Segundo turno nos estados amplia peso dos palanques na disputa presidencial
Sete unidades da Federação voltam às urnas para eleger governador; cenário mantém estruturas locais mobilizadas e pode interferir na disputa entre Lula e Flávio
Sete unidades da Federação terão uma segunda disputa pelo governo em 25 de outubro, no mesmo dia em que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) voltam às urnas pela Presidência da República.
Acre, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Tocantins mantêm, portanto, campanhas estaduais em atividade por mais três semanas, um fator que acrescenta palanques, lideranças e estruturas locais à corrida nacional.
Os cenários são distintos. No Distrito Federal, Celina Leão (PP) enfrenta Leandro Grass (PT). No Espírito Santo, a disputa será entre Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB). No Acre, Mailza Assis (PP) enfrenta Alan Rick (Republicanos). Já no Amazonas, Omar Aziz (PSD) disputa com Maria do Carmo (PL). Tocantins terá Professora Dorinha (União Brasil) contra Vicentinho Júnior (PSDB), enquanto no Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União Brasil) enfrenta Cadu de Lula (PT).
Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL) e Eduardo Paes (PSD) aparecem, por enquanto, no quadro do segundo turno. O cenário, porém, pode mudar após Anthony Garotinho (Republicanos) desistir nesta segunda-feira (5) do recurso ao Tribunal Superior Eleitoralç (TSE) contra o indeferimento de sua candidatura. Se os 274 mil votos recebidos por Garotinho forem retirados da base de cálculo dos votos válidos, Douglas Ruas passaria de 49,27% para 50,88% e poderia ser declarado eleito ainda no primeiro turno. A definição depende da Justiça Eleitoral, que ainda não concluiu a análise do pedido de desistência e de uma eventual retotalização dos votos.
A distribuição dos palanques também importa para a corrida presidencial. Flávio Bolsonaro tem apoio encaminhado em seis das sete disputas estaduais; a exceção é o Rio Grande do Norte, onde Allyson permanece neutro e Cadu disputa pelo PT. Entre os 20 governadores eleitos no primeiro turno, dez apoiaram Flávio, cinco ficaram com Lula, quatro mantiveram neutralidade e Daniel Vilela, em Goiás, apoiou Ronaldo Caiado.
Para o cientista político Jackson De Toni, professor de Políticas Públicas do Ibmec, a passagem para o segundo turno muda a natureza da campanha ao reduzir a disputa presidencial a dois nomes e aumentar o peso da mobilização. “A matemática eleitoral impõe um dilema contínuo entre a mobilização da própria base e a conquista do eleitor incremental”, afirma.
É aí que os estados entram na conta. Com candidatos a governador ainda em campanha, partidos, prefeitos, parlamentares e lideranças regionais continuam mobilizados. Segundo De Toni, esse ambiente pode ajudar tanto a preservar o eleitorado já conquistado quanto a disputar votos de candidatos eliminados no primeiro turno.
Nos estados em que a disputa local está mais aberta, o movimento tende a ser ainda mais relevante. Rio Grande do Norte e Tocantins tiveram diferenças pequenas entre os dois primeiros colocados, o que mantém as campanhas estaduais em busca dos votos que ficaram distribuídos entre outros candidatos. Já no Distrito Federal, Acre e Espírito Santo, quem terminou à frente chegou muito próximo dos 50% no primeiro turno, criando uma corrida distinta para os adversários que tentam reverter o quadro.
O especialista destaca que a nova etapa também tende a aumentar o peso da rejeição. Com apenas duas opções, afirma, as campanhas precisam equilibrar ataques ao adversário com propostas capazes de dialogar com eleitores fora de suas bases tradicionais. Na avaliação do cientista político, temas como custo de vida, renda e segurança pública podem ganhar espaço justamente na tentativa de alcançar esse público.
O quadro dos principais colégios eleitorais adiciona outra variável. São Paulo e Minas Gerais, primeiro e segundo maiores eleitorados do país, elegeram seus governadores no primeiro turno. Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito em São Paulo, já declarou apoio e participação direta na campanha de Flávio, inclusive na organização de agendas no estado. Em Minas, o governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos) também confirmou apoio ao candidato do PL.
Lula, portanto, não terá nesses dois estados uma candidatura do PT ao governo em segundo turno funcionando simultaneamente como palanque local. Em São Paulo, Flávio venceu no primeiro turno por 51,93% a 38,20%, embora Lula tenha ficado à frente na capital paulista.
Para Jackson De Toni, esse tipo de configuração reforça a importância de duas frentes, mobilizar a base já existente e conquistar o eleitor que ainda não aderiu a nenhuma das duas candidaturas. O apoio de governadores e lideranças estaduais pode contribuir para a organização territorial da campanha, mas não representa transferência direta de votos. O efeito desses palanques dependerá da capacidade de cada candidatura de converter presença regional em mobilização eleitoral.