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Operação combate domínio do comércio de gás pelo Comando Vermelho

Facção ameaçava comerciantes e explorava a venda de botijões em áreas dominadas pela facção. Justiça mandou bloquear mais de R$ 327 milhões dos envolvidos

Por Adriano Araújo

Operação da Civil e do MPRJ mira monopólio do comércio de gás do Comando Vermelho

A Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaeco/MPRJ), realizam, nesta quarta-feira (28), a Operação Dominus, contra uma quadrilha ligada ao Comando Vermelho que explora a venda de gás e extorquia comerciantes em áreas dominadas pela facção.

Os agentes cumprem nove mandados de prisão e 44 de busca e apreensão. O MP também obteve na Justiça o bloqueio de mais de R$ 327 milhões em recursos vinculados aos denunciados no esquema. Quatro mandados já foram cumpridos, dois deles contra criminosos já encarcerados.

A investigação revelou um esquema em que a intimidação da facção era usada para impor regras comerciais e controlar a venda do gás de cozinha em comunidades dominadas pelo tráfico. A quadrilha ameaçava comerciantes e exigia a compra de botijão de empresas vinculadas à facção ou o pagamento periódico de valores para que os estabelecimentos pudessem continuar funcionando. As cobranças eram conhecidas como "metas do gás".

Os mandados são cumpridos em diferentes regiões do estado, principalmente em São Gonçalo, em localidades como Jardim Catarina, Trindade, Santa Luzia, Guaxindiba, Neves, Boaçu e Alcântara. As diligências também ocorre em bairros de Itaboraí, Duque de Caxias e Niterói, além do Recreio dos Bandeirantes e da Taquara, na capital. São alvos residências e estabelecimentos comerciais, especialmente distribuidoras e revendedoras de gás apontadas como integrantes ou vinculadas à quadrilha.

A investigação começou em 2024 e identificou uma organização com divisão de tarefas e funções específicas. A estrutura reunia operadores comerciais, responsáveis pela logística de distribuição, arrecadadores e integrantes ligados ao controle territorial do Comando Vermelho. Segundo a DDSD, a exploração do mercado de gás ultrapassou a atividade comercial e se tornou um mecanismo de obtenção de recursos sustentado por ameaças e coerção. "O grupo utilizava o poder de intimidação da facção para impedir a livre concorrência e assegurar que a comercialização de gás nas áreas exploradas permanecesse subordinada aos interesses do bando".

Foram ouvidas testemunhas, realizadas diligências de campo e cruzamento de dados cadastrais, além de analisarem registros de estações rádio-base, interceptações telefônicas e dados telemáticos obtidos mediante autorização judicial. "A análise de arquivos armazenados em dispositivos utilizados por um dos principais alvos também permitiu recuperar comunicações e identificar articulações entre responsáveis pela atividade comercial, arrecadadores e integrantes ligados ao tráfico de drogas".

Seundo a investigação, o esquema tinha uma estrutura organizada, com funções específicas e comunicação permanente entre seus integrantes. Um dos núcleos era responsável pela coordenação operacional e pela interlocução entre operadores comerciais, arrecadadores e integrantes ligados ao controle territorial do Comando Vermelho. Outro núcleo atuava na logística da comercialização do gás, acompanhando a distribuição do produto e a manutenção do monopólio nas comunidades exploradas. Também foram identificados os responsáveis pela cobrança e arrecadação de dinheiro, além de interlocutores vinculados à estrutura territorial da facção, que seriam responsáveis pelas ameaças aos comerciantes.

Conexão entre investigados e cúpula do CV

A investigação também identificou a relação entre integrantes da quadrilha e lideranças do Comando Vermelho. O principal investigado mantinha relações de proximidade e confiança com lideranças da facção, prestando apoio a interesses pessoais e à movimentação de integrantes da cúpula do CV. "Os elementos reunidos pela DDSD indicam que essa relação ultrapassava as articulações comerciais relacionadas à exploração do gás, abrangendo auxílio logístico e convivência pessoal com chefes do tráfico".

O alvo atuava na locação de imóveis para Edgard Alves de Andrade, o "Doca", apontado como a principal liderança em liberdade do Comando Vermelho. A apuração identificou, ainda, sua contribuição para a fuga dessa liderança do Complexo do Alemão durante a Operação Contenção, realizada em outubro de 2025.

A investigação também revelou relação de proximidade com uma liderança do tráfico na comunidade da Muzema. Ele, inclusive, foi convidado para a comemoração de aniversário da filha do traficante. O investigado desempenhava papel relevante na conexão entre a estrutura empresarial utilizada pelo grupo e as lideranças responsáveis pelo domínio armado das comunidades.

Os policiais também apuram a ocultação de recursos e patrimônio por meio de empresas e pessoas "laranjas". As diligências apontaram que estruturas empresariais legais eram colocadas em nome de terceiros, especialmente nos setores de distribuição de gás e construção civil, e poderiam ser utilizadas para movimentar valores e dificultar a identificação dos reais controladores e beneficiários. O cruzamento de dados financeiros, cadastrais e telemáticos apontou movimentações incompatíveis com a renda declarada de pessoas relacionadas ao esquema e vínculos entre empresas e interesses patrimoniais dos alvos.

As operação conta com o apoio de equipes de outras unidades do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core).