Brasil mantém defesa por mulher latino-americana no comando da ONU

Após desistência de Michelle Bachelet, Itamaraty afirma que região tem nomes preparados para assumir a Secretaria-Geral das Nações Unidas

Por Ana Laura Gonzalez

Lula e Michelle Bachelet em imagem do ano de 2024

O Brasil manteve a defesa de uma mulher latino-americana para assumir a Secretaria-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), mesmo após a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet retirar sua candidatura ao cargo. Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), o governo afirmou que a região reúne mulheres com experiência e trajetória compatíveis com a função.

Bachelet anunciou a desistência no sábado (19), encerrando uma candidatura que havia recebido o apoio do Brasil e do México depois que o governo chileno deixou de respaldar seu nome. A ex-presidente havia sido indicada inicialmente durante o governo de Gabriel Boric, mas perdeu o apoio oficial de Santiago após a chegada de Antonio Kast à Presidência do Chile.

Na avaliação do governo brasileiro, a América Latina deve ter espaço na sucessão de António Guterres, cujo segundo mandato termina em 31 de dezembro de 2026. Brasília também sustenta a necessidade de ampliar a participação feminina no comando da ONU. Até hoje, nenhuma mulher ocupou o cargo de secretária-geral da organização.

Ao comentar a saída de Bachelet, o Itamaraty destacou a trajetória internacional da chilena, que foi presidente do Chile por dois mandatos, ministra da Saúde e da Defesa, diretora-executiva da ONU Mulheres e alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Segundo a pasta, a trajetória da ex-presidente demonstra que a América Latina dispõe de mulheres com experiência suficiente para exercer a Secretaria-Geral da ONU e atuar na defesa dos princípios estabelecidos pela Carta das Nações Unidas.

O governo brasileiro, porém, ainda não anunciou qual candidatura pretende apoiar após a retirada de Bachelet. A diplomacia brasileira também não indicou publicamente um novo nome para substituir a chilena na estratégia de Brasília.

Em sua manifestação, o Itamaraty afirmou que o Brasil continuará defendendo uma escolha baseada em critérios como transparência, inclusão, respeito ao direito internacional e compromisso com os três pilares da ONU: paz e segurança, direitos humanos e desenvolvimento sustentável.

A candidatura de Bachelet havia ganhado força depois que Brasil e México decidiram manter o apoio à ex-presidente chilena, mesmo com a retirada do respaldo de Santiago. O movimento ocorreu em meio à mudança política no Chile e transformou os dois países nos principais patrocinadores latino-americanos da candidatura.

Disputa pela Secretaria-Geral da ONU

A saída de Bachelet reduziu o número de candidaturas na corrida para suceder António Guterres. Na terceira consulta informal realizada pelo Conselho de Segurança, em 18 de setembro, a ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan recebeu nove votos de incentivo, enquanto a representante da Guiana, Carolyn Rodrigues-Birkett, teve oito.

A consulta é parte de um processo que ainda precisa avançar dentro do Conselho de Segurança. O órgão formado por 15 países deverá recomendar um nome à Assembleia Geral, que reúne os 193 Estados-membros da ONU. A escolha também depende da articulação entre os cinco membros permanentes do Conselho — Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido — que possuem poder de veto.

A ONU mantém oficialmente o processo de seleção em andamento e registra as candidaturas, currículos, declarações de visão e demais documentos apresentados pelos concorrentes.

Guterres deixará o posto ao fim de 2026, depois de dois mandatos consecutivos. O secretário-geral é o principal representante administrativo e diplomático da organização, participa de negociações internacionais, pode atuar na mediação de conflitos e levar situações consideradas ameaças à paz e à segurança ao Conselho de Segurança.

Apesar da influência diplomática, o secretário-geral não possui autoridade para impor unilateralmente decisões aos países-membros.

Lula discursa na Assembleia Geral

A sucessão na Secretaria-Geral ocorre enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está em Nova York para a 81ª Assembleia Geral da ONU. O presidente brasileiro fará o tradicional discurso de abertura do Debate Geral nesta terça-feira (22).

A expectativa é de que Lula destaque a defesa do multilateralismo, a soberania dos países e a necessidade de respostas diplomáticas para conflitos internacionais. Também deve abordar temas relacionados à defesa das instituições brasileiras e às relações do país com os Estados Unidos.

Informações divulgadas antes do discurso indicam que Lula deverá adotar tom diplomático ao tratar de questões envolvendo Washington, evitando citar diretamente o presidente Donald Trump. A fala ainda estava em preparação nos dias que antecederam a abertura da Assembleia Geral.

A posição brasileira sobre a sucessão de Guterres também se insere nessa agenda diplomática. Com a retirada de Bachelet, o governo Lula terá de definir qual candidatura latino-americana receberá o apoio do Brasil na etapa seguinte da disputa.

A escolha do próximo secretário-geral da ONU deverá ocorrer ao longo dos próximos meses. O nome indicado pelo Conselho de Segurança será submetido à Assembleia Geral, que formalizará a nomeação para um mandato de cinco anos.