Ruas do Alemão ganham telhados em estratégia contra ataques de drones

Imagens analisadas pela Polícia Civil mostram mudanças em menos de três meses; estruturas podem dificultar ataques de facções rivais e também o monitoramento aéreo das autoridades.

Por Bianca Lobianco

Ruas do Complexo do Alemão desaparecem com colocação de telhados em toda a extensão por conta da guerra dos drones entre facções

A reação das facções à nova tecnologia também aparece no Complexo do Alemão, na Zona Norte. Imagens analisadas pela Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil, mostram mudanças significativas na paisagem da região em menos de três meses. Os investigadores compararam imagens de novembro de 2025 com registros aéreos produzidos em fevereiro de 2026. Em determinados pontos, ruas e vielas que antes estavam expostas passaram a ficar cobertas por estruturas de alvenaria e telhados, desaparecendo no mapa. 

Em uma área que funcionava como estacionamento, por exemplo, foi instalada uma cobertura. Em outro ponto, uma laje recebeu uma piscina. A polícia considera que algumas dessas estruturas podem ter sido construídas para dificultar ataques realizados por drones de grupos rivais. Ao mesmo tempo, os telhados prejudicam a visualização aérea utilizada pelas próprias forças de segurança.

A estratégia não seria exclusiva do Alemão. Estruturas semelhantes também foram identificadas no Rebu, em Senador Camará, na Zona Oeste. Em abril, uma construção desse tipo em uma comunidade de Niterói foi parcialmente demolida em uma ação conjunta da Polícia Civil e da prefeitura.

Para a polícia, a mudança arquitetônica revela uma espécie de corrida tecnológica entre as organizações criminosas: enquanto uma facção utiliza drones para obter visão aérea e atacar adversários, grupos rivais procuram criar obstáculos físicos para impedir a aproximação dos equipamentos.

Tecnologia acessível gera uso criminoso

Os drones utilizados pelos criminosos são equipamentos disponíveis legalmente no mercado. O que transforma a operação em crime é a finalidade e a forma como os aparelhos são empregados, especialmente quando adaptados para transportar explosivos ou utilizados em áreas onde o voo representa risco.

A regulamentação brasileira passou por uma atualização importante em junho. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) colocou em vigor o RBAC nº 100, que substituiu o modelo anterior e passou a classificar as operações de acordo com o risco.

Nas operações consideradas de menor risco, o limite de altura é de 120 metros, ou 400 pés, além de outras exigências de segurança. Operações que ultrapassam esses parâmetros ou apresentam maior risco podem ser enquadradas em categorias que exigem avaliação específica e autorizações adicionais. O acesso ao espaço aéreo também envolve regras do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).

A própria regulamentação estabelece que o drone não pode ser operado de maneira descuidada ou negligente quando isso colocar vidas ou propriedades em risco. O transporte de artigos perigosos também é proibido nas operações abrangidas pela resolução específica para equipamentos de até 250 gramas.

No caso investigado pela polícia no Rio, entretanto, os criminosos utilizam os equipamentos justamente para uma finalidade incompatível com as regras de segurança: transformar drones em plataformas para ataques com explosivos.

O surgimento de cursos clandestinos acrescenta uma nova preocupação para as forças de segurança. Se confirmada a hipótese investigada, a capacitação pode ampliar o número de pessoas capazes de operar os equipamentos e, consequentemente, facilitar a disseminação de uma tecnologia que já vem sendo utilizada em disputas territoriais.

A Polícia Civil mantém as investigações para identificar os responsáveis pelos treinamentos, pelos ataques e pela adaptação dos drones. O avanço do fenômeno também levou a corporação a reforçar a estrutura especializada no monitoramento e enfrentamento do uso criminoso dessas aeronaves. Segundo levantamento divulgado pela Folha, a polícia criou a Coordenação de Análise e Ação com Tecnologias (Coant) e destinou cerca de R$ 2,1 milhões para equipamentos e estrutura voltados a esse tipo de ocorrência.