Fotolivro transforma corpos trans em paisagem

A obra "Ocupação Mutante" propõe ríticas ao preconceito

Por Por Clara Santa Rosa

Obra "OCUPAÇÃO MUTANTE" recria corpos trans em paisagem

A partir de memórias da juventude no centro do Rio de Janeiro, a fotógrafa Índigo Braga dá origem ao fotolivro Ocupação Mutante, obra que propõe uma inversão potente de perspectiva: corpos trans e travestis deixam de ocupar espaços marginais e passam a habitar a cidade de forma monumental, visível e simbólica.

O lançamento acontece no próximo dia 23 de maio, na livraria Belle Époque, no Méier. Produzido por Paulo Abrão e publicado pela Editora Telaranha, o livro atravessa arte, política e ficção para refletir sobre identidade, pertencimento, território e violência de gênero.

A inspiração inicial vem de imagens que a artista via ainda jovem, como pequenos lambe-lambes colados em postes e orelhões, onde travestis apareciam isoladas, quase invisíveis no tecido urbano. A partir desse incômodo, surge o questionamento que guia o projeto: e se esses corpos, historicamente ocultados, ocupassem a cidade como figuras gigantes, impossíveis de ignorar?

Com referências à ficção científica, especialmente ao imaginário de Godzilla, Índigo constrói um universo visual em que quatro modelos, chamadas de "Mutantes", surgem com mais de 100 metros de altura, interagindo com a paisagem carioca. A artista utiliza montagem fotográfica para sobrepor imagens produzidas em estúdio a cenários reais da cidade, criando composições que transitam entre o fantástico e o documental.

Cada Mutante é relacionada a um elemento do Rio. A personagem de Siren Rara é ligada a Baía, uma deusa aquática. Idra Maria é provocadora e ligada ao concreto, ao industrial. Kaetérine Terra é uma deusa da natureza, e Niara Felipe é vinculada ao urbano, ao plástico, até mesmo ao Saara. O Rio apresentado passa longe da zona sul, com fotos de regiões como o largo da Carioca, ilha do Fundão e ilha de Paquetá.

"No fotolivro pretendo discutir sobre a presença e pertencimento de pessoas trans e travestis na cidade, deslocando esse corpo do lugar de subalternidade historicamente colocado e elevando-nos a uma posição de criaturas mágicas, folclóricas, monumentais. O livro também provoca um olhar de naturalidade: não há exotificação das Mutantes, nem narrativas de violência impostas a elas." explica a artista.

Além da proposta estética, o projeto também aposta na acessibilidade: o fotolivro contará com versão em audiodescrição, ampliando o acesso a pessoas cegas e com baixa visão. Como desdobramento urbano, a obra também será divulgada por meio de cartazes em formato lambe-lambe espalhados pelo Centro do Rio de Janeiro.