Psicóloga fala sobre danos emocionais causados pelas eleições
Segundo turno é marcado por polarização e embates entre eleitores
Após os resultados do primeiro turno da corrida presidencial, em outubro, os ânimos têm se tornado cada vez mais acalorados entre os eleitores. Enquanto o público favorável ao candidato Lula busca uma virada nas urnas, defensores de Flávio Bolsonaro tentam manter a vantagem do candidato. O embate entre o eleitorado se manifesta em atos urbanos e canais virtuais como "Exército do Lula" e "Tropa do Flávio".
Em meio à ssa dedicação intensa, muitos dos eleitores fizeram desabafos em relação ao cansaço emocional gerado pelo estresse dessa reta final. O Correio Sul Fluminense conversou com uma profissional da psicologia para entender o que motiva a paixão do público pelas eleições, de onde vêm os desgastes e quando a situação apresenta sinais preocupantes.
Instabilidade social
e ansiedade
Para a psicóloga Nina Andrade, o alto grau de envolvimento emocional do público nas eleições não é motivado apenas por opiniões políticas, acontecendo especialmente por consequência dos ideais e expectativas de futuro de cada indivíduo.
Essa atenção se torna mais exacerbada em decorrência do cenário específico deste segundo turno, marcado por uma grande polarização e discordância entre os eleitores. A sensação de instabilidade política, segundo Nina, gera insegurança de que o candidato vitorioso seja aquele que não represente os interesses do eleitor; ou, em casos de grupos marginalizados socialmente, que um futuro governo possa gerar perda de direitos conquistados e mais instabilidade social.
— Acredito que uma das principais fontes de angústia seja, justamente, a incerteza quanto ao resultado. Em termos da psicanálise lacaniana, essa incerteza pode ser pensada a partir da relação com aquilo que chamamos de o "Grande Outro" [sendo o "outro" entendido como as normas que organizam a vida social]. A atual situação coloca em jogo toda a existência de um mundo que já conhecemos - afirma Nina. E continua:
"Quando esse mundo parece ameaçado ou instável, também se abalam algumas das referências a partir das quais os sujeitos orientam suas vidas e projetam seu futuro. Abre-se precedentes para que novas perguntas sejam criadas na mente de cada um: nesse novo cenário, ainda posso contar com a proteção do Estado? Casais LGBTQIA poderão projetar um futuro amparado pelas instituições? Como pessoas racializadas terão garantido o acesso igualitário à educação? Como mulheres em situação de violência poderão encontrar proteção na lei? Tudo o que antes era garantido, se torna incerto".
Nina explica que a ansiedade representa, de forma simplificada, a pressa de um indivíduo em se proteger de um perigo que ainda não se tornou realidade. Na espera pelo fim das eleições, o mecanismo de muitos eleitores é estar hipervigilantes quanto às notícias, em uma tentativa de se blindar contra o "perigo" dos resultados.
-Saber o que os candidatos disseram, o que as pesquisas indicam e quais cenários estão sendo cogitados pode oferecer a impressão de que, se acompanharmos tudo de perto o tempo todo, conseguiremos antecipar o acontecimento e nos proteger de seus efeitos - diz a psicóloga.
Nina avalia que esse acompanhamento pode ser tão positivo quanto negativo: enquanto a vigilância pode ser uma forma de se educar politicamente e se preparar para possíveis desafios sociais, um estado extremo de alerta pode servir apenas para alimentar a sensação de ansiedade, sem gerar reações saudáveis e comportamentos produtivos.
— Quando a necessidade de monitoramento se torna permanente, a pessoa pode ter dificuldade de descansar mesmo nos momentos em que não há uma ameaça imediata. A exposição contínua ao discurso hostil pode ampliar a sensação de que o perigo se atualiza a cada segundo, mesmo que ela esteja naquele momento em um ambiente acolhedor, no meio de um banho quente ou aproveitando um prato de comida — diz.
Apesar de incentivar o debate sobre engajamento político saudável, a psicóloga também explica que é importante abandonar o estigma de que sentimentos como raiva e angústia sejam sinais de desequilíbrio, entendendo o que são respostas emocionais naturais e o que, de fato, pode ser caracterizado como um transtorno.
— Sentir medo, indignação, tristeza ou angústia diante de uma situação social incerta não constitui, por si só, um transtorno. Em determinadas circunstâncias, esses afetos expressam uma percepção compreensível de riscos reais. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de reconhecer que nem toda angústia precisa ser patologizada: às vezes, ela revela algo importante sobre o país em que vivemos — diz Nina, acrescentando que o sofrimento demonstrado por muitos nessa eleição demonstra que a realidade social apresenta necessidades de mudança e transformação.
Quando a preocupação política exige atenção
Nina explica que os sinais de que a preocupação eleitoral está afetando a saúde mental podem se manifestar tanto por meio de episódios de agitação intensa - como insônias, ataques de pânico, crises de ansiedade, queda de cabelo, picos de cortisol (hormônio do estresse) -, como em momentos de baixa no humor, como apatia e quadros depressivos.
A psicóloga reforça que grupos minoritários apresentam situações de estresse mais complexas. "[Aparecem] sofrimentos psíquicos singulares que remontam aos traumas infantis; sejam eles o medo do desamparo, a vontade de desaparecer, a dificuldade para expor as próprias opiniões frente a uma voz autoritária, a sensação de ser um estranho dentro da própria casa, a vergonha de suas identidades de gênero ou orientação sexual e tantas outras expressões daquilo que poderia ser resumido como uma angústia de não ser reconhecido. É interessante e cruel como um cenário político hostil toca de um jeito ou de outro nas dores da infância de cada um".
Para Nina, quando essa antecipação começa a interferir no momento presente, impedindo momentos de relaxamento, descanso, cuidado e manutenção da rotina, é importante buscar acompanhamento de um profissional da psicologia para encontrar maneiras de aprender a lidar com a angústia e o sofrimento político.
— A análise pode ajudar o sujeito a reconhecer o lugar que os ideais políticos ocupam em sua vida, a elaborar perdas e frustrações e a distinguir aquilo que está sob sua responsabilidade daquilo que não pode controlar individualmente - afirma.
A psicóloga também afirma que esse enfrentamento pode se apoiar em uma rede coletiva de apoio, que pode partir tanto da solidariedade de amigos próximos quanto em espaços públicos de participação política, como organizações, plenárias e atos. "É preciso ter força para pedir ajuda e para se propor a falar sobre o que dói", conclui.