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Motta e Alcolumbre costuram apoios para seguir no comando

Com adesão de Lula e partidos de centro, presidentes ampliam alianças para a reeleição; disputa envolve cargos, comissões e resistência do PL

Por Beatriz Matos

Alcolumbre e Motta costuram apoio de Lula para permanecerem

Um dia depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), se reuniram com o petista no Palácio da Alvorada para discutir a relação com o Congresso a partir de 2027. O encontro reforçou uma articulação que já vinha sendo construída antes das eleições, a tentativa de manter os dois parlamentares no comando das Casas, com o apoio de partidos de centro e da base governista. Nos bastidores, as negociações envolvem a distribuição de cargos, comissões estratégicas e o espaço que será reservado ao PL, fortalecido nas urnas.

O primeiro movimento veio de uma reunião reservada com o presidente reeleito Lula no Plácio da Alvorada. Segundo apuração do Correio da Manhã, o presidente assegurou apoio da base governista à recondução dos dois parlamentares. O encontro, realizado um dia após o segundo turno, marcou a retomada das negociações com o Congresso, que terá uma composição mais conservadora e uma bancada ampliada do Partido Liberal (PL), legenda do senador Flávio Bolsonaro.

Para o cientista político Gabriel Jubran Miranda, formado pela Universidade de Brasília (UnB) e pós-graduado em Direito Legislativo pelo IDP, a aproximação deve ser compreendida a partir dos interesses políticos de cada legenda. O especialista avalia que o movimento não representa necessariamente uma adesão dos partidos de centro ao governo, mas uma tentativa de preservar influência na nova legislatura.

"Eu vejo esse movimento muito mais como uma estratégia de sobrevivência política e de preservação de poder do que como uma adesão ao governo Lula. O Centrão tem uma característica muito própria: ele costuma se adaptar rapidamente ao resultado das urnas", analisa.

A avaliação ajuda a explicar a rapidez das articulações. União Brasil, PP e Republicanos declararam apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno, mas agora participam das negociações para manter os atuais presidentes do Legislativo. O entendimento é conveniente para ambos os lados, o Planalto busca interlocutores para aprovar suas propostas, enquanto as legendas procuram preservar participação nas decisões e influência sobre o orçamento federal.

Apoios na Câmara

Na Câmara, Motta conseguiu reunir o apoio de 15 partidos, incluindo a federação formada por PT, PV e PCdoB. Também integram o grupo PSD, MDB, Republicanos, Podemos, PSB, PDT e as federações União Progressista, PSDB-Cidadania e Solidariedade-PRD.

A adesão da esquerda completou uma articulação iniciada com partidos de centro, que já haviam anunciado apoio ao deputado para impedir que o crescimento do PL se traduzisse automaticamente no comando da Casa. Somados, os partidos favoráveis a Motta possuem mais cadeiras do que os 257 votos necessários para elegê-lo em primeiro turno. Entretanto, como a votação é secreta, o posicionamento das direções partidárias não garante a adesão de todos os deputados.

O apoio também envolve negociações sobre a composição da futura Mesa Diretora. Entre os interesses em discussão estão a distribuição das vice-presidências e secretarias da Câmara, além do comando de comissões estratégicas. Conforme apuração do Correio, o PT busca preservar espaço na estrutura administrativa da Casa, enquanto partidos do Centrão defendem uma divisão proporcional ao tamanho das bancadas. A formação de um bloco conjunto também interfere na ordem de escolha dos cargos.

Gabriel Jubran explica que essas negociações podem ter mais importância para determinadas legendas do que a própria presidência das Casas.

"A eleição para a presidência da Câmara ou do Senado nunca se resume à escolha de quem vai ocupar a cadeira. Existe toda uma negociação sobre a distribuição de poder dentro do Congresso. Estamos falando do comando das comissões, dos espaços na Mesa Diretora, das relatorias de projetos importantes e, sobretudo, da capacidade de influenciar quais matérias serão votadas", afirma.

A relação de Motta com Lula também atravessou as disputas eleitorais nos estados. Na Paraíba, o presidente da Câmara apoiou a candidatura do petista à reeleição, enquanto trabalhava para eleger o pai, Nabor Wanderley (Republicanos), ao Senado.

Lula, entretanto, pediu votos a Veneziano Vital do Rêgo (MDB), adversário de Nabor, que acabou derrotado. Mas, essa divergência eleitoral não impediu a continuidade da relação política entre o presidente da Câmara e o Planalto.

Apesar das divergências locais e do apoio do Republicanos a Flávio no segundo turno, Motta manteve a interlocução com o governo e deu andamento a propostas de interesse eleitoral do Planalto, como mudanças nas regras para microempreendedores individuais. A retomada das conversas após a vitória de Lula recoloca o presidente da Câmara entre os principais interlocutores do novo mandato.

