Mensagens de Luchsinger sobre FAB e Planalto contradizem versão de Lula sobre lobista
Conversas atribuídas à lobista citam "aero Lula", viagens com Lulinha e passagens pelo Planalto e residência presidencial; presidente afirmou em agosto que nunca havia visto ou conversado com ela
Mensagens de WhatsApp atribuídas à lobista Roberta Luchsinger acrescentaram novos elementos à controvérsia sobre a proximidade dela com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nas conversas reveladas neste domingo (21), Luchsinger afirma ter utilizado voos da Força Aérea Brasileira (FAB), relata passagens pelo Palácio do Planalto e faz referências a encontros na residência presidencial.
As mensagens ganham relevância porque contrastam com uma declaração dada por Lula durante sabatina na TV Globo, em 27 de agosto. Na ocasião, questionado sobre Luchsinger, o presidente afirmou que não a conhecia, nunca a tinha visto nem conversado com ela e que a lobista nunca havia estado próxima dele.
A declaração já havia sido contestada por checagens independentes antes da divulgação das novas conversas. Fotografias publicadas pela própria Luchsinger nas redes sociais mostram os dois juntos em diferentes ocasiões.
Uma das fotografias foi registrada em junho de 2022, durante um jantar organizado pelo grupo Prerrogativas. Lula aparece ao lado de Luchsinger e da advogada Daniela Teixeira, que posteriormente foi indicada ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Segundo Teixeira, o encontro ocorreu durante o evento promovido pelo grupo de advogados.
As novas mensagens avançam sobre um período posterior, já durante o terceiro mandato de Lula. Em uma conversa de março de 2023, Luchsinger disse à mãe que havia ido para Brasília de "aero Lula". Questionada sobre o significado da expressão, respondeu que se referia ao avião do presidente.
Registros da portaria do Palácio do Planalto obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que Luchsinger entrou no prédio às 15h37 de 22 de março daquele ano. Dois dias depois, ela enviou à mãe a mensagem sobre o "aero Lula" e uma fotografia feita de dentro do Planalto, com vista para o Congresso Nacional.
O registro de entrada comprova a passagem de Luchsinger pelo Palácio do Planalto naquela data, mas não demonstra, isoladamente, que ela tenha se reunido com Lula.
Em novembro de 2023, outra conversa atribuída à lobista menciona diretamente um deslocamento em aeronave da FAB na companhia do filho do presidente. Ao explicar a uma assessora do governo da Bahia que não conseguia determinar o horário de chegada, Luchsinger afirmou que viajaria "de FAB" e embarcaria por uma base aérea, e não pelo terminal convencional.
As mensagens também mostram Luchsinger fazendo referências recorrentes a Lula como "pai do Fábio". Em outubro de 2023, ela afirmou a um contato que ainda estava na "casa do pai do Fábio". Em outra conversa daquele período, disse que havia estado com Lula enquanto acompanhava Fábio Luís e mencionou uma nova ida ao local próxima ao aniversário do presidente, celebrado em 27 de outubro.
Outra mensagem, de outubro de 2024, também associa uma mudança de agenda ao presidente. Luchsinger disse que precisava antecipar uma viagem a Brasília porque o "pai do Fábio" havia feito um pedido ao filho após sofrer uma queda. Lula havia caído no banheiro do Palácio da Alvorada em 19 de outubro de 2024, episódio divulgado publicamente na época.
Já em junho de 2025, Luchsinger escreveu a uma advogada que estava "no palácio" e na "sala do pai do Fábio". A mensagem é apresentada pela apuração como mais um indicativo de que a referência era ao presidente.
As conversas, entretanto, devem ser analisadas com cautela. Elas registram aquilo que Luchsinger dizia aos interlocutores e não comprovam automaticamente cada encontro ou deslocamento mencionado. Essa ressalva é especialmente relevante em relação aos voos da FAB.
Em fevereiro de 2024, por exemplo, Luchsinger afirmou a um cliente que estava voltando "de FAB" depois de uma viagem à Suíça. A apuração confirmou que ela esteve em Genebra acompanhada das filhas, de Lulinha e da família dele, mas constatou que pelo menos o retorno da Europa ao Brasil ocorreu em voo comercial da TAP.
As aeronaves da FAB destinadas ao transporte de autoridades seguem regras próprias. A Comissão de Ética Pública orienta integrantes da alta administração federal sobre as condições para utilização desse tipo de transporte, que não funciona como um serviço aberto de deslocamento particular.
As revelações também se inserem em uma investigação mais ampla envolvendo Luchsinger, Lulinha e Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Fatos relacionados a Luchsinger e ao filho do presidente são investigados em inquéritos no Supremo Tribunal Federal. Uma das frentes apura suspeitas de tráfico de influência no Ministério da Saúde relacionadas à tentativa de comercialização de medicamentos derivados de cannabis. As suspeitas são objeto de investigação e não representam conclusão de culpa dos envolvidos.
Segundo as informações reveladas nas investigações e em reportagens anteriores, Luchsinger apresentava Lulinha como seu sócio em contatos com terceiros, embora não exista uma empresa formal registrada em conjunto pelos dois.
Lulinha também teve relações comerciais com Antônio Carlos Camilo Antunes envolvendo a Cannabis World, empresa ligada ao setor de cannabis medicinal, e os dois fizeram viagens juntos a Portugal e à Espanha.
As novas mensagens, portanto, acrescentam elementos à investigação sobre o círculo de relações de Luchsinger, mas têm impacto político adicional por terem sido divulgadas menos de um mês depois da negativa pública de Lula.
Ao menos parte daquela declaração já havia sido contrariada por evidências públicas antes da nova revelação: fotografias mostram Lula e Luchsinger juntos em diferentes ocasiões. Agora, mensagens atribuídas à lobista indicam que ela dizia a interlocutores ter acesso a espaços ligados à Presidência e proximidade com Lulinha durante o mandato iniciado em 2023.
O que permanece pendente é estabelecer documentalmente quais dos encontros mencionados nas conversas efetivamente ocorreram, quem autorizou eventuais deslocamentos em aeronaves oficiais e em quais condições eles teriam sido realizados.