Antes de 1998, poucos apostariam que uma editora recém-saída de uma concordata se tornaria a maior força do entretenimento mundial. Agora, com “Homem-Aranha: Um Novo Dia” lotando salas desde as sessões iniciadas na quarta-feira e correndo para recuperar um investimento estimado em US$ 250 milhões, a Marvel vive mais um capítulo de uma hegemonia que parecia impossível há três décadas. O sucesso do novo filme estrelado por Tom Holland reforça uma trajetória que começou justamente quando Hollywood ainda desconfiava do potencial cinematográfico da editora.
Diante da expectativa criada em torno de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, é difícil imaginar um cenário em que a Marvel não dite os rumos do cinema de entretenimento. Desde a virada dos anos 1990 para os 2000, o estúdio consolidou o conceito de universo compartilhado e transformou personagens conhecidos principalmente pelos leitores de HQs em ícones globais da cultura pop.
Mas houve um tempo em que a situação era exatamente inversa. A Marvel era um gigante das histórias em quadrinhos incapaz de repetir nas telas o sucesso de suas publicações.
Durante quase quatro décadas, a editora fundada por Martin Goodman e reinventada por Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita Sr. e tantos outros criadores assistiu à rival DC Comics conquistar prestígio nas salas de cinema. Enquanto a Marvel acumulava adaptações modestas, a concorrente emplacava produções que redefiniram o gênero. “Superman” (1978), dirigido por Richard Donner, mostrou que um herói dos quadrinhos podia protagonizar uma superprodução de peso, enquanto “Batman” (1989), de Tim Burton, deu ao personagem uma atmosfera sombria e autoral que marcou época.
A Marvel, em contrapartida, parecia condenada a filmes de baixo orçamento, efeitos especiais limitados e pouca confiança por parte dos grandes estúdios.
Foi na televisão que seus personagens encontraram abrigo. Entre 1978 e 1982, “O Incrível Hulk” conquistou uma legião de fãs com Bill Bixby no papel do cientista David Banner e Lou Ferrigno como o Gigante Esmeralda. Em vez de reproduzir a grandiosidade das HQs, a série apostava em uma estrutura dramática inspirada em “O Fugitivo”, acompanhando Banner em sua jornada por diferentes cidades enquanto tentava esconder sua condição. O encerramento de cada episódio, ao som de uma melancólica trilha musical, tornou-se uma das imagens mais marcantes da TV daquele período.
Também fez sucesso “O Espetacular Homem-Aranha”, exibido entre 1977 e 1979 e estrelado por Nicholas Hammond. Embora os efeitos especiais fossem bastante modestos, com cabos aparentes e cenas repetidas de escalada, a produção apresentou Peter Parker a uma geração inteira de espectadores.
Nem mesmo a animação escapava das limitações orçamentárias. As séries produzidas nos anos 1960 reutilizavam diretamente ilustrações das HQs, movimentando apenas braços, pernas, olhos e bocas. O resultado era frequentemente descrito como uma animação quase estática, mas suficiente para apresentar personagens como Homem-Aranha, Capitão América, Hulk, Thor, Homem de Ferro e Namor a milhões de crianças.
No cinema, porém, o retrospecto era desanimador.
“Howard, o Super-Herói” (1986), produzido por George Lucas, transformou-se em um dos maiores fracassos comerciais da década. “O Justiceiro” (1989), estrelado por Dolph Lundgren, teve lançamento limitado e sequer chegou aos cinemas americanos. “Capitão América” (1990) sofreu com recursos escassos, enquanto “Quarteto Fantástico” (1994), produzido por Roger Corman apenas para preservar os direitos da franquia, jamais foi lançado oficialmente nos cinemas, tornando-se uma das produções mais lendárias — e menos vistas — da história das adaptações de HQs.
A situação da própria empresa também era delicada. Em meados dos anos 1990, a Marvel enfrentou uma grave crise financeira e entrou com pedido de concordata em 1996. Para sobreviver, passou a licenciar seus personagens para diferentes estúdios, abrindo mão do controle sobre boa parte de seus principais heróis.
Foi nesse cenário que surgiu “Blade — O Caçador de Vampiros”, em 1998. Em vez de apostar em um personagem consagrado, a Marvel levou às telas um herói relativamente desconhecido do grande público. A escolha revelou-se decisiva. Dirigido por Stephen Norrington e impulsionado pelo carisma de Wesley Snipes, o longa arrecadou mais de US$ 130 milhões em todo o mundo e provou que uma adaptação da Marvel podia ser adulta, estilizada e lucrativa.
Mais importante do que a bilheteria foi a mudança de percepção dentro da indústria. Hollywood voltou a enxergar os personagens da editora como propriedades de enorme potencial comercial. Pouco depois vieram “X-Men” (2000), “Homem-Aranha” (2002) e, anos depois, “Homem de Ferro” (2008), marco inaugural do Universo Cinematográfico Marvel.
Quase 30 anos depois, o êxito de “Homem-Aranha: Um Novo Dia” demonstra que a transformação iniciada por “Blade” continua produzindo resultados. Dos “Vingadores” às bilheterias bilionárias, das séries para streaming ao domínio da cultura pop, a Marvel construiu um império que parecia inimaginável quando seus heróis ainda sobreviviam graças à televisão e a adaptações de baixo orçamento. Hoje, com salas cheias para o novo Homem-Aranha, a editora volta a provar por que continua sendo a principal potência do cinema de super-heróis.
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