Lançamento de cartilha alimentar ancestral
O Espaço das Artes Zélia Arbex, em Volta Redonda, sediou o lançamento de uma cartilha reunindo saberes gastronômicos dos povos de matriz africana. O material educativo foi faz parte do projeto Orum Ayê-Cozinha de Axé, construído pelo Centro Espírita Nossa Senhora da Guia, com o apoio da lei de incentivo à cultura Aldir Blanc.
Idealizada pelo Grupo das Marias, a publicação destaca as contribuições da Umbanda na segurança e soberania alimentar ao longo da história. A versão virtual da cartilha está disponível gratuitamente no link: acesse.one/cozinhadeaxe.
Mãe Ciça Morais, assistente social e idealizadora do projeto, destacou a importância dos conhecimentos dos povos africanos na segurança alimentar até os dias atuais e sua influência na construção da identidade cultural e gastronômica brasileira.
— Em tempos de fast food, pudemos falar de nutrição, de comida de verdade. Na correria do dia a dia, estamos perdendo a capacidade de fazer e, com ela, as memórias de nossos mais velhos. Quando falamos de ancestralidade, é importante mencionar da sabedoria que, através da alimentação dos que vieram escravizados de África, e nos manteve vivos até hoje. Reunimos na cartilha algumas receitas que preparamos durante os encontros para manter viva a nossa tradição e reforçar que quando cozinhamos pratos como uma feijoada, estamos saudando quem veio antes. Nossa gastronomia é de ponta, porque é simples, natural e preparada com muito afeto — afirmou Mãe Ciça Morais.
A cada um dos quatro encontros realizados durante o mês de maio para dar andamento ao projeto, uma receita foi preparada. Os pratos selecionados integram a liturgia de matriz africana, representando Minkisi (divindades da sociedade bantu). O encontro dos povos trazidos da África com os povos originários também foi abordado durante o Orum Ayê, reforçando a influência indígena para as religiões de matriz africana. Rômulo Arruda, agricultor orgânico e agroecológico comentou sobre a sua participação no projeto.
— Essa junção da agroecologia, umbanda e povos originários vem do encontro espiritual humano e a natureza. A gente pode dizer que os indígenas já fazem isso há muito tempo nos seus plantios baseados em elementos como as fases da lua, a época das chuvas. Trazem no alimento toda essa ancestralidade com um olhar sobre a terra não como um bem per capita, mas algo comum a todos. Então, falar de agroecologia, indígenas e umbanda é falar sobre a união de tudo que é o bem viver através de uma produção que não coloca nada sob risco, que tem o cuidado, que zela pela natureza, pelo equilíbrio — destacou.
A psicóloga Luciana Silva, que também participou dos encontros, comentou sobre o impacto emocional da culinária que é capaz de resgatar memórias e sentimentos.
— Estar aqui nesses encontros foi muito importante para mim para resgatar as memórias afetivas relacionadas ao alimento e ao seu preparo. Refleti sobre o quão importante é a gente pensar nas pessoas que vão comer, se nutrir daqueles benefícios que o alimento nos traz. Pensar também em quem planta, quem cultiva esses alimentos que são combustível não só para o nosso corpo, como para a nossa alma. Resgatei muitas memórias, pensei muito nos meus ancestrais e estou muito feliz por essa oportunidade de participar do Cozinha de Axé — disse.