Fascismo versus democracia no Brasil e no mundo
Inegavelmente verifica-se um crescendo no mundo e também no Brasil de comportamentos políticos autoritários, da direita clássica e da extrem-direita com claros sinais de fascismo. O ícone desta ascensão autoritária e fascistóide é sem dúvida o Presidente estadounidense Donald Trump, com seu ufanismo MAGA (Make Amerika Great Again). Segue métodos violentos como se viu em seu apoio à guerra genocida de Netanyhau contra os palestinos da Faixa de Gaza, os bombardeios sobre o Irã e o ataque à Venezuela com o sequetro do presidente Maduro e de sua esposa, pondo o país sob administração norte-americana,como se fosse um protetorado.
O fascismo nasceu e nasce dentro de um determinado contexto de anomia, desordem social e crise generalizada como vimos no Brasil no governo de Jair Bolsonaro e um pouco em todas as partes do mudo. É fato que a hegemonia dos Estados Unidos está se esfacelando (mundo unipolar), com o surgimento de outros centros fortes de poder (mundo multipolar).Desaparece o mundo com regras, as certezas estabelecidas se debilitam. Ninguém consegue viver em paz com tal situação.
Cientistas sociais e historiadores como Eric Vögelin (Order and History, 1956; L. Götz, Entstehung der Ordnung 1954; Peter Berger, Rumor de Anjos: a sociedade moderna e redescoberta do sobrenatural,1973), mostraram que os seres humanos possuem um tendência natural para a ordem. Lá onde se assentam, criam logo uma ordem e o seu habitat. Exemplo claro nos dá o Movimento dos Sem Terra (MST): lá onde ocupam terras, estacelecem, em primeiro lugar, certa ordem, preservar as fontes de água, conservar a floresta em pé, constuir um centro comunitário e distribuir lotes para moradia e produção.
Quando desaparece, usa-se comumente a violência para impor a ordem. "O Leviatã" de Thomas Hobbes de 1651 (ed. Vozes 2020) elaborou o arcabouço teórico desta necessidade de ordem criada pelo uso da força. Todos os impérios, desde aquele dos romanos até o russo e o atual norte-americano, especialmente sob Trump, não ocultam sua excepcionalidade e se acercam ao Estado descrito por Hobbes, sempre alegando razões de segurança.
O nicho do fascismo,potanto, encontra seu nascedouro nesta desordem. Assim o final da Primeira Guerra Mundial gerou um caos social, especialmente na Alemanha e na Italia. A saída foi a instauração de um sistema autoritário, de dominação que capturou a representação política, mediante um único partido de massa, hierarquicamente organizado, enquadrando todas as instâncias, a política, a econônomia e a cultural numa única direção. Isso só foi possível mediante um chefe (Füher na Alemanha e o Ducce, na Itália) que organizaram um Estado corporativista autoritário e de terror.
Como legitimação simbólica cultuavam-se os mitos nacionais, os heróis do passado e as antigas tradições, geralmente num quadro de grandes liturgias políticas com a inculcação da ideia de uma regeneração nacional.Esta visão foi tão tentadora que capturou, por um curto tempo, o maior filósofo do século XX, Martin Heidegger e feito reitor da Universidade de Friburgo i. B. Especialmente na Alemanha os seguidores de Hitler se investiram da convicção de que a raça alemã branca é "superior"às demais com o direito de submeter e até de eliminar as inferiores.
Nos USA, atualmente, o supremacismo da raça branca encontra nessa visão seu embasamento prático. No Brasil a estratégia do governo de Bolsonaro foi perversa: destruir todo um passado seja na cultura, nas leis sociais e ambientais, seja nos costumes e implantar um regime com nítidos indicadores do pre-iluminismo, inspirados pelo lado escuro do passado.
A palavra fascismo foi usada pela primeira vez por Benito Mussolini em 1915 ao criar o grupo "Fasci d'Azione Revolucionaria". Fascismo se deriva do feixe (fasci) de varas, fortemente amarradas, com um machado preso ao lado. Uma vara pode ser quebrada, um feixe, é quase impossível. Em 1922/23 fundou o Partido Nacional Fascista que perdurou até sua derrocada em 1945. Na Alemanha se estabeleceu a partir de 1933 com Adolf Hitler que ao ser feito chanceler criou o Nacionalsocialismo, o partido nazista que impos ao país dura disciplina, vigilância e pavor.
O fascismo se apresentou como anti-comunista, anti-capitalista, como uma corporação que vai além das classes e cria uma totalidade social cerrada. A vigilância, a violência direta, o terror e o extermínio dos opositores são características do fascismo histórico de Mussolini e de Hitler e entre nós de Pinochet no Chile, de Videla na Argentina e no governo de Figueiredo e Médici no Brasil.
O fascismo nunca desapareceu totalmente, pois sempre há grupos que, movidos pelo arquétipo fundamental da ordem,querem impô-la até com violência.Em nome desta ordem o governo de Bolsonaro fez emergir o lado sombrio de nossa alma brasileira usando a violência simbólica (fake news) e real, defendo a tortura e torturadores, a homofobia e outras distorções sociais.
O fascismo sempre foi criminal. Criou a Schoah (eliminação de milhões de judeus e outros). Usou a violência como forma de se relacionar com a sociedade, por isso nunca pode nem poderá se consolidar por longo tempo. É a perversão maior da sociabilidade que pertence à essência do ser humano social. No Brasil ganhou uma forma trágica: o governo de Jair Bolsonaro se opôs à vacina contra o Covid-19, estimulou as conglomerações de pessoas, ridicularizou o uso da máscara e não mostrou qualquer sentido de empatia pelos familiares,pois deixou morrer mais de 300 mil dentre os 716.626 vitimados.
Querendo se perpetuar no poder, Bolsonaro forjou uma organização criminosa com militares de alta patente e outros, tentando dar um golpe de estado com o eventual assassinato das mais altas autoridades a fim de impor sua visão tosca do mundo. Mas foram denunciados, julgados e condenados pelo STF e assim nos livramos de um tempo de trevas e de crimes hediondos.
Nas eleições gerais deste ano de 2026 provavelmente surgirá o fascismo que subsiste.Combate-se este fascismo com mais democracia e com povo na rua. Deve-se enfrentar as razões dos fascistas com a razão sensata e com a coragem de reafirmar os riscos que todos corremos. Deve-se combater duramente quem usa da liberdade para eliminar a liberdade.Devemos unirmo-nos para preservar vidas e a democracia.
*Leonardo Boff: artigo publicado na revista LIBERTA do Instituto Conhecimento Liberta- São Paulo.
