Adolescência pode ir até os 32 anos, diz pesquisa
Especialista fala sobre a chamada 'adolescência prolongada' e seus efeitos
Por Ana Luiza Rossi
Um estudo da Universidade de Cambridge levantou discussões acerca do desenvolvimento humano durante a fase da adolescência. Em contraponto com o Estatuto da Criança e dos Adolescente (ECA), que situa o período entre 12 e 18 anos, o artigo publicado na revista científica 'Nature Communications' indica que a fase, na verdade, se estenderia até os 32 anos.
A especialista Carol Galdeano, que é psicóloga especialista em Saúde Mental nas Organizações pelo Instituto Einstein, explica que a chamada adolescência prolongada é quando traços da fase adolescente se tornam predominantes na vida adulta. O fenômeno social não acontece por escolha própria, mas por falta de marcos de desenvolvimento que são proporcionados por meio da vivência.
Apesar das discussões recentes, o estudo é um campo consolidado. Desde os anos 2000, estudos pioneiros de Jeffrey Arnett sobre a "Adultez Emergente", instituições como a APA (American Psychological Association) já reconhecem a adolescência prolongada. "Hoje, debate-se se o fenômeno é universal, ou se é patológico, mas é aceito como parte ou característica da cultura moderna. O foco atual da psicologia é entender como a infantilização social, em larga escala, compromete a autonomia das novas gerações", pontua.
Traços da fase
Segundo a especialista, um indivíduo que passa pela fase se caracteriza por cinco traços: a instabilidade, seja em moradia, trabalho ou relacionamentos; autofoco, direciona a atenção para os próprios pensamentos, emoções e comportamentos; exploração em testar novas identidades; sensação de estar 'no meio', ou seja, nem adolescência ou adulto; e otimismo com possibilidades.
O fenômeno passa a acender o alerta quando o indivíduo na faixa dos 30 anos permanece em uma estagnação funcional, ou seja, dependência para tomar decisões básicas. A pessoa está neste prolongamento costuma ter dificuldade em lidar com críticas ou cobranças por resultado no trabalho, tem incapacidade de gerar soluções próprias diante de desafios cotidianos que, por consequência, provoca o colapso emocional.
Ainda, a especialista explica que também é comum na fase ter atrasos em assumir compromissos afetivos estáveis e a paternidade ou maternidade é exercida de forma delegada, aos avós, por exemplo. Outro comportamento, é o uso intenso de redes sociais para criar 'curadorias de si mesmo', adotando personagens que simulam uma maturidade inexistente na vida real.
- O ambiente digital oferece o bônus da experiência, como diversão e informação, sem o ônus real, com riscos, esforço e erro. Ao substituir a vivência direta por soluções prontas, o jovem não desenvolve resiliência. Ele se torna um adulto "teórico", paralisado por medos e pensamentos, pois nunca treinou a capacidade prática de encontrar saídas por conta própria - afirma Carol.
Impacto profissional
O cenário comportamental também tem impacto direto no mercado de trabalho. "O mercado exige repertório e resiliência, justamente o que se perde quando não vive experiências desafiadoras. Pela primeira vez na história, observamos gerações com índices de QI inferiores às anteriores, que é um reflexo da falta de estímulo prático e cognitivo", diz Carol, que ainda completa: "O resultado é um jovem com medo de se arriscar, que prolonga a dependência financeira por não se sentir capaz de enfrentar a realidade profissional".
Outro ponto, são os prejuízos psicológicos. Segundo a especialista, o aumento no índice de TAG (Ansiedade Generalizada) e depressão apontam a severidade do caso.
No entanto, se houver equilíbrio, é possível que o adulto mantenha a criatividade e a capacidade de aprendizado contínuo, que são considerados traços juvenis saudáveis. "Se o indivíduo usar a tecnologia como ferramenta e não como substituta da vida, mantendo a curiosidade sem perder a capacidade de agir, é positivo", conclui Carol.