Mulheres da Mangueira transformam sustentabilidade em liderança e autonomia

No Dia Internacional da Mulher, o Projeto Omìayê reforça que a sustentabilidade não se limita ao tratamento de resíduos ou à inovação tecnológica. Ela se constrói, sobretudo, quando mulheres têm acesso a trabalho digno, conhecimento e protagonismo.

Por Redação

Para muitas trabalhadoras, essa é a primeira experiência de trabalho formal, com carteira assinada e renda fixa

No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, uma ação com liderança feminina na comunidade da Mangueira, na Zona Norte do Rio de Janeiro, chama a atenção. Por lá, a sustentabilidade tem rosto, nome e protagonismo feminino. À frente da EcoFábrica do Projeto Omìayê, do Instituto Singular Ideias Inovadoras, nove mulheres da própria comunidade comandam um modelo de economia circular que une tecnologia, geração de renda e impacto ambiental real, sendo seis delas nascidas e criadas na Mangueira, responsáveis por todas as etapas do processo produtivo: da triagem e filtragem do óleo de cozinha usado à produção de ecosabões, detergentes e lava-roupas, passando pela operação de equipamentos, controle de qualidade e logística das Estações de Tratamento Comunitário. Não há divisão simbólica de tarefas: elas fazem a fábrica funcionar de ponta a ponta.

Desde o início da operação, os resultados ambientais alcançados evidenciam a escala e a relevância do trabalho liderado por essas mulheres. A iniciativa já coletou 6.250 litros de óleo de cozinha usado, evitando a contaminação de cerca de 156 milhões de litros de água, volume que se aproxima a um total de 62 piscinas olímpicas. A partir desse processo, foram fabricados 5.600 quilos de sabão ecológico Omì, capazes de tratar mais de 5,6 milhões de litros de esgoto, além de 980 litros de detergente, que já contribuíram para o tratamento de 980 mil litros de esgoto - aproximadamente 1000 caixas d’água. Em fase de testes, a produção de 600 litros de lava-roupas líquido tem potencial para tratar aproximadamente 600 mil litros de esgoto. Somam-se a esses números as pastilhas biorremediadoras, responsáveis pelo tratamento de 15 milhões de litros de esgoto.

Para além dos números, o impacto é também social. Para muitas trabalhadoras, essa é a primeira experiência de trabalho formal, com carteira assinada e renda fixa. Um marco que vai além do aspecto financeiro e ambiental: a estabilidade permite planejamento, traz segurança para as famílias e rompe ciclos históricos de informalidade comuns às periferias urbanas.

Ao ingressar no projeto, as mulheres recebem capacitação prática e contínua em microbiologia, processos de saponificação, boas práticas de fabricação e segurança no manuseio de insumos. Conhecimentos técnicos que raramente chegam a territórios periféricos passam a fazer parte do cotidiano da comunidade e se multiplicam para além dos muros da fábrica, alcançando famílias, vizinhos e ações de educação ambiental. As mulheres participam ativamente da organização da produção, sugerem melhorias nos processos, contribuem para ajustes nas fórmulas e ajudam a definir a dinâmica da coleta de óleo no território. A EcoFábrica é um espaço pensado, gerido e conduzido por elas.

Divulgação - A iniciativa já coletou 6.250 litros de óleo de cozinha usado

Uma dessas trajetórias é a de Monique Feliciano, 32 anos, que atua no processo de filtragem do óleo usado no projeto e viu sua história de vida ser mudada de repente:

“Minha vida sempre foi marcada por muitas dificuldades. Já trabalhei em uma fábrica de bolos, mas era muito longe de casa e eu dependia da ajuda do meu marido para cuidar dos nossos filhos. Com o tempo de deslocamento e a distância da família, percebi que não estava conseguindo acompanhar o crescimento dos meus filhos e decidi voltar para a Mangueira, que sou cria. Mas perder meu marido mudou tudo. Me vi sozinha, responsável por sustentar a casa e criar dois filhos. Precisei encontrar forças para seguir em frente, mesmo em meio ao luto e às responsabilidades, e foi aí que o projeto entrou”, disse.

