Debate da Globo foi mais propositivo, mas candidatos ainda trocaram acusações
Modelo permitiu melhor discussão sobre os temas brasileiros. Ataque mais livre ficou para o quarto bloco
Com um modelo mais voltado a respostas sobre temas de interesse nacional e para as diversas regiões do país, o debate da TV Globo, na antevéspera do segundo turno das eleições, foi bem menos agressivo e bem mais propositivo que o debate mais livre na Band no domingo passado (17). Mas novamente muitas das perguntas feitas ficaram sem resposta.
Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, candidato à reeleição, fez uma defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), mas não respondeu quando Flávio questionou por que ele e seu partido (na época, Lula era deputado federal constituinte), então, não votaram a favor da Constituição em 1988 quando o SUS foi criado. E em determinado momento confundiu-se ao falar que ia acabar com a “polícia” quando queria dizer “milícia”.
Já Flávio não respondeu quando Lula lhe perguntou por que chamou o Bolsa Família de “Bolsa Farelo”.
“Nove dedos”
Flávio viu-se obrigado a pedir desculpas a Lula ao fazer, em determinado momento, uma brincadeira mencionando que o candidato do PT tem nove dedos (Lula perdeu um dedo em um acidente em um torno mecânico quando era metalúrgico). A resposta foi em um momento em que Lula falou da proposta de dar tarifa zero ao transporte público nos fins de semana. Flávio disse ser a favor da proposta.” Sou a favor da tarifa zero nos fins de semana. Mas não adianta nada dar com uma mão e tirar com nove dedos”.
“Todos os dias trabalhadores são vítimas de acidentes de trabalho por ganância dos empregadores. Exijo respeito e que você peça desculpas”, cobrou Lula, ao pedir um direito de resposta, que foi concedido.
“Peço desculpas de verdade”, respondeu Flávio. “Mas eu quero saber se você vai pedir desculpas para quem recebe Bolsa Família. Passou quatro anos sem lembrar de você”, emendou, dirigindo-se para o telespectador. “Lembrou agora porque você vota. Você vai pedir desculpas para as mulheres espancadas? Vai pedir desculpas para quem deve, pagando conta além da data de vencimento? Vai pedir desculpas para quem vai para o supermercado? A palavra é decepção. A esperança virou decepção”, disse Flávio.
“Cemitério de obras”
No primeiro bloco, os candidatos responderam sobre infraestrutura e exportação. Flávio afirmou que o governo Jair Bolsonaro pegou o governo com cerca de 14 mil obras inacabadas. E entregou com 8 mil obras inacabadas. Agora, disse ele, há mais de 11 mil obras inacabadas. “O Brasil virou um grande cemitério de obras”, afirmou.
Lula contestou o número. Disse haver seis mil obras inacabadas que, segundo ele, serão continuadas caso se eleja presidente novamente. “Se o candidato conhecesse um pouco o Brasil, saberia que em nenhum momento se investiu tanto em obras de infraestrutura”, afirmou.
O tema seguinte foi salário mínimo. Lula perguntou se Flávio sabia quanto seria o salário mínimo não fossem os reajustes acima da inflação nos governos do PT. E disse que seriam R$ 900. O valor atual do salário mínimo é R$ 1,6 mil. “Hoje é dia 23 de outubro. O seu salário já acabou?” respondeu Flávio. “Você vai continuar enrolando o povo brasileiro?”.
Ao dirigir a questão para a região Centro-Oeste, Flávio falou do agronegócio. “Por que você chama o agro de fascista?”, perguntou o candidato do PL. “Dá um Google”, respondeu Lula. “Eu duvido que tenha mais investimento para o agronegócio em qualquer outro governo. Nunca se exportou tanto no Brasil. Por isso é que quando o meu adversário ficou lambendo o Trump eu não fiquei preocupado. Porque eu vou vender para outros lugares. Por isso é que o nosso superávit comercial foi de R$ 80 bilhões”.
