PF mira Cezinha de Madureira por tráfico de influência no Judiciário
Operação mira deputado e esposa após conversas encontradas em telefone de "Tuca", responsável por destinação de emendas parlamentares
A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta segunda-feira (14) a terceira fase da Operação Transparência que investiga desvios de recursos públicos e irregularidades na destinação de verbas de emendas parlamentares. A operação foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino que, no mesmo dia, derrubou o sigilo da decisão da operação, protocolado em 5 de setembro.
Dentre os três alvos da operação, está o deputado federal Antônio Cezar Correia Freire, conhecido como “Cezinha de Madureira” (PL-SP). Ele é investigado por suposta prática dos crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Em sua decisão, Dino destaca que o deputado federal “aparenta utilizar a ascendência de sua função parlamentar para incutir em terceiros a percepção de influência sobre magistrados de Tribunais Superiores”, o que inclui o STF.
R$ 510 mil
No dia 25 de agosto deste ano, a polícia apreendeu R$ 510 mil em espécie da esposa do parlamentar, a advogada Valéria Rodrigues Linhares, durante inspeção de bagagem de aparelhos de raio-X realizada no Aeroporto de Congonhas (SP). Como ela não apresentou documentos que comprovassem a origem do dinheiro, tampouco a regularidade da quantia, os valores foram retidos pela PF, que passou a investigar o caso. Valéria também é um dos alvos de investigação da PF.
Segundo as apurações da Polícia Federal, o casal atuava em conjunto com a servidora da Câmara dos Deputados Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, apontada como uma das responsáveis pela coordenação da destinação de emendas parlamentares. Ela teve seus bens eletrônicos apreendidos pelas autoridades em dezembro de 2025 (primeira fase da operação policial) e, nos diálogos extraídos, foram reveladas a atuação contínua e articulada entre as três figuras que tinham papéis “complementares e definidos”.
Tuca era responsável por captar e formalizar “as causas e elaborar os memoriais”, Valéria redigia, revisava e assinava “os instrumentos de honorários e de cessão de crédito e sinaliza a evolução do ‘assunto’”, e o próprio Cezinha era o responsável por realizar e manter o suposto contato pessoal e direto com ministros de Tribunais Superiores.
“O padrão de conduta é constante e se repete em todos os episódios: (i) Fialek encaminha ao parlamentar a peça, o memorial ou o andamento processual; (ii) o parlamentar confirma que ‘falou’, ‘despachou’, ‘pediu’ ou que será atendido pelo Ministro; (iii) a advogada cobra o resultado (‘Manda notícias’, ‘Me dê boas notícias!’, ‘Qual o próximo passo’); e (iv) paralelamente, formaliza-se o instrumento de honorários de êxito, em valores incompatíveis com a simples atuação técnica e vinculados exclusivamente ao resultado do julgamento”, detalha a decisão de Dino.
As conversas encontradas nos aparelhos eletrônicos de Tuca mencionam os ministro do STF Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Gilmar Mendes. Porém, a PF ressaltou que não há elementos que indiquem “solicitação, aceitação ou recebimento de vantagem indevida por integrante do Poder Judiciário”.
Cezinha de Madureira é aliado do ministro do STF André Mendonça. Em março de 2025, quando o Banco Master ainda não era alvo de investigação, o deputado marcou um encontro entre Mendonça e Daniel Vorcaro para eles conversarem sobre uma ação sobre precatórios que era de interesse do Master. A operação ocorreu na véspera do julgamento no Supremo sobre o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com as fraudes bancárias do Banco Master. A Corte, posteriormente, também julgará o envolvimento de outros ministros do Supremo envolvidos com Daniel Vorcaro.
O outro lado
Por meio de nota divulgada à imprensa pelo escritório Carneiros Advogados, advogados de defesa de Cezinha, informou que o parlamentar confia na justiça e “está à disposição das autoridades e prestará todos os esclarecimentos necessários”.
“O deputado está certo de que, assegurados o contraditório e o amplo acesso da defesa aos elementos da investigação e à íntegra do processo, os fatos serão devidamente esclarecidos no devido processo legal, com a demonstração de que nenhuma irregularidade foi cometida. Importante ressaltar que, conforme a jurisprudência do STF estabelece, medidas de tamanha repercussão deveriam ter sido conduzidas com a devida distância de qualquer circunstância política ou eleitoral”, declararam os advogados.