‘Comissão’ do CV irá para presídios federais finalmente
Solicitação do governador foi aceita após megaoperação contra o Comando Vermelho que resultou em 81 prisões e 64 mortos, entre eles, quatro policiais
O Governo do Estado do Rio de Janeiro promoveu, nesta terça-feira (28), a maior operação contra o narcotráfico na capital fluminense. Com 2,5 mil policiais civil e militares, a ação aconteceu nos Complexos da Penha e do Alemão, com a apreeensão de 93 fuzis e grande quantidade de drogas ainda em contabilização, além da prisão de 81 pessoas, dentre elas Thiago do Nascimento Mendes, o Belão do Quitungo, um dos chefes do Comando Vermelho da região, e Nicolas Fernandes Soares, apontado como operador financeiro de um dos altos chefes do CV, Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso. O saldo negativo foi a morte de 64 pessoas, dentre elas quatro policiais: Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho, de 51 anos, conhecido como Máskara, recém-promovido a chefe de investigação da 53ª DP (Mesquita); Rodrigo Velloso Cabral, de 34 anos, da 39ª DP (Pavuna); Cleiton Serafim Gonçalves, 40 anos, do Batalhão de Operações Especiais (Bope); e Herber Carvalho da Fonseca, do Batalhão de Operações Especiais (Bope).
Deflagrada após mais de um ano de investigação e 60 dias de planejamento, a operação cumpriu 69 de mandados de prisão e de busca e apreensão expedidos pela Justiça a partir de inquéritos da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), em 180 endereços.
"Estamos atuando com força máxima e de forma integrada para deixar claro que quem exerce o poder é o Estado. Os verdadeiros donos desses territórios são os cidadãos de bem, trabalhadores. Seguiremos firmes na luta contra o crime organizado", disse o governador Claudio Castro.
Participaram da operação policiais militares do Comando de Operações Especiais (COE), de batalhões da capital e da Região Metropolitana, além de equipes da CORE e de todas as delegacias especializadas da Polícia Civil. O aparato tecnológico incluiu dois helicópteros, 32 blindados terrestres, drones, 12 veículos de demolição do Núcleo de Apoio às Operações Especiais da PM e ambulâncias do Grupamento de Salvamento e Resgate.
"Seguiremos firmes na luta contra o crime organizado. O que estamos enfrentando não é mais crime comum, é narcoterrorismo. Os criminosos estão usando tecnologia de guerra: drones, bombas e armamentos pesados. Mas o Estado está preparado", ressaltou Castro.
Impactos no Rio
Em retaliação à operação, traficantes promoveram o caos na cidade, com o fechamento de várias ruas, avenidas e linhas expressas: Anchieta, Centro (Rua do Riachuelo), Méier, Engenho Novo, Grajaú-Jacarepaguá, Freguesia (Rua Edgard Werneck), Avenida Brasil (altura da Av. Brigadeiro Trompowski, na Maré; na altura do Piscinão de Ramos, em Ramos; e na altura da Passarela 28, em Barros Filho), Linha Amarela (altura do pedágio), Linha Vermelha (altura da Pavuna), Cidade de Deus, Chapadão, Engenho da Rainha, Guadalupe (na altura do shopping Guadalupe), Cascadura (na Ernani Cardoso), Complexo do Alemão e Penha.
A Secretaria Municipal de Saúde informou que cinco unidades de saúde tiveram o funcionamento interrompido pela operação. Já Secretaria Municipal de Educação fechou 28 escolas no Alemão e 17 na Penha. E a Secretaria Estadual de Educação fechou quatro colégios. Além disso, a RioÔnibus mudou o itinerário de 120 linhas.
O prefeito do Rio, Eduardo Paes, que acompanhou tudo no Centro de Operações da Prefeitura, pediu calma à população.
"Infelizmente hoje é um dia que ultrapassou, se é que já não temos ultrapassado há muito tempo no campo da segurança pública. Já vivemos uma situação inaceitável cotidianamente, mas tem que ter calma dentro do possível. Todo mundo conhece os caminhos, deve buscar os modais de transporte que estão funcionando e acompanhar as informações oficiais", disse Paes.
Sobre o caos na cidade, o prefeito disse que as forças municipais vão dar todo o apoio para o poder estadual para manter a ordem na capital fluminense.
"Não podemos aceitar que os grupos criminosos tomem a cidade assim. Já vemos parte do território, agora ver a cidade inteira paralisada por isso não vai acontecer. A prefeitura vai continuar trabalhando. Infelizmente, o desenvolvimento das ações de segurança são de responsabilidade das forças de segurança estaduais, mas estamos aqui para dar todo o apoio", afirmou Paes.
Policiamento nas ruas
Nas redes sociais, o secretário de Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes, ressaltou que as forças de segurança ficarão na rua, para garantir a tranquilidade e a ordem nas ruas.
"Eu quero me dirigir à população do estado do Rio de Janeiro e quero afirmar que a polícia militar garantirá o reestabelecimento da normalidade e ficará nas ruas por tempo indeterminado para garantir a paz e a tranquilidade e o vir e vir das pessoas. Quero lamentar a perda dos policiais civile militares e me solidarizar com essas famílias. Quero também parabenizar os policiais que participaram dessa operação tão exitosa e que são os heróis dessa sociedade. O trabalho não para e não recuaremos um milímetro", afirmou Menezes.
Transferência de criminosos
O governador Claudio Castro, em vídeo publicado nas redes sociais, falou que, com base em relatório das polícias civil e penal, vai pedir ao governo federal a transferência de dez criminosos de presídios estaduais que foram os responsáveis pela retaliação.
"Acreditando que política de segurança pública se faz com diálogo e integração, pedi ao governo federal, dez vagas de transferência imediata desses criminosos de maior periculosidade, mostrando que o diálogo é a nossa forma de fazer segurança pública", disse o governador.
Operação mais letal do Rio
Segundo dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF), a operação desta terça-feira (28), já pode ser considerada a mais letal da história do Rio, com a morte de 60 civis e de quatro policiais.
Ela supera, inclusive, a quantidade de mortos da segunda operação mais letal, no Jacarezinho em maio de 2021, na qual morreram 28 pessoas, e no Complexo da Penha, em maio de 2022, quando foram registradas a morte de 23 pessoas.
As demais foram no Complexo do Alemão, em junho de 2007, com 19 mortes e novamente no Alemão, em julho de 2022, com 17 mortes.