Voltas às aulas: como facilitar a jornada de alunos autistas

Mestre em Educação Especial e Inclusiva, Rosa Kelma Carneiro orienta os responsáveis a propiciar um retorno mais tranquilo

Por Paula Vieira

Os responsáveis podem contribuir para a adaptação dos filhos ainda em casa

O fim das férias escolares gera um misto de expectativas e desafios, especialmente para famílias atípicas. O que para muitos é uma transição simples, para crianças e jovens com autismo e outras síndromes exige um planejamento minucioso para evitar crises e garantir o aprendizado.

Para orientar pais e responsáveis nesse reinício, Rosa Kelma Carneiro, sócia-diretora da Clínica Reabiliarte e mestre em Educação Especial e Inclusiva, destaca que a adaptação vai além do acolhimento afetivo, passando também pela estrutura técnica da escola.

“Muitos itens precisam ser observados pelas famílias neste momento tão delicado que é a volta as aulas. Verificar livros, espaço físico, número de alunos e profissionais que estarão à disposição na escola, são alguns. Tudo precisa estar alinhado e favorável ao bom desenvolvimento da criança atípica. A escola precisa se adaptar às necessidades pedagógicas e inserir atividades lúdicas e concretas para facilitar a aprendizagem”, explica a especialista.

O papel da previsibilidade
A resistência escolar muitas vezes nasce do medo do desconhecido. Rosa Kelma reforça que a família deve atuar como uma ponte entre a casa e a nova realidade. Se houver mudança de colégio, o ideal é visitar o local antes do início oficial das aulas. Para os alunos que não utilizam a fala, o suporte visual é indispensável.

“Se a criança está mudando de escola, o primeiro ponto é mostrar antes a escola nova. Para crianças não verbais, uma boa opção é mostrar fotos e figuras de como será a rotina e o espaço. Destacando o que é de interesse da criança”, orienta Rosa.

Direitos e adaptações pedagógicas
Um ponto que gera muitas dúvidas é o material didático. É importante que os pais saibam que a inclusão prevê flexibilidade, conforme previsto na Lei Federal 12.764/12. Se o conteúdo for inacessível para o nível atual do aluno, a escola tem o dever de realizar ajustes.

“Se os livros didáticos estiverem muito distantes da realidade pedagógica da criança, o material precisará ser adaptado. Então o responsável precisará buscar na escola a informação sobre quem fará essa adaptação. A criança que tem qualquer neurodivergência comprovada tem direito a uma lista de material flexível. Lembrando que o currículo precisa ser adaptado, flexibilizado, mas alguns conteúdos precisam ser dados”, detalha Rosa Kelma.

Infraestrutura e mediação
A análise do ambiente físico e da equipe também é determinante. Questões como o tamanho das turmas e a experiência dos professores com a neurodivergência podem ditar o sucesso do ano letivo. A especialista sugere que os pais questionem se a escola oferece professor mediador, se aceitam assistente terapêutico (AT) e se a equipe pedagógica está aberta a trocar informações com os terapeutas clínicos que já acompanham a criança.

Embora o período gere ansiedade, o foco deve ser na comunicação clara e constante com o estudante. A falta de preparo pode gerar uma desestabilização prolongada e prejudicar a relação da criança com o ambiente acadêmico.

“É um momento de apreensão mas com a criança atípica essa apreensão é ainda maior. A desestabilização pode vir e perdurar, e o que é ainda pior, pode gerar resistência à escola. Então não deixem de dar previsibilidade (mostrar o que vai acontecer), muitas vezes essa previsibilidade precisará ser feita através de imagens”, finaliza a especialista.