Dino aponta suspeita de venda de influência por deputado no STF

Decisão autorizou buscas contra Cezinha de Madureira e a mulher dele; PF investiga suposta negociação de influência em tribunais superiores

Por Ana Laura Gonzalez

Ministro Flávio Dino

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), apontou indícios de que o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) teria usado a posição parlamentar para transmitir a terceiros a percepção de que possuía influência sobre ministros de tribunais superiores. A suspeita fundamentou a autorização de buscas realizadas pela Polícia Federal nesta segunda-feira (14).

A operação também teve como alvo Valéria Rodrigues Linhares, advogada apontada como esposa do deputado. A investigação apura suspeitas de tráfico de influência, exploração de prestígio, corrupção passiva e lavagem de dinheiro relacionadas à suposta negociação de atuação em processos que tramitam no STF, no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na decisão, Dino afirmou que os elementos reunidos até o momento indicam, em tese, que Cezinha, embora não tenha habilitação para atuar como advogado, poderia estar utilizando o trânsito institucional proporcionado pelo mandato para negociar uma suposta influência sobre magistrados.

O ministro também destacou que os valores envolvidos nas tratativas, segundo a investigação, seriam elevados, o que, na avaliação apresentada no despacho, afastaria a hipótese de que os contatos representassem apenas atividade política.

PF investiga suposta estrutura de influência

Segundo a representação apresentada pela Polícia Federal e acolhida por Dino, haveria uma divisão de funções entre o parlamentar e advogadas envolvidas nas negociações.

A investigação aponta que Mariângela Fialek, advogada que atuava na Câmara dos Deputados e teve o celular analisado na primeira fase da Operação Transparência, seria responsável por captar casos e preparar memoriais e outros documentos jurídicos.

Valéria Rodrigues Linhares, por sua vez, seria encarregada da elaboração, revisão e assinatura de contratos de honorários e de cessão de créditos relacionados às operações investigadas.

Já Cezinha de Madureira teria a função de realizar contatos e "despachos" com ministros, utilizando, segundo a PF, o acesso institucional decorrente do cargo parlamentar.

A suspeita é de que a estrutura teria como objetivo oferecer a clientes a promessa de influência em processos judiciais mediante o pagamento de valores elevados.

Contratos chegavam a milhões de reais

As investigações encontraram mensagens que tratam de processos específicos em tramitação no STF.

Em um dos casos citados na decisão, envolvendo a defesa da prefeita de Beberibe, no Ceará, um contrato estabelecia pagamento de R$ 500 mil condicionado à obtenção de uma decisão favorável.

Outro episódio envolve a defesa de um ex-secretário de Belford Roxo, no Rio de Janeiro. Segundo a investigação, os documentos previam inicialmente R$ 1 milhão e posteriormente aditivos que poderiam elevar os valores para R$ 2 milhões caso houvesse a revogação de uma prisão preventiva.

Nas conversas analisadas pela PF, Cezinha também relataria encontros e audiências com magistrados. Entre as expressões identificadas pelos investigadores estão referências a contatos já realizados e a assuntos que teriam sido reforçados junto às autoridades.

Para a PF, essas mensagens fazem parte dos elementos que sustentam a hipótese de comercialização de influência.

Ministros citados não são investigados

A decisão de Flávio Dino faz uma ressalva sobre os magistrados mencionados nos diálogos.

Segundo a investigação, os ministros e juízes citados não são alvos nem suspeitos de irregularidades. Os nomes aparecem no material, de acordo com a PF, como autoridades diante das quais os investigados alegadamente prometiam exercer influência ou como possíveis vítimas da exploração de prestígio.

O despacho também destaca que receber advogados e parlamentares para audiências e despachos faz parte da rotina institucional dos tribunais e, por si só, não representa irregularidade.

A investigação, portanto, está concentrada na suposta utilização desses contatos para vender a terceiros a ideia de que seria possível interferir em decisões judiciais.

R$ 510 mil em dinheiro vivo entram na investigação

Outro elemento considerado por Dino foi a apreensão de R$ 510 mil em espécie com Valéria Rodrigues Linhares no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em 25 de agosto de 2026.

O ministro determinou que a apuração relacionada à apreensão fosse transferida para o STF. Para os investigadores, a existência de uma quantia elevada em dinheiro vivo pode indicar uma tentativa de movimentar recursos fora do sistema bancário e dificultar o rastreamento da origem e do destino dos valores.

As buscas autorizadas por Dino incluem imóveis residenciais e profissionais do deputado e da advogada em São Paulo e Brasília. A decisão também permitiu a apreensão de veículos, objetos de valor e dinheiro em espécie superior a R$ 10 mil.

Dino barra busca no gabinete da Câmara

Apesar de autorizar as diligências em endereços residenciais e profissionais, Flávio Dino rejeitou o pedido da Polícia Federal para realizar buscas no gabinete de Cezinha de Madureira na Câmara dos Deputados.

Na avaliação do ministro, não havia elementos concretos suficientes para justificar a medida dentro do espaço destinado à atividade legislativa.

A decisão, portanto, estabeleceu limites para a operação, preservando o local de trabalho parlamentar diante da ausência, segundo Dino, de fundamentação específica que justificasse a busca.

Deputado disse que teve celular furtado

Poucos dias antes da operação, Cezinha de Madureira publicou um vídeo nas redes sociais relatando o furto de seu celular na Avenida Paulista, em São Paulo.

Segundo o parlamentar, o aparelho foi levado na sexta-feira (11), e os criminosos teriam conseguido acessar suas contas bancárias e alterar senhas de aplicativos pouco tempo depois.

A operação da PF, contudo, já havia sido autorizada anteriormente. A decisão de Flávio Dino que determinou as buscas foi assinada em 5 de setembro, uma semana antes da ação realizada nesta segunda-feira.

A Operação Transparência continua em andamento, e os elementos apreendidos nas buscas deverão ser analisados pelos investigadores para verificar a extensão da suposta estrutura de negociação de influência investigada pela Polícia Federal.

Stf