Diversas vezes Lula recorreu à mesma proposta de consulta ao Google para responder às questões. O que fez Flávio perguntar: “Quem governa o Brasil é você ou o Google?”
Flávio criticou a burocracia para o agricultor conseguir financiamento e a alta taxa de juros. “Não sei se meu adversário fala baixo pra ninguém escutar”, respondeu Lula. “O juro é subsidiado. Ele sabe que é assim. Mas ele tem um discurso: imposto, imposto. O que pesa para ele é melhorar a vida do povo. Isso incomoda ele”.
Tesouraço
Ao falar sobre os cortes no orçamento propostos por Flávio Bolsonaro, que ele chama de “tesouraço”, Lula perguntou se o modelo a ser adotado é o de Javier Milei na Argentina. “Vai tomar emprestado a motosserra do Milei?. Lá, estão comendo carne de burro?”.
“Na Argentina, a esquerda governou por 20 anos. Vocês [esquerda] destruíram a Argentina. O Milei teve que consertar as coisas ruins que vocês fizeram. Eu vou ter que consertar aqui também”. Flávio ainda afirmou que não aumentar o salário mínimo acima da inflação e que não está nos seus planos fazer a privatização nem do Banco do Brasil nem da Caixa Econômica. Flávio disse que pretende transformar a Caixa em um “banco da prosperidade”, ajudando as pessoas mais pobres a investir em negócios na periferia.
Asfixia em Manaus
No segundo bloco, os candidatos precisavam fazer perguntas sobre as regiões do país. Flávio falou da região Norte e da falta de saneamento básico. Falou da aprovação no Congresso do Marco Legal do Saneamento Básico, lembrando que há 40 milhões de brasileiros sem água tratada. E perguntou por que o PT votou contra o Marco Legal do Saneamento.
Lula não respondeu à pergunta. Mas lembrou do episódio no qual Jair Bolsonaro, na pandemia, imitou uma pessoa com falta de ar, numa referência às pessoas que morreram por asfixia por falta de oxigênio em Manaus (AM). Flávio pediu que as pessoas procurassem um vídeo que mostrava toda a situação de forma completa, afirmando que a imitação de seu pai era apresentada fora de contexto.
Crime organizado
Num debate sobre a região Nordeste, Flávio Bolsonaro acusou Lula de ter levado o Comando Vermelho, o crime organizado, para a região. Lula rebateu com exemplos de aumento de investimentos e da situação do Nordeste. “Quando assumi a Presidência da República, o Nordeste era a região que tinha mais pobre, analfabeto. Levamos desenvolvimento para o Nordeste”.
Houve um debate sobre quem foi o responsável por levar a transposição do Rio São Francisco para o restante do Nordeste. Lula afirmou que a transposição atingiu 15 mil quilômetros. Flávio disse que quem começou a entregar as obras de transição foi Jair Bolsonaro.
Licença-maternidade
No bloco que tratou de políticas públicas, Lula repetiu uma pergunta que tinha feito no debate da Band: por que Flávio, quando era deputado estadual, votou contra o aumento no Rio de Janeiro do tempo de licença-maternidade. Na primeira ocasião, Flávio não respondeu. Agora, admitiu ter errado naquela ocasião.
“Eu estava errado”, disse Flávio. “Eu era mais jovem. Estava errado. Hoje, eu votaria totalmente de outra forma”.
Ideias do passado
Em determinado momento, Flávio chegou a elogiar ideias do PT no passado. Mas afirmou que elas teriam ficado ultrapassadas. “As ideias que ele tinha no passado, que eram boas, hoje não funcionam mais. Ficaram para trás”, declarou. Flávio procurou em muitos momentos afirmar que seu eventual governo apostará muito no avanço digital.
