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Rasimania

Estreia de uma nova montagem de ‘Alta Sociedade’ reforça a pertinência de Mauro Rasi, o Shakespeare de Bauru, como um cronista de afetos (e seus enguiços) nos palcos

Rasimania
Mauro Rasi, o Shakespeare de Bauru Crédito: Reprodução

Rodrigo Fonseca
Crônicas da vida familiar por vezes puxadas no tempero agridoce, mas, por vezes, levemente amargas, as peças de Mauro Rasi (1949-2003) começaram a sair do forno há 63 anos, quando ele ainda era adolescente, com "Duelo do Caos Morto", e contagiaram o teatro brasileiro, a partir de sua terra natal, Bauru (SP), com um espírito observacional sobre as convenções das famílias, entre pecados, delitos, cumplicidades e quereres. "A Cerimônia do Adeus" (1987), "A Estrela do Lar" (1989), "O Baile das Máscaras" (1991), "Viagem a Forli" (1993) e "A Dama do Cerrado" (1996) abrilhantam um repertório dramatúrgico do qual nossos palcos não abrem mão jamais. Basta passar uma única temporada sem uma montagem das narrativas rasianas para que alguém volte a redescobrir a força de sua dramaturgia. Há um eco de sua forma de escrever na recém-estreada “As Irmãs Pereira”, de Pedro Brício, no Sesc Copacabana, na qual o humor é um meio de expor feridas fraternas profundas, algumas ligas à imigração portuguesa. A partir deste fim de semana é a vez de “Alta Sociedade” trazer Mauro de volta. Essa delícia de comédia estreia nesta sexta-feira (31), no Teatro Vannucci, reunindo Julia Lemmertz e Orã Figueiredo sob direção de Emílio de Mello.


Escrita em 2000, a peça acompanha Sylvia e Leopoldo, um casal de milionários falidos que tenta fugir do país na noite de réveillon para escapar da Polícia Federal. O apartamento de frente para o mar, os carros importados, as obras de arte e as negociatas financeiras compõem um retrato mordaz de uma elite acostumada a confundir privilégio com impunidade. O texto ganhou atualização assinada por Amanda Jordão, incorporando referências contemporâneas sem alterar sua espinha dorsal.


“O texto permanece surpreendentemente atual — talvez até mais pertinente hoje do que quando foi escrito. As situações continuam as mesmas, mudaram apenas os nomes dos personagens da vida real”, afirma Emílio de Mello, que interpretou vários personagens autobiográficos de Rasi, que considerava esse ator e encenador uma espécie de alter ego seu. “Penso que o teatro brasileiro seria diferente se Mauro ainda estivesse escrevendo. Sua dramaturgia transformava as hostilidades e as idiossincrasias da nossa sociedade em humor de alta inteligência. Ele compreendia que o riso pode ser uma forma sofisticada de crítica social e, ao mesmo tempo, um gesto de afeto. Num Brasil cada vez mais polarizado, agressivo e incapaz de escutar o outro, a obra de Mauro permanece atual porque nos ensina a olhar para nossas contradições sem simplificá-las. Seus personagens nunca são heróis nem vilões; são seres humanos cheios de fragilidades, desejos e ambiguidades. É justamente por isso que sua dramaturgia continua sendo uma das formas mais sensíveis de compreender os modos de amar e de viver no Brasil: ela critica o país sem perder a ternura e faz do humor uma ferramenta de autoconhecimento coletivo.”

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Julia Lemmertz e Orã Figueiredo em "Alta Sociedade" | Foto: Nana Moraes


Poucos autores conseguiram retratar a classe média e a burguesia brasileiras com a mistura de afetividade, crueldade e ironia de Rasi, numa autopsia em corpo vivo da mesquinharia nossa de todo dia. Sua mirada misturava confissão, memória e crítica social. Ele deu continuidade à temática familiar iniciada por Naum Alves de Souza (1942-2016) em “No Natal, A Gente Vem Te Buscar” (1979), corporificando em palavras um zeitgeist que estava fora da cena brasileira, na reta final da ditadura militar (1964-1985).

Um dos textos da lavra de Rasi mais conhecidos, “Pérola”, de 1985 - escrito como um tributo à sua mãe e celebrizado na ribalta por Vera Holtz - voltou ao centro das atenções em 2022, quando Murilo Benício dirigiu sua adaptação cinematográfica, protagonizada por Drica Moraes. O longa se encontra disponível no streaming do Telecine (podendo ser visto via Prime Video).

À época que o filme passou no Festival do Rio, Murilo contou ao Correio da Manhã que teve “o privilégio de conviver bastante com o Mauro, desde quando ele me chamou pra fazer a peça 'As Tias', em 1995, onde eu o interpretei”.
“Aquela peça foi um sucesso absoluto de crítica e público, mas nada que se comparasse a 'Pérola', que, na época, era interpretada pela Vera Holtz”, disse Murilo, ao lançar o longa. “Quando eu assisti à peça pela primeira vez, fui jantar com o Mauro e falei que ele tinha que transformar a peça em filme. Acho que isso acabou ficando na minha cabeça, eu sabia do potencial daquela história", lembra o astro. "Infelizmente, Mauro nos deixou muito jovem. Então, quando eu decidi fazer a adaptação, eu tinha em mente que queria fazer uma versão que eu acreditasse que o Mauro faria. Os fãs da peça vão poder reconhecer a essência da obra no cinema”.

Da mesma forma, quem for rir com Lemmertz e Orã vai sentir um gostinho de Rasi em sua essência.

Serviço: Alta Sociedade estreia sexta-feira (31) no Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea, onde fica em cartaz até 27 de setembro, com sessões às sextas e aos sábados, às 20h30, e aos domingos, às 19h. Os ingressos custam entre R$ 60 e R$ 150, e a classificação indicativa é de 10 anos.