A revitalização do Setor Comercial Sul (SCS) entrou oficialmente na agenda política do Governo do Distrito Federal, mas não como decisão fechada — e sim como processo de construção conjunta. Em evento da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), semana passada, a governadora Celina Leão (PP) afirmou que qualquer intervenção no SCS, incluindo a proposta de uma Rua 24 horas, será conduzida “de baixo para cima”, ouvindo empresários, sindicatos, entidades do comércio e órgãos de preservação.
“É preciso falar que o segmento nos trouxe uma grande reivindicação: a revitalização do Setor Comercial Sul. E ela será feita, mas não imposta pelo Executivo. Será uma construção de baixo para cima”, disse.
A governadora destacou que o GDF não pretende impor modelos prontos, mas trabalhar com segurança jurídica e participação ativa do setor produtivo. “Nós queremos ouvir a Abrasel, queremos ouvir todos os setores. A proposta da revitalização foi apresentada pelo presidente da Fecomércio-DF, José Aparecido Freire, mas passa pela avaliação do Iphan. Se a proposta é do setor, nós vamos abraçar tudo isso”, afirmou.
A menção ao Iphan reforça que qualquer solução — inclusive a Rua 24 horas — precisa respeitar o tombamento de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade.
O que foi proposto pela Fecomercio-DF
O debate ocorre no momento em que o Sistema Fecomércio-DF entregou ao governo um conjunto de relatórios técnicos produzidos pela Universidade Católica de Brasília (UCB), em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), a Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti-DF). O material reúne diagnóstico socioeconômico, análise morfológica, zoneamento, levantamento topográfico, maquete digital e propostas de intervenção para orientar a criação de um Polo Criativo Tecnológico no Setor Comercial Sul.
O estudo mostra que o SCS concentra mais de 5,5 mil CNPJs, com forte presença de serviços, alimentação, cultura, tecnologia e economia criativa. A pesquisa de campo, com 482 entrevistas, revela vocações consolidadas, mas também desafios como imóveis ociosos, baixa permanência em determinados horários e fragmentação dos fluxos de pedestres.
A proposta do Polo Criativo Tecnológico parte da premissa de reorganizar o setor, articulando usos existentes a novas oportunidades de ocupação, formação e empreendedorismo.
Nesse contexto, a Galeria 24 horas aparece como o elemento urbano mais importante do SCS. Concebida no projeto original como eixo Leste–Oeste, ela atravessa todas as quadras e organiza o deslocamento de pedestres.
O relatório destaca que sua amplitude garantiu a permanência dos usos no térreo e manteve o fluxo de pessoas ao longo das décadas, concentrando o atributo de robustez do setor. A análise morfológica mostra diferenças entre os trechos: nas Quadras 2 e 3, a latência é altamente apropriada, com uso expansivo das lojas e presença de ambulantes; na Quadra 4, as empenas cegas reduzem a ativação das fachadas.
Para o presidente da Fecomércio-DF, José Aparecido Freire, a revitalização do SCS é prioridade da nova gestão (ele tomou posse no último sábado, com mais quatro anos de mandato), e que vem atuando para ampliar as atividades econômicas permitidas na região com a inclusão de mais de 300 CNAEs.
A entidade defende que a reorganização dos fluxos e a qualificação dos espaços públicos podem atrair empresas, ampliar a circulação de pessoas e apoiar novos usos econômicos, culturais e tecnológicos. O estudo reforça que a Galeria 24 horas deve ser tratada como eixo central da estratégia de requalificação urbana e da implantação do Polo Criativo Tecnológico, articulando circulação, identidade e ocupação qualificada.
Estudo técnico identifica quatro barreiras estruturais que precisam ser corrigidas para viabilizar a Rua 24 horas no SCS
Enquanto o Governo do Distrito Federal inicia a discussão pública sobre a revitalização do Setor Comercial Sul — incluindo a possibilidade de uma Rua 24 horas — o estudo técnico entregue ao GDF detalha os obstáculos que precisam ser enfrentados para que qualquer solução seja viável. A análise morfológica realizada pela Universidade Católica de Brasília (UCB), em parceria com a UnB, FAPDF e Secti-DF, identifica quatro pontos críticos de acessibilidade ao longo da Galeria 24 horas, eixo que estrutura o SCS desde o projeto original.
O primeiro deles está na Quadra 1, onde um desnível de três metros separa a parte alta da parte baixa. A única solução existente é o conjunto de escadas rolantes da estação do metrô, o que rompe a continuidade do percurso e dificulta a integração com a praça Marielle Franco. O relatório aponta que essa ruptura compromete a lógica de circulação prevista no projeto original, que imaginava o SCS como uma grande plataforma contínua para pedestres.
Nas Quadras 3, 5 e 6, o problema é outro: edifícios implantados sobre platôs criam barreiras físicas que interrompem o deslocamento natural. Na Quadra 3, degraus e desníveis obrigam o pedestre a alterar o percurso. Na Quadra 6, o padrão se repete, com travessias desalinhadas e desníveis que dificultam a permeabilidade física.
A situação mais complexa está na Quadra 5, estruturada em dois níveis: o térreo, destinado aos pedestres, e o nível inferior, voltado a veículos e carga e descarga. Embora não sejam áreas cobertas, os espaços inferiores têm baixa visibilidade e foram ocupados por grupos em situação de rua, criando ambientes de difícil controle e reduzindo a sensação de segurança. As conexões verticais entre os dois níveis são fragmentadas, mal posicionadas e pouco visíveis, o que acentua a descontinuidade do percurso.
Segundo o relatório, essas interrupções afetam diretamente a circulação, a permanência e a integração entre atividades econômicas, culturais e tecnológicas previstas no plano estratégico do Polo Criativo Tecnológico. Para que a Rua 24 horas — ou qualquer solução de ativação contínua — funcione, será necessário corrigir os desníveis, reorganizar as áreas inferiores da Quadra 5, ampliar a visibilidade das conexões verticais e adotar um novo padrão de desenho urbano, com travessias niveladas e pavimentação contínua.
As recomendações incluem ainda a criação de uma ligação direta entre a Galeria 24 horas e a parte inferior da Quadra 1, a partir da praça Marielle Franco, além da revisão das soluções de circulação vertical em todo o setor. O estudo conclui que a remoção das barreiras físicas é etapa essencial para que a Galeria 24 horas cumpra sua função de eixo de mobilidade e integração no novo ciclo de ocupação do Setor Comercial Sul — independentemente do modelo final que venha a ser adotado pelo GDF após o diálogo com o setor produtivo e a avaliação do Iphan.
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