Nem depois de muitas doses de detergente Ypê é possível acreditar na história contada pelo pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, para justificar seu pedido de R$ 135 milhões para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A intimidade por ele demonstrada com o então banqueiro Daniel Vorcaro ("Irmão, estou e estarei contigo sempre") é incompatível com o que se espera de um senador da República. Em nota, Flávio procurou caracterizar de negociação comercial o apelo que fez ao dono do Master: faltou combinar com os produtores do filme, que negaram qualquer participação do banco no financiamento da produção.
Afinal, onde e como foi aplicada a verba de R$ 61 milhões repassada por Vorcaro para, supostamente, bancar o filme? Cadê o contrato de patrocínio? A marca do Banco Master apareceria nos créditos do longa-metragem?
O parlamentar também procurou descaracterizar a existência de qualquer outro interesse em relação a Vorcaro. Mas, em seu áudio, é explícito ao citar um viés político na relação com o suposto financiador do filme. Fala que o atraso no pagamento de pessoas envolvidas em "Dark Horse" geraria um "efeito ao contrário do que a gente sonhou pro filme, né?".
O "a gente sonhou" evidencia que o banqueiro estava comprometido com o caráter político-eleitoral da produção, prevista para estrear duas semanas antes da eleição. Vale lembrar que foi durante o mandato de Bolsonaro que Vorcaro conseguiu do Banco Central autorização para virar banqueiro.
Por que Flávio Bolsonaro negou, há dois meses, que tivera contato com Vorcaro? Por que, na manhã de terça, durante uma improvisada entrevista coletiva, negou à reportagem do Intercept Brasil que tivesse pedido dinheiro ao banqueiro? Por que disse que a pergunta estava baseada em uma "mentira"?
Há mais perguntas: por que o senador escondeu dos colegas do PL sua relação com o amigo/irmão Vorcaro? Por que, diante da apreensão dos celulares do banqueiro, não tomou a iniciativa de ir à público falar de sua vida pregressa com ele? Antecipar-se a uma notícia ruim e divulgar versão menos contudente é estratégia conhecida no universo da comunicação. O senador, porém, resolveu apostar, pelo jeito, acreditou que Vorcaro apagara o conteúdo das conversas.
O parlamentar também disse que conheceu o banqueiro em dezembro de 2024, quando o pai havia deixado a Presidência e não havia acusações ou suspeitas em relação ao Master. Não é bem assim: três meses antes, a revista Piauí havia publicado reportagem que enumerava as muitas suspeitas relacionadas à saúde financeira da instituição.
Em 16 de novembro passado, quando mandou a mensagem em que pedia a quitação de cotas vencidas, o senador sabia que, dois meses antes, o Banco Central negara autorização para que o Master comprasse o BRB por duvidar da saúde da instituição.
De tão capengas, as explicações do senador geram uma espécie de efeito Ypê: ao invés de limpar, o uso de determinado lote do detergente piora o tamanho do problema.