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Derrota de Trump nas eleições deve trazer previsibilidade para diplomacia do Brasil

Analistas avaliam impactos com vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato nos EUA

Por Por Gabriela Gallo

Trump não deve alterar discurso para o Brasil, mas pode rever medidas concretas de política externa

Com a vitória de candidatos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos (EUA), as chamadas midturns elections, a expectativa é que o presidente norte-americano, Donald Trump (Republicano), altere sua postura com países de interesse comercial e diplomático, especialmente o Brasil, já que a "onda azul" (vitória dos democratas) no Poder Legislativo americano representará mudanças no equilíbrio político dos EUA.

Dos cem senadores (dois eleitos em cada estado americano), 54 são democratas e 44 são republicanos. Já na Câmara dos Representantes, das 435 cadeiras disponíveis, 237 estão reservadas para democratas eleitos e 147 cadeiras serão para republicanos. Até para governadores dos estados americanos, os democratas saíram na frente, com 28 governadores democratas e 20 republicanos.

Ao Correio da Manhã, a advogada especialista em direito internacional Hanna Gomes avaliou que o resultado das eleições americanas "pode representar uma oportunidade de maior previsibilidade nas relações diplomáticas e comerciais" entre os Estados Unidos e o Brasil. "Isso porque o Congresso agora pode exercer pressão sobre políticas tarifárias, sanções econômicas e iniciativas internacionais adotadas pelo governo Trump", afirmou.

Diante disso, é de interesse do governo norte-americano manter boas relações com o Brasil, "não apenas pelo comércio bilateral, mas também pela estabilidade política e econômica da região". "O Brasil ocupa uma posição estratégica para os Estados Unidos por sua dimensão territorial, relevância econômica, capacidade diplomática e influência política na América Latina", completou a advogada.

Todavia, Hanna ressaltou que os resultados não garantem uma "mudança automática e imediata na postura norte-americana em relação ao Brasil, mas a partir de agora é de se esperar uma imposição de limites políticos e institucionais à atuação presidencial". Na mesma linha, a especialista em direito internacional ressaltou que considera a possibilidade de Donald Trump adotar uma postura mais pragmática em relação ao governo brasileiro, mas que ele preservará seu discurso.

"É preciso entender que existe uma diferença entre declarações políticas pública (o que ele fala) e medidas concretas de política externa (o que ele faz). O novo equilíbrio de forças no Congresso americano pode aumentar os custos políticos de determinadas medidas adotadas por ele, especialmente quando envolverem sanções, recursos públicos ou decisões que afetem a população americana. Na minha avaliação Trump pode passar a moderar suas ações diplomáticas sem necessariamente moderar sua retórica política", ponderou a advogada.

O Ministério de Relações Exteriores não vai se manifestar sobre o assunto. A reportagem buscou manifestação do Palácio do Planalto mas, até o momento, não obteve respostas.

Economia

Para a reportagem, Hanna Gomes ainda enfatizou que os Estados Unidos não podem ignorar o Brasil se pretendem preservar sua influência na América Latina, especialmente diante da crescente presença econômica e diplomática da China na região. "Com os revezes desde o início da era Trump, relevância internacional brasileira decorre também da capacidade de enfrentar o poderio americano e ao mesmo tempo manter relações com diferentes potências, preservando a autonomia diplomática", completou.

A reportagem ainda conversou com o Doutor em relações internacionais e coordenador do curso de ciências econômicas do Ibmec Brasília Frederico Dias. Ele afirmou que seria uma irresponsabilidade dos Estados Unidos afastar-se, já que o Brasil é que o Brasil é a maior economia da América do Sul e "um ator que poderia ajudar na contenção dos chineses e a reduzir a pressão inflacionária nos EUA no curto prazo, assim como na recuperação de mercados para a indústria norte-americana em um segundo momento".

"A vitória dos democratas nas eleições poderá trazer constrangimentos na manutenção da imposição de tarifas comerciais extraordinárias pelo mundo, mas especialmente em casos de explícita irracionalidade econômica das medidas, como no caso do Brasil, com quem o país mantinha uma relação de superávit consistente por anos", completou Dias ao Correio da Manhã.

Intervenções

A "onda azul" dos democratas tem chances de produzir uma maior fiscalização sobre a atuação internacional do governo Trump na América Latina. Porém, na avaliação de Hanna Gomes, ainda é precipitado afirmar que os Estados Unidos "vão abandonar sua tradicional política de influência" na região. "Historicamente, tanto governos republicanos quanto democratas buscam preservar os interesses estratégicos norte-americanos na região, embora tenham utilizado instrumentos e discursos diferentes ao longo dos anos", sublinhou.

O doutor em relações internacionais concordou que o governo de Trump deve continuar próximo de intervenções na região e completou que a tendência é que os EUA "buscarão preservar sua esfera de influência, sobretudo com a crescente presença da China na região". Porém, na avaliação do internacionalista, as intervenções na América Latina devem ser "mais seletivas e menos públicas, mais econômicas e menos militarizadas".

"Trump se gabava de ter vencido todas as nove disputas em que apoiou candidatos na região, e o Brasil, cujas eleições do último dia 25 eram a cereja do bolo da 'Doutrina Donroe' quebrou esse retrospecto", ponderou Dias. O termo "Doutrina Donroe" é uma junção de "Donald Trump" com a doutrina Monroe, e é usado como uma releitura para a atuação do governo Trump na política externa norte-americana para o Hemisfério Ocidental.

Ainda sobre eleições no Brasil, o resultado das eleições americanas foi divulgado dias após o senador brasileiro Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado na disputa eleitoral contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ir às pressas para os EUA. Ao ser questionado pela imprensa sobre as eleições brasileiras, Trump evita se declarar favorável ou contra o resultado, mas em um primeiro momento as classificou como fraudes. Na avaliação de Frederico Dias, a manifestação "colocou a reputação de Trump em jogo". "O mais provável agora é um recuo tácito, com silêncio sobre a fraude e sua tentativa de influenciar o processo eleitoral brasileiro, sem retratação", completou.