O convite de uma amiga, que já atuava no projeto e, foi o pontapé inicial de Monique. A partir daí, sua rotina e perspectivas mudaram. Há um ano, ela atua no processo de fazer sabão para a comunidade e pretende continuar: “Quando comecei no projeto, foi muito desafiador aprender de trabalho novo e ter que ser ao mesmo tempo pai e mãe dos filhos. Pensei em desistir algumas vezes, mas sempre que olho para eles eu me fortaleço e continuo. Eles sabem com o que eu trabalho e dizem que tem muito orgulho da mãe. Hoje, vejo o projeto como um espaço de acolhimento. Aqui eu tenho trabalho e tempo de qualidade para estar presente na vida dos meus filhos.”

Como mensagem para outras mulheres, Monique reforça o papel transformador que a iniciativa teve em sua história e espera que possa incentivar outras mulheres a terem a mesma coragem que um dia faltou nela:

“Espero que outras mulheres que passaram por situações parecidas com a minha possam enxergar o projeto como eu enxergo: um lugar de oportunidade e recomeço. A gente vê a mudança acontecendo na comunidade e sabe da importância de orientar os moradores sobre a separação correta do óleo. Para as mulheres, deixo uma mensagem: não tenham medo de se desafiar e nunca deixem de acreditar na própria força e no próprio valor”, afirmou.

A concepção e coordenação do projeto também reflete a lógica de construção coletiva e feminina. Para Jéssica Delgado, Coordenadora Administrativa do projeto Omìayê, a ciência só faz sentido quando dialoga com a realidade dos territórios:

“Todo início de projeto é desafiador. No nosso caso, desde a instalação dos equipamentos até a capacitação das meninas, cada etapa exigiu muito trabalho e dedicação. Mas um dos maiores desafios foi conquistar a confiança do território e fazer com que os moradores compreendessem a importância do projeto para a comunidade. Quando os próprios moradores começaram a perceber as melhorias que o projeto estava trazendo para a comunidade, passamos a ser abraçados por eles. Hoje temos muito orgulho dos resultados que já alcançamos junto à comunidade da Mangueira.”

Ela destaca ainda que, um dos desafios foi encontrar soluções adaptadas à realidade da comunidade e com o protagonismo das mulheres da Mangueira no processo de decisão, a implementação foi exitosa:

“A gente sabe que muitos territórios periféricos não têm e provavelmente nunca terão estrutura convencional de saneamento, por conta da sua conformação e da própria realidade desses lugares. Então a gente identificou que poderia ter muito êxito levando esse tipo de solução para ambientes de comunidade. A nossa forma de atuação é muito horizontal e no dia a dia as mulheres colaboram, sugerem, têm opinião e autonomia. Elas não são funcionárias, elas são parte estruturante do projeto. Sem elas, o projeto não existiria do jeito que existe hoje, elas conhecem a realidade e direcionaram as necessidades”, disse.

Para Jéssica, o impacto mais profundo está no reconhecimento e na autoestima das mulheres envolvidas:

“Para mim é um orgulho enorme fazer parte disso. Ver mães e mulheres que enfrentam tantas dificuldades no dia a dia se reconhecendo dentro do projeto, ganhando conhecimento, sendo capacitadas e atuando no seu próprio território é muito gratificante. Elas falam do projeto com orgulho para os filhos, netos e sobrinhos, e isso mostra a importância de colocar as mulheres em um lugar de respeito, onde elas nunca deveriam ter deixado de estar”, afirmou.

No Dia Internacional da Mulher, o Projeto Omìayê reforça que a sustentabilidade não se limita ao tratamento de resíduos ou à inovação tecnológica. Ela se constrói, sobretudo, quando mulheres têm acesso a trabalho digno, conhecimento e protagonismo. Na Mangueira, essa transformação já está em curso e é conduzida por mulheres que fazem da própria comunidade um território de liderança, cuidado e futuro.

Sobre o Instituto Singular Ideias Inovadoras


O Instituto Singular Ideias Inovadoras é uma organização de impacto social que, desde 2009, atua na interface entre ciência, justiça social e sustentabilidade. Desenvolve programas voltados à educação ambiental, à economia circular e à inclusão produtiva, sempre buscando soluções inovadoras para desafios socioambientais. Saiba mais: www.institutosingular.org.br

Sobre o Projeto Omìayê


O Projeto Omìayê é uma iniciativa de saneamento ecológico circular e educação ambiental que transforma óleo usado em Ecosabões biorremediadores. Além de promover ações de cuidado com a água e com o território, une tecnologia social e mobilização comunitária para fortalecer práticas sustentáveis e gerar impacto positivo nas comunidades. Saiba mais: www.omiaye.com.br