As dezenas de milhares de pessoas que, sábado, lotaram o Maracanã para ver Zeca Pagodinho, Alcione e Jorge Aragão mostraram que, muito mais que representar resistência — palavra tão citada no mundo do samba —, o gênero que melhor nos traduz demonstra potência, vigor, pujança, robustez.
As quase infinitas histórias de sambistas que viveram e morreram na pobreza, com reconhecimento muito aquém do que seria razoável, têm muito mais a ver com as injustiças crônicas da sociedade brasileira do que com o fato de eles terem abraçado uma determinada expressão musical. Negro em sua origem, o samba não escaparia da desigualdade racista do país.
Mas, talentoso, versátil e agregador, o samba reafirmou, anteontem, o tamanho de seu poder. Ao cantar os versos "Respeite quem pôde chegar onde a gente chegou" (de "Moleque atrevido", que compôs com Paulinho Rezende e Flávio Cardoso), Jorge Aragão fez um alerta que, ali, era até desnecessário: ao pisarmos no terreiro do Maracanã, nós, espectadores, prestávamos tributo a todos aqueles grandes artistas, que falavam em nome de tantos e tantos outros; que, no limite, falavam por cada um da plateia.
A estreia da turnê no nosso estádio mais célebre, palco de muitas de nossas alegrias e tristezas, também serve de marco. Desde sua inauguração, em 1950, o Maracanã — então o maior do mundo — virou adjetivo, algo que ilustrava grandeza. Em 1980, ao subir ao palco no centro do gramado, Frank Sinatra deixou escapar um "Meu Deus!" Cantar no Maracanã lotado era gigantesco até para ele.
Depois, muitos artistas se apresentaram por lá, onde já houve até uma edição do Rock in Rio. Mas as presenças de Alcione, Zeca e Jorge — e de Martinho da Vila, convidado da noite — tiveram um significado especial. Algo que resgata até mesmo o velho estádio, transformado numa confortável e excludente arena. Os donos da noite refundaram o Maraca que é nosso. Como faz Paulinho da Viola ao cantar "Bebadosamba", ainda chamaram outros bambas para a festa: Cartola, Zé Keti, Beth Carvalho, Nei Lopes, Wilson Moreira e muitos outros.
Animadíssima, como não poderia deixar de ocorrer quando tantos sucessos são enfileirados, a apresentação requer alguns ajustes. Foi ótima a sacada de deixar os três no palco o tempo inteiro, mas seria bom amarrar melhor o roteiro, aproximar temas presentes em diferentes canções. Outro ponto: em um espetáculo com três protagonistas, a presença do convidado especial poderia ficar mais integrada ao todo. Ao cantar quatro sambas, Martinho parecia fazer outro show, apartado do principal.
O fim do espetáculo também merece uma mexida. "Vou festejar", de Jorge Aragão, Dida e Neoci Dias, é espetacular, pra cima, mas a letra remete a uma vingança, ao desejo de sofrimento do outro. Foi meio esquisito, depois de um evento tão legal, sair do Maracanã repetindo "Você pagou com traição/ A quem sempre lhe deu a mão". Um encontro tão bonito e emocionante merece um final que traduza melhor o samba que leva alegria a milhões de corações brasileiros.
Por último: "Coisa de pele" (de Aragão e Acyr Marques) não pode ficar de fora de um show que também é manifesto, que ressalta a arte popular do nosso chão.
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