarias de Turismo do Rio de Janeiro e de Buenos Aires era mostrar que, apesar da imensa rivalidade no futebol, os países vizinhos mantinham laços fortes de união, respeito e parceria econômica/cultural.
Os monumentos mantiveram as cores trocadas por um curto período de duas horas (das 20h às 22h). Isso evitou que a provocação ou o estranhamento visual gerassem maiores problemas logísticos ou protestos locais.
A reação da mídia e do público foi de absoluto espanto, misturada com admiração pela ousadia do marketing institucional. Veículos de comunicação de todo o mundo destacaram o evento como "histórico" e "inacreditável". Jornais europeus e americanos brincaram que ver o Obelisco verde-amarelo e o Cristo albiceleste era a prova definitiva de que o clima de Copa do Mundo quebrava qualquer barreira cultural e geográfica.
Os jornais locais trataram o tema com muito humor e ironia. Portais argentinos publicaram manchetes destacando o choque visual de ver seu maior símbolo com as cores do maior rival, enquanto a cobertura brasileira no Globo Esporte (ge) enfatizou o "pacto de paz" selado pelas luzes antes de a bola rolar.
O jornal O Globo imortalizou a ação com uma gigantesca foto na primeira página. Sem dar maiores detalhes, estampou a imagem como algo inédito e surpreendente. Era a véspera do primeiro grande evento internacional esportivo que o Rio sediaria. Primeiro a Copa e, depois, os Jogos Olímpicos de 2016. As atenções do mundo se voltavam para o Rio.
A clipagem da mídia ocupou 10 volumes, com reportagens em dezenas de idiomas e jornais de todo o mundo. Foi uma notícia planetária que colocou o Rio em evidência na abertura da Copa do Mundo. Vale lembrar que somente quando houvesse o jogo final o Rio estaria na berlinda, já que a abertura, no dia 12 de junho de 2014, estava marcada para São Paulo, no estádio do Corinthians. Literalmente o Rio roubou a cena.
A história secreta
O Correio da Manhã revela os bastidores deste evento. Um momento em que a fonte principal é o próprio publisher do jornal, que, na época, ocupava a Secretaria de Turismo do Estado do Rio. Claudio Magnavita recebeu no seu gabinete da Setur, na rua Acre, no Rio, dois meses antes da Copa, Jaime Rios, diretor da Inprotur (equivalente à Embratur no Brasil) com um pedido: "Queremos fazer algo impactante para a Copa do Mundo no Brasil e no Rio, onde a Argentina faria o seu primeiro jogo contra a Bósnia", disse Rios. Na mesma hora, Magnavita, que cultiva laços de amizades com a Argentina através de uma parceria do Jornal de Turismo com o Mensajero Turístico (semanário especializado em turismo), retrucou: "Vamos mostrar ao mundo que dois grandes adversários no futebol podem ser amigos fora do campo. Vamos fazer o dia do Fair Play. Faremos duas solenidades simultâneas. Nós iluminamos o Cristo Redentor com as cores da Argentina e vocês iluminam o Obelisco com as cores do Brasil. Vai ser notícia em todo o mundo".
Os dois apertaram as mãos e concordaram. Começava ali uma maratona que todos julgavam impossível.
O Cristo Redentor pertencia à Arquidiocese do Rio e, até naquele momento, nenhuma iluminação comemorativa havia sido feita no monumento. O sistema de iluminação especial ainda estava sendo montado. Depois daquele 10 de junho, iluminar o Cristo virou uma praxe para grandes eventos. A missão número 1 era convencer o Cardeal Dom Orani Tempesta.
No lado Argentino, a missão era convencer a prefeitura de Buenos Aires, a quem cabe a gestão do Obelisco. Só que havia um "pequeno problema ": o prefeito de Buenos Aires era Maurício Macri, adversário de Cristina Kirchner, então presidente da República. A ideia era explosiva e poderia encontrar resistência.
Nos dois lados havia uma dificuldade enorme: convencer a Igreja e convencer o adversário da presidente. A corrida contra o relógio começava.
Magnavita foi recebido por Dom Orani, que chamou o padre Omar, reitor do Santuário. Depois de um longo discurso sobre fraternidade, paz universal e exemplo de convivência, o cardeal concordou.
