"Vocês querem o Milei aqui?", questiona Haddad. Tarcísio defende gestão argentina
Petista questiona aproximação com modelo argentino, enquanto governador afirma que Milei "está indo bem". Embate levou disputa paulista para o cenário econômico nacional e internacional
Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) transformaram a política econômica da Argentina em tema do último debate antes do primeiro turno da eleição para o governo de São Paulo. Na noite desta terça-feira (29), na TV Globo, o petista questionou o adversário sobre a defesa do presidente argentino, Javier Milei, enquanto Tarcísio destacou resultados obtidos pelo governo do país vizinho.
O confronto ocorreu durante uma discussão sobre responsabilidade fiscal. Haddad associou o projeto econômico defendido pelo grupo político de Tarcísio às medidas de austeridade adotadas na Argentina e perguntou: "Vocês querem o Milei aqui, não é?".
Na sequência, fez referência à chamada "fila do osso", registrada durante o governo Jair Bolsonaro, e à recente repercussão de relatos sobre consumo de carne de burro na Argentina.
Tarcísio rebateu afirmando que Milei recebeu uma situação econômica complexa e "está indo bem". O governador defendeu maior controle das despesas públicas e relacionou o nível dos gastos no Brasil aos juros elevados, ao endividamento das famílias e às dificuldades enfrentadas pelas empresas.
A discussão começou após Haddad criticar a proposta do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) de suspender por um ano a implementação da reforma tributária sobre o consumo. O plano já havia sido apresentado pela campanha de Flávio, que pretende usar o período para rever pontos do novo sistema e buscar uma redução da alíquota-padrão. A suspensão, no entanto, dependeria de mudanças legislativas e articulação com o Congresso.
Haddad, que comandou o Ministério da Fazenda durante a elaboração e aprovação da reforma, classificou a mudança no sistema tributário como uma das principais conquistas econômicas do país desde o Plano Real.
O petista também utilizou a proposta de Flávio para aproximar Tarcísio da agenda econômica defendida pela candidatura presidencial do PL. A comparação com a Argentina expôs duas faces dos resultados obtidos por Milei. O país conseguiu reduzir significativamente o ritmo de aumento dos preços.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), a inflação mensal ficou em 1,7% em agosto de 2026. A balança comercial também acumulou superávit de US$ 16,08 bilhões entre janeiro e julho.
Os indicadores sociais e de atividade, porém, mostram dificuldades. A pobreza atingiu 32,3% da população no primeiro semestre de 2026, contra 28,2% na medição anterior, enquanto a indigência chegou a 7,5%. O desemprego ficou em 7,9% no segundo trimestre
A economia argentina também apresenta sinais mistos. O PIB cresceu 2% no segundo trimestre na comparação anual, mas recuou 0,6% em relação aos três primeiros meses do ano, considerando dados dessazonalizados.
Em julho, o indicador mensal de atividade econômica caiu 2,9%.
O embate sobre Milei foi parte de uma estratégia mais ampla de nacionalização do debate paulista. Ao longo do encontro, Haddad vinculou Tarcísio ao governo Bolsonaro e ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro.
O governador, por sua vez, contrapôs o adversário com críticas às administrações petistas e ao governo Lula. Segurança pública, saúde, educação, privatizações, transporte e contas públicas também estiveram entre os principais temas discutidos.