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Lula troca peças e discurso para tentar virar o jogo

Com Flávio à frente no Datafolha, presidente reformula campanha, reforça articulação nordestina e enfrenta o desafio de alcançar eleitores fora de sua base

Por Beatriz Matos

Lula altera equipe de campanha na busca por reverter resultado

A menos de três semanas do segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta corrigir o que ele próprio reconheceu como falhas na campanha eleitoral. A reorganização vai além da troca de nomes na coordenação, envolve mudanças no discurso, maior presença nas redes sociais e uma tentativa de alcançar eleitores que não escolheram o presidente no primeiro turno. O desafio ganhou dimensão nesta quinta-feira (8), quando pesquisa Datafolha, mostrou Flávio Bolsonaro (PL) com 52% dos votos válidos, contra 48% de Lula.

O levantamento, realizado entre 6 e 7 de outubro com 2.520 eleitores, tem margem de erro de dois pontos percentuais. O resultado, com Flávio quatro pontos à frente, aponta empate na margem de erro. Mais do que a diferença numérica, outro dado ajuda a dimensionar o cenário: 94% dos entrevistados afirmam ter definido o voto, enquanto apenas 6% admitem mudar de posição.

É nesse espaço mais restrito de disputa que o presidente tenta reorganizar a campanha. Na quarta-feira (7), diante de parlamentares eleitos, Lula afirmou ter participado da campanha menos organizada desde sua primeira disputa presidencial, em 1989. “Fizemos uma campanha aquém da minha possibilidade. Eu disse para o Edinho que essa foi a campanha menos organizada que participei desde 1989 e a gente colhe o que planta”, declarou.

Mudanças

A autocrítica foi acompanhada de mudanças. O senador Camilo Santana (PT-CE), ex-ministro da Educação, passou a dividir a coordenação-geral com Edinho Silva, presidente nacional do PT. O cearense, que no primeiro turno concentrou esforços na reeleição do governador Elmano de Freitas, agora assume maior participação na disputa presidencial. Os governadores Jerônimo Rodrigues, da Bahia, e Rafael Fonteles, do Piauí, também ganharam espaço.

A escolha reforça o peso do Nordeste na reorganização petista. Lula venceu nos nove estados da região e, segundo o Datafolha, mantém vantagem de 61% a 35% sobre Flávio. Entretanto, a capacidade de transformar lideranças regionais em votos adicionais permanece como uma das questões da campanha.

Para Lucas Jansen, mestre em Comunicação e professor de Publicidade e Propaganda da Estácio Brasília, os apoios são relevantes porque ampliam a presença territorial dos candidatos, mas seus efeitos não podem ser medidos antecipadamente.

“Contar com lideranças locais pra fazer essa campanha, lideranças locais que ainda tenham algum peso e uma participação na política daquele lugar, é uma excelente estratégia pra gente aumentar essa capilaridade”, analisa.

O especialista, porém, questiona até que ponto Camilo terá influência efetiva sobre outra dificuldade identificada pelo PT: a comunicação digital.

Na avaliação de Jansen, reduzir o problema à ideia de que a esquerda não sabe se comunicar seria uma interpretação simplista. O pesquisador argumenta que a própria estrutura das plataformas favorece conteúdos desinformativos, o que torna necessário distinguir capacidade de comunicação de alcance nas redes.

Ele aponta exemplos de políticos que construíram visibilidade digital antes mesmo da campanha, como Érica Hilton, Guilherme Cortez, Jones Manoel e, no campo da direita, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato. Em comum, segundo ele, está a aproximação entre atividade parlamentar e linguagem de influenciadores.

“Eu me questiono, e não tenho resposta pra isso, até que ponto Camilo Santana vai ter uma interferência forte numa comunicação nesse segundo turno”, afirma.

A resposta do PT começou a aparecer nos vídeos gravados pelo próprio presidente em formato de selfie, recurso ao qual Lula resistia. Nas publicações, ele convoca a militância às ruas e aborda propostas como o fim da escala de trabalho 6x1.

A mudança também alcançou o conteúdo político. Na quarta-feira, Lula endureceu o discurso sobre criminalidade, defendeu a PEC da Segurança Pública e apresentou o lema, “Para o povo trabalhador, a proteção; para o bandido, a prisão”. Jansen considera a segurança pública uma pauta capaz de atravessar diferenças regionais e ideológicas.

Na noite desta quinta-feira, em coletiva no QG da campanha, Lula demonstrou confiança na recuperação eleitoral. “Não avalio pesquisa. Eu trabalho sabendo que preciso ter mais votos que o Flávio”, afirmou. Também defendeu reajustes para aposentados acima da inflação e criticou propostas de cortes que, segundo ele, atingiriam trabalhadores.

Para Jansen, a questão decisiva não está apenas na mobilização de quem já apoia Lula, mas na identificação dos eleitores que ainda podem ser convencidos. O professor os classifica como “convertíveis”, grupo que inclui pessoas que votaram em outros candidatos no primeiro turno ou que não compareceram às urnas.

“O grande desafio, na verdade, está em identificar quem é esse eleitor convertível e como conversar com ele. Quais são as pautas que esse eleitor quer ouvir?”, questiona.

O pesquisador também distingue a disputa imediata da necessidade de reconstrução das alianças da esquerda, que considera um projeto de longo prazo. Para este segundo turno, a reformulação coloca à prova a capacidade da campanha de transformar mudanças na coordenação, presença territorial e comunicação em aproximação com eleitores que ainda não escolheram Lula.