Lula perguntou por que o governo Bolsonaro quis um Banco Central independente numa discussão sobre as altas taxas de juros. “Para evitar que um governo gastador fizesse a taxa de juros a canetadas”. Flávio disse que a previsão após o governo Bolsonaro é que a taxa de juros ficasse em 7%. Hoje, está em 14%.
Endividamento
Ao discutir endividamento dos brasileiros, Flávio lembrou que Lula, ao se eleger em 2022, prometeu “picanha e entregou abóbora”. Lula respondeu que “o problema do endividamento é muito sério” e que foram feitos três programas Desenrola, de perdão de dívidas. “Você está enrolando o povo brasileiro de novo com o terceiro Desenrola”, devolveu Flávio.
Lulinha e Tigrinho
Um tema que vinha sendo evitado surgiu no debate: a proibição das bets e dos jogos como o do Tigrinho. “Você tem dois filhos que fizeram muito mal ao país: o Lulinha e o Tigrinho”, disse Flávio, afirmando que o governo Lula é que regulamentou esse tipo de jogo. Lula afirmou que esse jogo começou no governo Bolsonaro sem regulamentação. “Você é irmão do Tigrinho. Seu pai que criou”.
Em diversos momentos, Flávio respondeu que programas do atual governo serão mantidos. E ampliados. Um deles é o programa Pé-de-Meia, que concede ajuda a estudantes do ensino médio.
Ana Clara
Ao debater segurança pública, Lula mencionou que estava na plateia Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, que morreu aos cinco anos atingida por um tiro de fuzil de um policial militar. Como advogado, Flávio ajudou a defesa do policial. “O que leva um senador a defender um cidadão que deu um tiro de fuzil numa menina de cinco anos? Esse é o território que se quer? O território da bala?”.
Flávio respondeu que o incidente foi consequência de uma troca de tiros em um território conflagrado. Dirigiu sua “solidariedade à senhora”. E disse que o policial ainda não foi julgado. “Como esses fuzis entram na favela?”, questionou. “Hoje, a sua política é de desencarceiramento. Minha política vai ser o contrário. Eu vou tratar bandido como bandido”, afirmou.
“Fico pensando o povo que está nos assistindo agora vendo esse rapaz falar. Todo mundo sabe e relação dele com tanta ruim que há no Rio. Defendendo miliciano. A mãe da Ana Clara sabe disso. A irmã da Marielle”, mencionando a ex-ministra da Igualdade Racial Anielle Franco. Flávio afirmou que combaterá também a milícia. “Vou devolver ao cidadão a sua soberania para andar tranquilo nas ruas”, afirmou.
Vorcaro
O bloco em que o tema era livre entre os candidatos foi o mais agressivo. E gerou muito em torno das relações com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master.
Flávio mencionou a informação de que Lula teria recebido de Vorcaro uma garrafa do uísque escocês Macallan, que custa R$ 500 mil. Numa entrevista, Lula disse que teria “bebido” o uísque. “Qual o gostinho?”, perguntou Flávio.
“O que você não se conforma é que eu transformei um banqueiro na época de vocês em presidiário”. E mencionou outra história que circulou recentemente de um passeio de barco no Lago Paranoá em Brasília com executivos do laboratório que produziu a vacina Covaxin, contra a covid-19. “Eu acho que esse uísque foi tomado por você, quando você foi para um barco em Brasília para discutir a Covaxin”, disse Lula.
“Quem recebeu dinheiro do Vorcaro é você”, disse Lula, sobre os R$ 134 milhões pedidos a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. “Um investidor privado”, respondeu Flávio. “Não tem dinheiro público. Não tem Lei Rouanet”.
Os dois voltaram a falar do desafio do sigilo. Lula novamente desafiou Flávio a ir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apresentar os seus dados. Flávio respondeu que Lula não apresentou tudo porque costuma colocar seus bens em nome de terceiros. “Está lá o Sítio de Atibaia? Está lá o tríplex no Guarujá?”.