Professor analisa conflito entre EUA e Venezuela

Captura de Maduro, ordenada por Trump, causou comoção mundial

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Por Lanna Silveira

A captura e prisão do líder venezuelano Nicolas Maduro, comandada pelo governo dos Estados Unidos, gerou grande comoção e polarização política em nível mundial. Em meio a questionamentos sobre a legitimidade da ação e preocupações gerais sobre as próximas medidas que serão tomadas pelos líderes norte americanos e venezuelanos, o Correio da Manhã conversou com Vagner Alves, professor da cadeira História do Tempo Presente do curso de História da UGB, para entender as motivações e os desdobramentos da atitude estadunidense, além de pensar em possíveis consequências futuras.

O governo estadunidense justifica que sua intervenção na política venezuelana é uma resposta ao envolvimento de Maduro em atividades de narcotráfico e terrorismo que estariam comprometendo a segurança dos Estados Unidos. Além de uma acusação formal ter sido levantada contra Maduro pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, as autoridades norte americanas alegam que o governo da Venezuela seria responsável por facilitar o envio de drogas em grandes quantidades para os Estados Unidos.

Vagner analisa que, para além das motivações oficiais, a intervenção estadunidense foi movida por questões políticas e econômicas: especificamente, pela busca de aceitação do governo Trump e pelo interesse dos Estados Unidos nas reservas de petróleo venezuelanas.

O professor explica que, desde seu último mandato, Donald Trump vem demonstrando queda em popularidade entre o eleitorado estadunidense: isso gera preocupações em relação ao resultado das eleições deste ano, já que, para sua cúpula, é interessante que seus aliados políticos representem uma maioria no parlamento do país. Por isso, a posição de ataque de Trump ao narcotráfico teria sido motivada pela necessidade de demonstrar força a seu público interno, já que a "guerra as drogas" é uma questão de grande engajamento entre os norte-americanos.

— Uma parte muito grande da população americana apresenta algum tipo de envolvimento com entorpecentes; a questão das drogas é muito forte lá. Por isso, o discurso do Trump de combater o narcotráfico atinge o sentimento dos americanos. Prender o Maduro, que é uma pessoa que o governo deles aponta como uma das grandes lideranças dos cartéis de drogas, é uma forma de mostrar força para a sociedade americana. É mostrar o Maduro como se fosse um 'troféu'.

Quanto ao interesse estadunidense no petróleo venezuelano, Vagner ressalta que, devido a falta de tecnologia e impossibilidades em investimento, a Venezuela não é capaz de aproveitar o potencial de sua reserva petrolífera - que é a maior do mundo, com mais de 300 bilhões de barris. Essa disponibilidade de acesso é interessante aos Estados Unidos, já que o país não somente é o maior produtor de petróleo do mundo, como também é o maior consumidor.

O professor também chama atenção para o fato de que o governo Trump acredita que as relações políticas internacionais devem ser regidas por uma divisão geopolítica que atribui "zonas de influência" às grandes potências mundiais: o continente asiático estaria sob o controle chinês, parte da Europa seria controlada pela Rússia e as Américas seriam controladas pelos Estados Unidos. "Quando ele faz esse ataque, ele também está dando um alerta às outras grandes nações e para os próprios países do continente, afirmando que na América ele 'manda'"

Autorização para agir

Vagner analisa que a discussão sobre "ferimento de direito internacional" atribuída à invasão dos Estados Unidos na Venezuela parte da ação de captura de um presidente estrangeiro sem que houvesse um mandado de prisão internacional contra esse governante. O professor explica que esse tipo de medida precisa seguir a uma série de regras estabelecidas pela ONU (Organização das Nações Unidas), a fim de evitar possíveis conflitos. Uma delas é a autorização do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), que não foi concedida a este ataque.

— Não existe uma acusação formal, que parta de órgãos internacionais, contra o Nicolas Maduro. Isso, por si só, caracteriza um desrespeito ao direito internacional. Quando o Donald Trump fala que vai administrar a Venezuela, se cria uma situação de guerra. Isso é vai contra qualquer questão que envolva direito internacional; ainda que a Venezuela esteja sob uma ditadura. Nada relacionado ao direito internacional autoriza que um único país tome esse tipo de decisão sem que haja um consenso entre os membros dos organismos internacionais

Apesar da afirmação de Trump de que os Estados Unidos governariam a Venezuela interinamente, e de uma sequência de exigências realizadas pelo governo estadunidense, a presidência do país foi assumida pela vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez. Vagner afirma não ser possível prever por quanto tempo a pressão norte-americana será mantida sob o governo venezuelano.

O professor acrescenta que a possibilidade de intervenção direta da ONU na situação, ou um posicionamento direto contra a ação estadunidense, é "quase nula", já que o exército estadunidense não se instalou no país e não iniciou uma guerra direta contra os venezuelanos. A questão principal que a organização está tentando mediar, atualmente, é a custódia de Nicolas Maduro em um território internacional.

Consequências

Para Vagner, a invasão estadunidense provocou um "terremoto" generalizado nas relações internacionais. "Essa ação do Trump deixou todo mundo assustado porque ele foi muito além do que se considera razoável: ele está mandando a mensagem de que pode tudo. Mesmo os países aliados aos Estados Unidos estão temerosos pelo futuro, porque se o governo dele achar interessante que algum território seja tomado, vai existir esse risco", complementa.

Considerando o contexto político da América Latina, Vagner acredita que a ação contra Maduro possa influenciar as eleições deste ano no Brasil, citando que muitos políticos favoráveis às políticas de Trump já estão traçando paralelos entre o cenário venezuelano à realidade brasileira. "Muitos [políticos] aliados do Bolsonaro, por exemplo, estão fazendo bastante barulho nas redes e associando a prisão do Maduro à esquerda e ao Lula de todas as formas possíveis. Isso pode dar um gás aos opositores do Lula e mesmo influenciar o próprio Trump a apoiar abertamente candidatos que se oponham ao Lula ou a qualquer um que seja contrário aos interesses americanos".

Em relação ao futuro do povo venezuelano, Vagner também declara que é difícil fazer previsões. Em sua análise, existem três cenários prováveis: o governo dos Estados Unidos apoiar o grupo militar que assumiu o poder na Venezuela e, em resposta, a população se levantar contra esse governo, o que aumentaria a repressão das forças armadas sobre a sociedade civil; o apoio estadunidense recair sobre os políticos de oposição à Maduro, oferecendo condições de reação contra os militares, iniciando uma guerra civil; ou uma invasão do próprio exército norte americano para retirar os militares do poder - uma possibilidade que Vagner acredita não ser condizente com os interesses dos Estados Unidos.