Para Jubran, a aproximação não assegura apoio automático aos projetos do Executivo. "Uma coisa é apoiar o presidente da República, outra é apoiar o presidente da Câmara ou do Senado. E uma terceira, bem diferente, é votar a favor dos projetos do governo. É justamente essa distinção que teremos de observar ao longo de 2027."

Negociações no Senado

No Senado, a situação de Alcolumbre é mais complexa. Embora tenha recebido o apoio oficial da Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, o presidente da Casa ainda enfrenta resistências de parlamentares da direita e de integrantes das próprias legendas que anunciaram sua recondução.

A manifestação foi assinada pelos presidentes nacionais Antonio Rueda, do União Brasil, e Ciro Nogueira, do PP. O movimento amplia a sustentação partidária de Alcolumbre e tenta reduzir o espaço da senadora Tereza Cristina (PP-MS), que também articula uma candidatura. Segundo interlocutores, a ex-ministra da Agricultura, entretanto, sinalizou que pretende continuar na disputa e destacou que a escolha será realizada individualmente pelos 81 senadores, em votação secreta.

Nos bastidores, Alcolumbre busca alianças para além das direções partidárias. Uma das articulações envolve o senador eleito Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara, que poderá atuar na aproximação com parlamentares de centro-direita resistentes à recondução. Segundo apuração divulgada pela CNN Brasil, Lira é mencionado como possível sucessor de Alcolumbre em 2029, enquanto também demonstra interesse em presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado na próxima legislatura. Não há, porém, acordo formalizado.

Outro ponto de negociação envolve as pautas defendidas pela oposição. Aliados de Alcolumbre relatam que ele pretende discutir com Lula uma proposta de indulto ou anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, como parte de uma tentativa de obter votos da direita e reduzir a pressão pela abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A iniciativa ainda não foi apresentada oficialmente e depende de negociações políticas e jurídicas.

O presidente do Senado também preservou canais com o governo durante a campanha eleitoral. Às vésperas do segundo turno, conduziu a votação da proposta que acabou com a escala de trabalho 6x1, uma das bandeiras defendidas por Lula.

Na avaliação de Gabriel Jubran, o poder de definir quais propostas avançam será um dos elementos centrais das negociações, especialmente diante das discussões sobre o Judiciário, responsabilidade fiscal e reformas estruturais.

"No Congresso, muitas vezes a disputa não é apenas para decidir quem vai mandar, mas também para definir quem terá condições de impedir que determinadas pautas avancem", observa.

Sobre Tereza Cristina, o cientista político considera que o apoio da União Progressista a Alcolumbre representa um obstáculo importante, mas não elimina sua possibilidade de construir uma candidatura alternativa. Segundo ele, o trânsito da senadora entre setores conservadores, do agronegócio e do centro político pode contribuir para ampliar as conversas.

"A questão é saber se haverá disposição dos senadores para enfrentar uma estrutura política que já está sendo organizada em torno de Alcolumbre. E, diferentemente da Câmara, o Senado tem apenas 81 integrantes, o que torna as negociações individuais ainda mais relevantes", explica.

PL busca espaço

Enquanto os atuais presidentes ampliam alianças, o PL ainda discute como utilizar a força conquistada nas eleições. A legenda terá a maior bancada nas duas Casas, com 121 deputados federais e 29 senadores, mas precisará atrair parlamentares de outras siglas caso decida lançar candidatos próprios.

Na Câmara, os nomes de Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Altineu Côrtes (PL-RJ) chegaram a ser discutidos. Após a derrota de Flávio Bolsonaro, entretanto, Sóstenes sinalizou a interlocutores que não deverá concorrer. No Senado, o principal nome do partido é Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio, enquanto Tereza Cristina (PP-MS) aparece como alternativa para uma composição mais ampla com a centro-direita.

O cenário ainda está em aberto. A bancada do PL pretende discutir as candidaturas na próxima semana e avaliar se deve enfrentar Motta e Alcolumbre ou negociar participação nas estruturas das duas Casas. Entre os interesses estão o comando de comissões estratégicas e a possibilidade de ampliar a influência sobre propostas relacionadas ao STF.

Gabriel Jubran avalia que o tamanho das bancadas, embora importante, não será suficiente para garantir o controle político do Congresso.

"O PL sai das eleições com uma força parlamentar expressiva, mas está descobrindo que ter a maior bancada não significa, necessariamente, comandar o Congresso. Existe uma diferença muito grande entre força eleitoral e capacidade de articulação política", afirma.