Emigrantes brasileiros acompanham as eleições
Moradores de Portugal, dos EUA e da França citam polarização e disputa acirrada
Há menos de três dias para o segundo turno das eleições, o embate entre os candidatos Lula e Flávio Bolsonaro não se reduz apenas às campanhas eleitorais, estendendo-se também aos eleitores por meio de diversas mobilizações. A atenção não está restrita ao solo brasileiro, reverberando entre brasileiros que emigraram para diferentes regiões do mundo. O Correio Sul Fluminense entrevistou quatro emigrantes para entender como eles enxergam as dinâmicas do segundo turno e como a realidade dos países em que eles moram afetam suas opiniões.
Moradora dos Estados Unidos
O maior colégio eleitoral brasileiro no exterior pertence aos Estados Unidos, com mais de 265 mil eleitores. A entrevistada Cleuza Ferreira, que mora no país desde 1988, declarou apoio direto ao candidato Lula. Para ela, a preocupação em relação às propostas de Flávio Bolsonaro parte da relação política que o candidato pretende nutrir com o governo norte-americano.
Como moradora, ela acredita que encarar os Estados Unidos como referência é fruto de uma "desinformação" de parte do eleitorado brasileiro, afirmando que o país enfrenta muitas dificuldades. Algumas das crises mencionadas por Cleuza no país de Trump envolvem moradia, alimentação e perseguição a imigrantes. A apuração da redação verificou que essas questões estão sendo documentadas pela mídia há pelo menos dois anos.
- As lojas estão vazias, tanto de clientes como de produtos, não se acha mais aquela abundância de mercadorias e preços baixos. Os aluguéis estão caríssimos e muitas pessoas estão vivendo dentro dos carros. Muitos perderam os empregos e os pequenos caminhoneiros tiveram que se desfazer do caminhão, pois a falta de serviço e o preço do diesel se tornou insustentável. Os tarifaços, guerras e deportações de imigrantes estão causando uma grande dificuldade na vida do povo. Quanto aos dois políticos, Trump e Bolsonaro, a diferença que vejo é que enquanto os brasileiros querem vender as riquezas das terras raras, os Estados Unidos querem buscar nos outros países tudo que possa tornar a vida dos americanos mais barata e, como patriotas que são, nunca pediriam que outro país invadisse seu território - declara.
Outro ponto tocado por Cleuza é em relação à saúde pública; ponto que tem sido explorado em ambas as campanhas de Flávio e Lula. Apesar de acreditar que o Sistema Único de Saúde (SUS) é passível de críticas, a entrevistada menciona que ainda apresenta condições melhores que nos Estados Unidos, que não oferece assistência gratuita.
-Tenho uma amiga que está tratando um câncer há alguns meses no Brasil, mesmo tendo cidadania americana e plano de saúde. Aqui, o tratamento é completamente grátis e, segundo ela, é muito bom. Se ela estivesse fazendo o tratamento nos Estados Unidos, estaria pagando uma boa parcela do salário e em uma situação financeira complicada", acrescenta.
Moradores de Portugal
Portugal é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro no exterior. Um dos entrevistados, Manoel Alves, acompanha a política brasileira de forma assídua mesmo morando fora do país. Ele afirma que também conhece outros brasileiros que moram na Europa e ainda engajam com as eleições, acrescentando que o sentimento geral entre os emigrantes é de "preocupação" com os possíveis resultados.
- Aqui em Portugal, tenho acompanhado algumas manifestações de brasileiros em apoio às candidaturas e à democracia. Em cidades como Lisboa, Porto, Braga e até mesmo em Aveiro, onde moro, tenho visto pessoas saírem às ruas para demonstrar suas posições. É uma forma de mostrar que, mesmo longe, continuamos participando e nos preocupando com o futuro do nosso país.
Manoel considera que o eleitorado brasileiro atual está altamente polarizado, e que as discussões sobre política extrapolam análises técnicas sobre as qualidades de cada candidato. "É triste ver o nosso país tão dividido. Tenho a sensação de que estamos vivendo uma disputa em que as ofensas, as acusações e os ataques pessoais acabam ganhando muito mais espaço do que as propostas para melhorar a vida dos brasileiros. O que mais me preocupa é pensar no Brasil que estamos deixando para as próximas gerações. Gostaria de ver um país em que as diferenças políticas não fossem motivo de tanta hostilidade", diz.
Em relação aos candidatos eleitos no primeiro turno, a reação de Manoel foi de insatisfação. Na sua visão, a futura composição do Senado e da Câmara dos Deputados não apresenta compromisso com a manutenção da democracia, nem parece possuir a capacidade de priorizar os interesses do povo sobre suas próprias convicções.
- O próximo presidente não governará sozinho. O Congresso terá um papel fundamental na aprovação de projetos, nas decisões que afetam a vida dos brasileiros e no equilíbrio entre os Poderes - conclui.
Rosilda Batista, que mora em Lisboa há quatro anos, compartilha da opinião de Manoel sobre os resultados do primeiro turno. "Bateu um desespero, pois estamos correndo um perigo grande. Nossa democracia está em risco e não podemos perdê-la". A entrevistada acrescenta que enxerga positivamente a mobilização dos brasileiros nas ruas em protestos que buscam manter o caráter democrático do país.
A entrevistada Mariana Simão, por sua vez, prefere não participar das votações por não acompanhar de perto as vivências brasileiras, sendo moradora de Portugal há oito anos. Apesar de não nutrir grande interesse por discussões políticas, Mariana afirma não estar alheia ao andamento das eleições, por ainda conversar com amigos brasileiros e por muitas dessas notícias acabarem reverberando entre os próprios portugueses.
Para Mariana, a disputa do segundo turno não é favorável para o Brasil e nenhum dos candidatos parece ser capaz de apresentar resultados positivos. "Acho que chegou a hora do Brasil parar de achar que só existe Lula ou Bolsonaro. A gente poderia começar a estudar e pensar em outras opções. O brasileiro vai precisar escolher entre dois candidatos ruins, e no final das contas nenhum vai fazer alguma coisa. É preciso um rosto novo, uma nova identidade", pontua.
Moradora da França
A entrevistada Cida Simão, residente da França, demonstrou apoio claro ao candidato Flávio Bolsonaro. Mesmo vivendo em Paris há mais de dez anos, ela afirma que continua optando por participar do processo eleitoral brasileiro. A preocupação de Cida é que o futuro governo brasileiro apresente características semelhantes ao governo francês, presidido por Emmanuel Macron desde 2017. Atualmente, o político enfrenta uma crise política severa, marcada por rejeição popular e ondas de protestos radicais. Cida tece críticas tanto a qualidade do governo de Macron, quanto aos próprios líderes das manifestações. "São pessoas da extrema esquerda que querem causar o caos. A maioria vive de benefícios do governo", aponta.
Apesar de Macron se denominar como um "centrista liberal", e ter seu atual mandato sob a revolta de grupos franceses de extrema esquerda, Cida considera que as políticas promovidas pelo político são mais favoráveis às ideologias socialistas.
-Quando me mudei para a França, o governo era de direita. Nós tínhamos muito mais poder de compra. Não tinha manifestação, não tinha nada. O país mudou para pior. Não é só sobre esquerda ou direita, é sobre o que é melhor para nós, que pagamos impostos, que trabalhamos - explica.