Nos Estados Unidos após fuga, Flávio Bolsonaro concederá entrevista
Em carta, senador se autodeclara "líder do Brasil" depois de ter se considerado "verdadeiro presidente eleito" e voltado atrás
Oficialmente nos Estados Unidos da América (EUA), o senador e ex-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concederá uma entrevista coletiva para a imprensa nesta quinta-feira (29), em Miami.
A expectativa é que ele comente as razões da sua ida para o país estrangeiro, numa rota de fuga a partir de Puerto Iguazu na Argentina pouco após perder as eleições presidenciais brasileiras para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ser intimado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes a entregar seus passaportes ficar proibido de deixar o Brasil.
Na véspera dessa coletiva, na tarde de quarta-feira (28), Flávio divulgou uma carta aos brasileiros e à comunidade internacional na qual ele se declarava “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Após uma repercussão negativa da autoproclamação, ele editou o documento e passou a se autonomear como “líder do Brasil”. O vídeo ainda trazia erradamente o antigo brazão da República Velha brasileira, período que terminou com o golpe que levou Getúlio Vargas em 1930: “Estados Unidos do Brazil” . Vargas terminou com a grafia “Brazil”, com z, adotando a grafia “Brasil”, com s. Em 1968, o país deixou de ser “Estados Unidos do Brasil” para se tornar “República Federativa do Brasil”.
A carta não foi bem recebida sequer por seus aliados. Especialmente porque ela contesta o resultado de uma eleição que foi reconhecida por seu próprio partido, o PL. Lula foi eleito com 51,79% dos votos contra 48,21% dos votos para Flávio, uma diferença de mais de quatro milhões de votos. Contudo, o PL recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a chapa eleita de Lula e Geraldo Alckmin (PSB) por abuso de poder político e econômico durante a campanha eleitoral do petista.
A carta
Na carta divulgada, Flávio agradece ao presidente da Argentina, Javier Milei, e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Republicano), pela ajuda para que ele conseguisse sair do Brasil e chegar aos EUA. Sem apresentar provas, ele declarou que as eleições no segundo turno foram fraudadas, acusou o Supremo Tribunal Federal (STF) de interferir nas eleições, disse que está sofrendo perseguição política e que teve que deixar seu país para buscar refúgio político.
“Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista”, escreveu o senador.
Dois dias antes da divulgação da carta, em conversa com a imprensa na segunda-feira (26), Flávio declarara que permaneceria no Brasil, mesmo após a determinação de Alexandre de Moraes para apreender seus passaportes.
No documento, Flávio Bolsonaro afirmou que seguirá sendo uma liderança na oposição ao governo Lula à distância, diretamente dos EUA. “Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação”, destacou o senador.
Trump
O presidente dos EUA Donald Trump optou por não se posicionar sobre a carta de Flávio, mas também questionou a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro, sem apresentar provas. “Não vou fazer comentário sobre isso, mas eu sei que demos a ele uma autorização para entrar no país. Mas eu não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, isso é certo”, disse Trump em conversa com jornalistas.
Em contrapartida às declarações de Flávio e de Trump, o coordenador da campanha eleitoral de Flávio e líder da oposição no Senado Federal, senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou em entrevista coletiva na noite desta quarta-feira que “não há provas” de que as eleições foram fraudadas.
Contudo, questionado sobre uma suposta atuação de liderança de Flávio contra o governo à distância, Marinho avaliou que, na atual conjuntura, essa seria a atitude que o senador poderia tomar. “Porque aqui no Brasil é impossível, pelo menos pelos sinais que estavam sendo demonstrados, que ele pudesse exercer esse papel [de líder da oposição]”, afirmou Rogério.
Também em resposta à carta de Flávio Bolsonaro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, reiterou que as eleições de 2026 ocorreram dentro da normalidade, sem nenhum registro de fraude.
“Com empenho de servidores públicos de todo o país, dos mesários, das forças de segurança e dos demais atores envolvidos, as Eleições 2026 transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais”, destacou Nunes Marques.
Prisão?
Com a fuga de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, parlamentares da base governistas e aliados de Lula protocolaram pedidos solicitando a prisão de Flávio. Contudo, em conversa com o Correio da Manhã, o advogado, pós-doutor pela PUC-SP Antonio Gonçalves reiterou que é “importante esclarecer que o atual senador Flávio Bolsonaro é beneficiário do princípio constitucional da presunção da inocência, uma vez que não há nenhuma condenação transitada em julgado contra si e, sequer, uma ação penal instaurada”.
“Razão pela qual não há elementos que embasam um eventual pedido de prisão, uma vez que o investigado é parte de três investigações em curso contra si e, até o momento, não há nenhum pedido de prisão preventiva. Portanto, sem elementos jurídicos para justificar qualquer prisão”, destacou o advogado.
Flávio é alvo de inquéritos e investigações no STF, dentro do foro por prerrogativa de função devido a seu cargo no Poder Legislativo, como investigações por lavagem de dinheiro e o financiamento de R$ 61 milhões oriundos de Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”, biografia de Jair Bolsonaro. Contudo, como reiterou Antonio Gonçalves, não há uma ação penal formalmente instaurada contra o senador.
Saída aos EUA
Flávio Bolsonaro desembarcou oficialmente com a família em Miami (EUA) às 10h30 desta quarta-feira. Contudo, a ida inicial dele contou com um blefe de autoridades norte-americanas e aliados do próprio Flávio, que tinham afirmado para a imprensa que o senador tinha deixado o Brasil na manhã de terça-feira (27) e que já tinha chegado em solo americano no mesmo dia.
De acordo com a Dirección Nacional de Migraciones da Argentina, órgão vinculado ao Ministério da Segurança Nacional do país, às 22h50 de terça-feira Flávio, sua esposa Fernanda Bolsonaro e as duas filhas ingressaram em solo argentino pela fronteira da Ponte Tancredo Neves (conhecida oficialmente como “Ponte Internacional da Fraternidade”), ponte rodoviária sobre o Rio Iguaçu que liga Foz do Iguaçu, no Brasil, a Puerto Iguazu, na Argentina.
Segundo a autoridade argentina, eles realizaram a travessia com “documentação hábil de viagem sem nenhum impedimento legal para o ingresso no país”. O órgão não detalhou publicamente qual documento foi apresentado na hora da travessia terrestre. É possível atravessar a Ponte da Fraternidade apresentando carteira de identidade ou passaporte, mas somente documentos físicos.
Depois de chegarem na Argentina, eles seguiram para o Aeroporto Internacional Cataratas del Iguazú, localizado na região de Puerto Iguazú. Às 23h30 de terça-feira, embarcaram em um voo particular “despachado pela companhia Baires Fly S.A. com destino à cidade de Guayaquil”, no Equador.
Segundo investigações do Ministério Público da Argentina, o administrador da companhia é o empresário Sérgio Daniel Mastropietro, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro. A informação é do jornal argentino Página/12. Para sair da Argentina, Flávio apresentou seu passaporte italiano (ele tem dupla cidadania italiana desde 2023) e sua esposa apresentou seu passaporte brasileiro.
O avião decolou para a cidade equatoriana por volta de 0h22, na madrugada desta quarta-feira, e pousou em Guayaquil por volta de 5h40 da manhã. Pouco tempo depois, às 6h20, a aeronave privada decolou novamente no sentido norte e, às 10h30 da manhã de terça, a família desembarcou em Miami.