Tráfico cria treinamento de drones no Rio enquanto facções usam tecnologia para atacar rivais

Imagens da polícia mostram fila para curso no Complexo da Penha. Investigação aponta 18 casos de explosivos lançados por drones

Por Bianca Lobianco

Imagens obtidas pela polícia mostram uma fila de pessoas em uma quadra do Complexo da Penha, na Zona Norte, onde teria sido realizado um curso de operação de drones.

O avanço do uso de drones pelo crime organizado no Rio de Janeiro ganhou uma nova dimensão: além de utilizar os equipamentos para monitorar territórios e lançar explosivos contra grupos rivais, traficantes passaram a oferecer treinamento para novos operadores. Imagens obtidas pela polícia mostram uma fila de pessoas em uma quadra do Complexo da Penha, na Zona Norte, onde teria sido realizado um curso de operação de drones.

A capacitação teria ocorrido há cerca de duas semanas e, segundo as investigações, seria promovida por criminosos. Para as forças de segurança, o treinamento indica que o uso da tecnologia deixou de ser uma iniciativa pontual e passou a fazer parte da estrutura de atuação das facções.

A Polícia Civil investiga atualmente 18 ocorrências envolvendo bombas lançadas por drones no estado. A corporação, porém, suspeita que o número real seja maior. O levantamento considera casos em investigação e não deve ser confundido com as denúncias registradas pelo Disque-Denúncia.

Os registros do serviço mostram como o fenômeno ganhou escala. Em 2023, houve o primeiro relato de um drone equipado com uma granada. Em 2024, foram quatro registros. Já em 2025, foram contabilizadas 73 denúncias envolvendo traficantes e outras 14 relacionadas a milicianos.

A escalada também foi observada em diferentes pontos da cidade. No início de agosto, confrontos entre grupos ligados ao Comando Vermelho (CV) e ao Terceiro Comando Puro (TCP) na Zona Norte foram acompanhados por ataques com drones carregando artefatos explosivos. Um dos episódios ocorreu no Complexo da Penha.

Em outro caso recente, um drone foi utilizado para lançar uma granada contra um trailer na região de Vargem Grande. Segundo a Polícia Militar, os criminosos teriam utilizado um imóvel no Recreio dos Bandeirantes como ponto de decolagem. Dois suspeitos foram presos posteriormente, e a polícia apreendeu o equipamento utilizado no ataque, além de outras granadas, dinheiro e materiais relacionados à ação.

O problema não está restrito às áreas de confronto entre criminosos. Drones usados por traficantes também passaram a representar risco para a aviação, principalmente porque alguns equipamentos foram identificados próximos a rotas utilizadas por helicópteros e aeronaves que chegam e saem do Aeroporto de Jacarepaguá, na Zona Oeste.

Em um dos episódios investigados, o trajeto de um drone utilizado em um ataque passou por uma área empregada por aeronaves durante a aproximação para pouso. A preocupação das autoridades é que uma colisão entre um drone e uma aeronave tripulada possa provocar danos graves.