Fernando Molica

Todos pagaremos pelas blusinhas

As blusinhas made in China são as mais novas beneficiárias do interminável clube de recebedores de subsídios concedidos pelos governos em nosso nome. E, coitadas, são bem menos culpadas que outros setores da vida nacional.

Todos pagaremos pelas blusinhas
Presidente Lula acabou com taxa que seu governo instituíra Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A taxa das blusinhas não acabará, apenas passará a ser paga por todos brasileiros e, não apenas pelos consumidores que fazem essas pequenas compras no exterior. No ano passado, o imposto sobre essas importações arrecadou cerca de R$ 5 bilhões, dinheiro que já havia encontrado destino nos cofres estatais, deficitários e sempre dependentes de mais recursos.

Com o fim da cobrança, o buraco aumentará, e será devidamente coberto por todos nós, muito provavelmente com mais endividamento por parte do Estado, que, como sempre, aumentará a própria dívida com a venda de títulos no mercado.

As blusinhas made in China são as mais novas beneficiárias do interminável clube de recebedores de subsídios concedidos pelos governos. E, coitadas, são bem menos culpadas que outros setores da vida nacional, adictos crônicos de políticas de transferência de recursos públicos para a iniciativa privada.

É inevitável, eventualmente necessário, que haja concessão de benefícios fiscais para esta ou aquela atividade, mas esse processo deveria ficar mais claro para quem paga a conta, os brasileiros. Nos acostumamos com a ideia de que, nesses casos, o governo faz um carinho — mas nós é bancamos a festas.

Isso vale para o Simples, para a Zona Franca de Manaus, para a tal da desoneração da folha de pagamentos, para as benesses concedidas ao agro, para o não cobrança de contribuição previdenciária por entidades beneficientes e, de novo, para as blusinhas.

E olha que, para 2026, a previsão de isenções fiscais já chegava R$ 612 bilhões, soma do valor que o governo, em nome da sociedade, deixará de arrecadar em impostos. A lógica é a mesma de uma estrada: quando não há cobrança de pedágio, o valor gasto com a conservação da via é pago por todo mundo, inclusive por quem nunca passa nela.

A indústria e o comércio têm bons argumentos contra a importação liberada de produtos que custam até US$ 50, cerca de R$ 250,00. Alegam que se trata de uma concorrência desleal, já que, a produção brasileira é taxada em todas as suas etapas até chegar às mãos do consumidor final.

No limite, a isenção é uma forma de garantir na China empregos que fazem falta por aqui, algo ainda mais dramático diante da tendência cada vez maior de compras pela internet; não à toa, shoppings têm investido mais em gastronomia e atividades de lazer. Compradores, porém, veem a situação por outro ângulo. Graças à produção asiática, conseguem comprar o que por aqui se tornou proibitivo.

Como é comum numa democracia, os dois lados têm suas razões, daí a necessidade de mediação, papel que, neste e em muitos outros casos, cabe ao governante, que tem que pesar as consequências de cada decisão, os benefícios para um determinado setor, os prejuízos para outros — e o custo de cada medida para a sociedade.

O pior de tudo é que, no caso específico, a decisão foi tomada apenas por um critério eleitoral, o governo detectou que a cobrança da taxa deixara muita gente chateada e com vontade de se vingar nas urnas. Mas o pessoal do Planalto podia ter pensado nisso antes, né? Não era tão difícil assim. A situação faz lembrar Vinicius de Moraes que, na letra de "Cotidiano n° 2", composta com Toquinho, pergunta: "Se foi pra desfazer, por que é que fez?"