A Copa do Mundo do goleiro, do apito e do cartão de Trump
O brioso esporte bretão, como se dizia antigamente, antes da descoberta de que o futebol já era habitué na China e no México antes de vir a ser, tem sua mania curiosa: quando a bola rola, todo mundo acha que entende tudo. O torcedor vira técnico, o comentarista vira juiz. E aparece cada juiz de última hora com novidades que é uma piada pronta. Nem vou falar de Donald Trump... Aliás, pode ser que eu fale. A Copa do Mundo de 2026 entrou para essa galeria de histórias curiosas, daquelas que rendem conversa de botequim, risada de arquibancada, crônica de jornal e, também, choro eterno.
Foi uma Copa dos goleiros. Aqueles homens que antigamente usavam preto e eram vistos como urubus, de tanto azar que emanavam. E que depois passaram a usar vestimentas estranhas, de tantas cores estranhas, e muitas vezes passavam noventa minutos quase esquecidos. Desta vez resolveram roubar a cena. Enquanto os atacantes treinavam comemorações e os marqueteiros preparavam capas de revista, os goleiros tratavam de fazer milagres. Teve defesa que parecia encomendada diretamente ao espiritismo — que me perdoe o velho Allan Kardec, que, até onde se saiba, nunca bateu um baba; talvez no sobrenatural. O chute ia para um canto, a bola já comemorava o gol e, de repente, surgia uma mão salvadora. Nunca vi tantas pontas de dedo.
Também foi a Copa dos craques consagrados. Menos de Vini Jr. e de Neymar, coitado, que é uma vítima do destino — e você que venha com os caninos de fora morder minha canela. Os nomes esperados apareceram, fizeram o que deles se esperava e provaram que talento não envelhece; apenas muda de endereço. Mas, como toda grande competição, o Mundial também revelou seus coadjuvantes: aqueles jogadores que ninguém colocou na lista dos heróis e que terminaram ganhando aplausos. Taí o goleiro Vozinha. E os caras da Seleção de Cabo Verde.
Agora, se houve uma categoria que teve atuação irregular, foi a dos homens do apito. Os árbitros pareciam disputar uma competição particular para saber quem conseguia transformar um lance simples em uma reunião internacional. O VAR, que nasceu como salvador da pátria, em alguns momentos parecia mais um complicador oficial. O torcedor olhava para a televisão, olhava para o replay, olhava para o juiz e continuava com a mesma pergunta: "Afinal, foi falta ou foi filosofia?"
Foi também o Mundial das contusões, dos jogadores cansados, das pernas pesadas e das macas fazendo quase parte da escalação. Houve momentos em que parecia que o maior duelo da Copa não era entre as seleções, mas entre os atletas e o calendário apertado. Alguns jogadores entravam em campo já precisando de um abraço amigo e de uma semana de descanso.
Mas nenhuma invenção do futebol moderno conseguiu superar uma velha paixão humana: misturar bola e poder. Depois da Copa de 1982, quando o xeque do Kuwait invadiu o gramado para anular um gol da França a piada ruim foi a criação de uma nova posição: o "árbitro supremo". Donald Trump aparece como esse personagem capaz de dar cartão amarelo para a FIFA e ameaçar aplicar um vermelho institucional caso suas vontades não fossem atendidas.
Era a fantasia perfeita de uma crônica: o homem que não estava no campo querendo apitar o jogo; o juiz olhando para o banco de reservas e perguntando se precisava consultar alguém antes de marcar uma falta; a entidade máxima do futebol tentando equilibrar a bola com a diplomacia.
E assim vai terminando mais uma Copa: com goleiros transformados em santos, atacantes em deuses temporários, árbitros em personagens de comédia e torcedores descobrindo que, no futebol, às vezes, o maior espetáculo não está apenas nos gols — está também nas histórias que nascem depois deles. Nem quero citar a Seleção do Brasil. Teve seleção?