Vorcaro procurou Gilmar Mendes no STF por causa bilionária de interesse do Banco Master

Ex-banqueiro se reuniu com ministro em abril de 2024 para tratar de disputa que poderia afetar bilhões em créditos adquiridos pelo Master; Gilmar votou contra a tese defendida por Vorcaro

Por Bianca Lobianco

Daniel Vorcaro se reuniu com Gilmar Mendes no STF em abril de 2024 para tratar de causa de interesse do Banco Master

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, reuniu-se com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para tratar de uma disputa judicial bilionária que tinha impacto direto sobre ativos mantidos pela instituição financeira. O encontro ocorreu no gabinete do magistrado, em Brasília, em 11 de abril de 2024.

A reunião foi revelada pela coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. Vorcaro buscava apoio para uma tese envolvendo indenizações reivindicadas por usinas do setor sucroalcooleiro contra a União.

As empresas alegam ter sofrido prejuízos em razão do controle estatal dos preços do açúcar e do álcool nas décadas de 1980 e 1990. O Banco Master havia adquirido bilhões de reais em créditos relacionados a essas disputas. Assim, uma decisão desfavorável às usinas poderia reduzir o valor dos ativos mantidos pelo banco.

Segundo estimativas da Advocacia-Geral da União (AGU), o impacto potencial do conjunto dessas ações para os cofres públicos poderia chegar a R$ 145 bilhões.

Um dos processos de interesse de Vorcaro envolvia a Destilaria Alcídia S/A. Gilmar chegou a pedir que o processo deixasse o plenário virtual para ser analisado presencialmente. Quando o mérito foi julgado pela Segunda Turma, em outubro de 2024, porém, Gilmar votou contra a pretensão da empresa, assim como André Mendonça.

Edson Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques formaram a maioria favorável à destilaria. Com isso, a empresa venceu o julgamento apesar do voto contrário de Gilmar.

A articulação para a audiência também chama atenção pela participação do empresário e ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, o Chiquinho Feitosa, que na época era cunhado de Gilmar Mendes. Informações apontam que Vorcaro negociou com Chiquinho um contrato de R$ 500 mil mensais, além de um pagamento adicional inicial de R$ 800 mil.

Mensagens atribuídas aos dois mostram Chiquinho aconselhando Vorcaro a estabelecer uma relação direta com Gilmar. O próprio ex-cunhado do ministro, no entanto, negou ter sido contratado para intermediar aproximações entre o banqueiro e o magistrado.

Os contatos entre Vorcaro e Chiquinho ocorreram entre abril de 2024 e junho de 2025 e incluíram referências a outros assuntos de interesse empresarial, entre eles temas ligados a universidades privadas e ao Ministério da Educação. Chiquinho confirmou ter firmado contrato de consultoria com a Super Empreendimentos, empresa investigada pela Polícia Federal, mas negou ter atuado para aproximar Vorcaro de Gilmar.

O gabinete de Gilmar afirmou que o ministro não tinha conhecimento de tratativas comerciais entre Vorcaro e seu então cunhado. O magistrado também afirmou que nunca tratou com Vorcaro ou Chiquinho de pautas relacionadas ao Ministério da Educação. No caso das usinas, o resultado dos julgamentos citados mostra que Gilmar não acompanhou a posição defendida pelo ex-controlador do Master.

A revelação ocorre em meio à divulgação de novos diálogos extraídos do celular de Vorcaro e à ampliação da repercussão do caso Master dentro do Supremo. Ministros da Corte passaram a ter acesso aos dados e mensagens apreendidos pela Polícia Federal, enquanto diferentes relações e contatos mantidos pelo banqueiro vêm sendo revelados.