Mendonça rejeita abertura de celular de Vorcaro antes do julgamento

Relator diz que novos elementos podem tumultuar sessão do STF e pede explicações a delegados da PF sobre envio de arquivos

Por Ana Laura Gonzalez

André Mendonça, relator de casos que citam Moraes, Flávio Bolsonaro e Fábio Lula da Silva

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), se posicionou contra a abertura integral dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro antes da sessão do plenário marcada para terça-feira (15). Em ofício encaminhado neste domingo (13), o relator afirmou que a inclusão de novos elementos no processo poderia prejudicar o julgamento e interferir no andamento das investigações relacionadas ao Banco Master.

Mendonça afirmou que a liberação de todo o conteúdo extraído do aparelho, incluindo informações que ainda não integram os autos, poderia provocar uma série de questionamentos e deslocar o debate do objeto inicialmente previsto para a sessão.

A manifestação ocorre em meio à disputa entre ministros do STF sobre o acesso ao material apreendido pela Polícia Federal. O plenário deverá analisar o relatório produzido a partir das investigações da PF sobre mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.

Mendonça diz que ministros têm acesso ao mesmo material

Nos últimos dias, Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes recorreram à Presidência do Supremo para defender o acesso integral ao espelhamento do telefone de Vorcaro.

Zanin e Gilmar sustentam que o conhecimento de todo o conteúdo é necessário para que os ministros possam avaliar o contexto das conversas antes de tomar uma decisão. Moraes também questionou a possibilidade de o relator definir quais documentos devem estar disponíveis aos demais integrantes do colegiado.

Em seu novo ofício, Mendonça rebateu essa posição e afirmou que não existe diferença entre o material utilizado por ele e aquele disponibilizado aos demais ministros.

Segundo o relator, todos os integrantes do STF têm acesso à íntegra dos elementos que serão considerados na sessão de terça-feira.

Mendonça também citou uma declaração anterior do presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, para defender que a gravidade do caso não justificaria mudanças no procedimento às vésperas do julgamento.

Ministro pede informações a quatro delegados da PF

No mesmo documento, André Mendonça pediu que Fachin determine a quatro delegados da Polícia Federal que prestem esclarecimentos em até 24 horas.

A solicitação envolve o envio de relatórios e mídias ao gabinete do ministro em março de 2026. Mendonça quer saber em quais circunstâncias o material foi encaminhado e pediu informações sobre eventuais constrangimentos que os policiais possam ter enfrentado durante a investigação.

O pedido acrescenta um novo elemento à troca de manifestações entre o Supremo e a Polícia Federal antes da sessão de terça-feira.

No sábado (12), Fachin havia determinado que a PF esclarecesse a situação do aparelho de Daniel Vorcaro e explicasse como os dados foram armazenados, com atenção à preservação da cadeia de custódia das provas.

PF afirma que pode enviar cópias aos ministros

A Polícia Federal respondeu neste domingo (13) que o celular de Vorcaro e os arquivos originais da extração permanecem sob custódia da corporação.

A PF informou ainda que possui condições técnicas para fornecer cópias idênticas do conteúdo aos gabinetes dos ministros que solicitarem o material.

Segundo a corporação, o arquivo encaminhado ao gabinete de André Mendonça em março de 2026 era uma cópia produzida a partir de uma solicitação formal do relator.

Mendonça já havia informado anteriormente que os arquivos permaneciam lacrados e criptografados em seu gabinete e que não havia realizado o manuseio do conteúdo. A justificativa apresentada foi a preservação do material como contraprova de segurança.

Acesso ao celular vira ponto central antes do julgamento

A divergência sobre o conteúdo do aparelho se tornou uma das principais questões às vésperas da análise do caso pelo plenário do STF.

De um lado, ministros como Zanin e Gilmar Mendes defendem que o colegiado tenha acesso ao conjunto completo dos dados para avaliar as mensagens em seu contexto. Do outro, Mendonça sustenta que a inclusão de novos elementos neste momento poderia comprometer o objeto específico da sessão e o andamento das investigações.

A disputa ocorre enquanto o Supremo também discute a validade do relatório elaborado por Mendonça a partir das informações levantadas pela Polícia Federal.

Ala de Moraes aposta em questões preliminares

Paralelamente à discussão sobre os dados do celular, integrantes do STF próximos a Alexandre de Moraes avaliam apresentar questões preliminares durante a sessão.

A estratégia envolve questionamentos sobre a própria elaboração e tramitação do relatório de André Mendonça. Eventuais nulidades poderiam ser analisadas antes de o plenário entrar no mérito das mensagens atribuídas a Moraes e Daniel Vorcaro.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) já se manifestou pelo arquivamento do relatório, apontando possíveis falhas em sua produção e tramitação.

Com a sessão marcada para terça-feira (15), a sucessão de ofícios e pedidos de esclarecimento evidencia a disputa dentro do STF sobre o acesso às provas e sobre os procedimentos que deverão orientar a análise do relatório da Polícia Federal.