Flávio amplia alianças e busca transformar apoios em votos
Com adesão do Podemos e ofensiva no Nordeste, candidato busca ampliar alcance eleitoral; especialista alerta que força política não garante transferência de votos
O apoio de partidos, governadores e lideranças regionais passou a ocupar o centro da estratégia de Flávio Bolsonaro (PL) para o segundo turno. Depois de terminar a primeira etapa da eleição à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador tenta ampliar sua articulação política e reduzir a diferença de votos no Nordeste, principal reduto eleitoral do adversário. O movimento ganhou novo capítulo nesta quinta-feira (8), com a adesão do Podemos.
A presidente da legenda, Renata Abreu, oficializou o apoio em Brasília, acompanhada de parlamentares e dirigentes partidários. O Podemos se soma ao Republicanos, ao Novo e à federação União-Progressistas, que já anunciaram alinhamento ao candidato. Flávio afirmou que as alianças não representam uma “carta em branco”, mas a construção conjunta de propostas para um eventual governo.
A ampliação ocorre no momento em que a primeira pesquisa Datafolha do segundo turno, encomendada pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, aponta Flávio com 52% dos votos válidos, contra 48% de Lula. Nos votos totais, são 49% a 45%, em empate técnico considerando a margem de erro de dois pontos percentuais.
Para Bruno Saboya, doutor em Estratégia de Marketing e professor do Ibmec Brasília, o avanço sobre as siglas de centro e direita precisa ser analisado a partir de uma distinção, apoio político não significa necessariamente apoio eleitoral.
“A adesão de partidos de centro e direita amplia a estrutura da candidatura, oferece novos palanques e transmite uma imagem de maior articulação política. Mas isso não significa que todos os eleitores dessas legendas passarão automaticamente a votar em Flávio”, explica.
Segundo o especialista, parte dessas forças já estava ideologicamente próxima ao bolsonarismo. O desafio, portanto, é buscar que essas alianças consigam alcançar eleitores fora desse campo político ou apenas reforçar uma base já consolidada.
A diferença entre articulação e transferência de votos aparece especialmente no Nordeste. Lula venceu nos nove estados da região, recebendo 21,4 milhões de votos, contra 10,3 milhões de Flávio. Para diminuir essa distância, a campanha prepara viagens, participação de lideranças locais e mobilização de nomes como Nikolas Ferreira e Alfredo Gaspar.
Entre os apoios considerados relevantes estão Ciro Gomes, no Ceará, e ACM Neto, na Bahia. Ambos possuem trajetórias políticas próprias em estados onde Lula mantém forte presença eleitoral.
Saboya pondera, entretanto, que o reconhecimento dessas lideranças não assegura a transferência de seus eleitores para a candidatura presidencial. “O eleitor pode apoiar Ciro Gomes ou ACM Neto em uma disputa estadual e fazer uma escolha completamente diferente na eleição presidencial. Essa transferência não é automática, especialmente quando os candidatos à Presidência já despertam identificações políticas muito fortes”, observa.
Para o professor, o principal obstáculo regional está na relação histórica construída entre Lula e parte do eleitorado nordestino, associada à trajetória política do presidente, à memória de seus governos e à percepção sobre políticas públicas. Isso não significa, porém, que a região tenha comportamento eleitoral uniforme.
A participação de lideranças com forte presença nas redes também exige cautela. Saboya diferencia mobilização de persuasão e alerta que engajamento digital não representa necessariamente conquista de novos eleitores.
“Esse é um dos riscos da polarização: confundir a intensidade do apoio com a ampliação do apoio”, afirma.
Eduardo
Enquanto amplia alianças, Flávio enfrenta novos desdobramentos judiciais envolvendo seu grupo político. Nesta quinta-feira, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o início do cumprimento da pena de quatro anos e dois meses imposta a Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato, por coação no curso do processo. A decisão inclui mandado de prisão e cancelamento dos passaportes brasileiros do ex-deputado, que permanece nos Estados Unidos.
Na Justiça Eleitoral, a campanha de Flávio apresentou representação contra Rosângela da Silva, a Janja, por um vídeo publicado no Instagram em 6 de outubro. Os advogados alegam que a primeira-dama divulgou informações falsas sobre consequências de uma eventual vitória do senador, incluindo afirmações relacionadas ao Farmácia Popular e à segurança pública. A defesa pede a retirada do conteúdo, a proibição de republicações e multa. As acusações são da campanha e dependem de apreciação judicial.
Para Saboya, a avaliação sobre as possibilidades de crescimento de Flávio precisa considerar o conjunto do país, e não apenas a quantidade de estados conquistados. A eleição presidencial é definida pela soma nacional dos votos válidos. “Uma leitura baseada apenas no mapa de vitórias pode esconder movimentos importantes do eleitorado”, ressalta. O resultado das articulações dependerá menos da quantidade de declarações de apoio e mais de sua capacidade efetiva de alcançar eleitores, em diferentes regiões, que ainda possam alterar suas escolhas no segundo turno.