No lado argentino as coisas andavam com o mesmo tom. Só uma semana antes do evento que o prefeito Macri deu o sinal verde.
O secretário de Turismo do Rio levou para o então chefe da Casa Civil do Estado, Leonardo Espíndola, o projeto e recebeu apoio e a verba para que a SRCOM, empresa licitada de eventos do estado, executasse o projeto. Transmissão ao vivo e simultânea entre o Rio e Buenos Aires, um pódio exatamente idêntico no qual as autoridades apertariam simbolicamente o botão iluminando os dois monumentos.
Na Argentina, os sinais eram positivos. Jaime Rios e o ministro do Turismo, Enrique Meyer, estavam nas mãos de Macri. Com a confirmação do sinal verde da Igreja, as coisas andaram. Afinal, qual argentino não queria ver o Cristo Redentor com a cor azul celeste?
"Acatei uma sugestão de Espíndola, que me disse que seria melhor eu entrar para história como o brasileiro que iluminou o Obelisco da Nove de Julho do que o que iluminou o Cristo". O chefe da Casa Civil me disse: "Eu, se fosse você, iria para Buenos Aires e deixaria o seu subsecretário no Rio. Se quiser ir, a viagem está autorizada".
"No dia 10 de julho, às 5h da manhã, decolamos para Buenos Aires. Fui com Cesar Werneck, então diretor da Turisrio. Jaime Rios nos pegou no aeroporto. Fomos para uma visita técnica e, na sequência, audiência com o embaixador do Brasil, Everton Vieira Vargas, na chancelaria brasileira na própria 9 de julho", relembra Magnavita.
Quando eles, Magnavita e Rios, chegaram no Obelisco, tomaram um susto. Ao lado do equipamento técnico que estava sendo montado havia se formado um acampamento de "sem terras", que faziam protestos sobre a questão latifundiária no país. Imaginem dezenas de jornalistas e autoridades ao lado de um acampamento de protesto... O cenário explosivo estava armado.
Apavorados, os dois olharam juntos para o Hotel Panamericano. Ele ficava a pouco mais do que duas centenas de metros do local e tinha um terraço panorâmico. O 5 estrelas topou na hora receber a solenidade e salvou o evento. Fez muito mais: iluminou sua própria fachada de verde e amarelo e ofereceu um coquetel.
Na hora da solenidade, surge um problema inusitado: uma névoa no topo do Cristo Redentor não permitia que a imagem fosse vista até pelas autoridades presentes. Os anfitriões eram o então subsecretário de Turismo do Rio, Carlos Luís Martins (ex-presidente da Varig), e o presidente da Embratur, Vicente Neto, que sucedeu Flávio Dino. Era como se o Cristo se recusasse a ser visto com as cores da Argentina.
Por sorte, o sinal da transmissão caiu, até por conta das condições meteorológicas, e toda a solenidade foi realizada sem as imagens do Rio para Buenos Aires. Na hora programada, a névoa sumiu e o espetáculo ocorreu nas duas cidades.
Como o centro de mídia estava no Rio, o Cristo recebeu centenas de jornalistas estrangeiros. As agências noticiosas deram a cobertura planetária ao evento e, no dia seguinte, estava na primeira página de todos os jornais, sites e matérias sobre a Copa do Mundo.
Uma ideia simples, protagonizada pelo Governo do Estado do Rio com o Governo argentino, que rodou o planeta.
O Cristo trouxe sorte para a Argentina. Ela disputou no Maracanã o jogo final com a Alemanha e o Rio foi invadido por milhares de argentinos, que acamparam na Zona Sul e foram alojados no Sambódromo. Pior do que ter perdido para a Alemanha de 7 x 1 no campo do futebol, a humilhação maior seria ver a Argentina campeã do mundo no Maraca. FairPlay a parte, eles perderam para Alemanha e tiveram a solidariedade dos cariocas. A imagem do Obelisco Verde e Amarelo entrou para a história e é citada como exemplo da diplomacia no esporte até hoje.
*Publisher do Correio da Manhã e secretário de Estado de Turismo do Rio de Janeiro em 2014
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