'O paciente está com febre de 45 graus agora. O paciente é o Brasil'

Porta-voz da equipe econômica de Flávio Bolsonaro critica os gastos do governo Lula, alerta para o endividamento das famílias e defende mudança de rumo na economia brasileira

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Em entrevista exclusiva ao jornalista Cláudio Magnavita, publisher do Correio da Manhã, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e porta-voz da equipe econômica de Flávio Bolsonaro, critica a condução econômica do governo Lula, aponta aumento de gastos, impostos e endividamento e defende uma mudança de rumo na gestão do país. Ela também fala sobre o papel da Caixa, segurança pública e as propostas econômicas no caso da eleição de Flávio. Confira a primeira parte da entrevista a seguir:

CLÁUDIO MAGNAVITA- O Correio da Manhã, aqui em São Paulo, conversa com a Dani Marques. Daniella Marques, a gestora do que é o pensamento econômico da campanha do Flávio Bolsonaro e, quem sabe, vai ser o olhar dos próximos anos da economia brasileira. Dani, vamos começar, em relação a princípios... O fato de ser de uma família de classe média, de Barra Mansa, você comentava antes da entrevista que a sua avó tem uma pensão de três mil reais e que os netos ajudam, todo mundo ajuda. Isso ajuda a compreender o Brasil real, o Brasil que está desassistido nos últimos anos?

DANIELLA MARQUES - Ajuda muito e isso dá o propósito, na verdade, de me doar para cuidar das pessoas e retribuir aquilo que eu consegui conquistar. O que me deu essa visão do Brasil real foi quando, no governo do presidente Bolsonaro, eu fui presidente da Caixa. E aí viajei o Brasil inteiro, ouvindo histórias e ajudando com programas e vendo aquela potência, me transformou mais ainda. Eu fui com esse ímpeto de saber que a vida estava piorando muito para a minha família, eu falo que a origem não determina o destino. Eu consegui crescer, mas como é que a gente faz as outras pessoas crescerem também? E um governo, ele se torna o motor e o desenvolvedor das capacidades. Então, eu vejo muito, Magnavita, a assistência social como algo extremamente necessário, mas como um primeiro passo e não o último, né? Você acolhe aquela família, aquela mulher no seu estágio mais vulnerável, mas aquilo não pode ser um fim, tem que ser um início de uma jornada onde o próprio Estado dá outros passos. Então, eu tenho isso muito claro, assim, de onde a gente veio e como chegou e por que chegou. E ali, quando eu trabalhei com o ministro Paulo Guedes, foi um aprendizado muito grande desse Brasil profundo e como um governo pode ser o promotor desse crescimento, desse voo das pessoas, gerando oportunidades, capacitação, articulação de soluções entre governos estaduais e prefeituras. Foi um aprendizado muito grande para mim e uma transformação não só profissional, mas principalmente pessoal.

CM: Agora, Daniela, o fato de você ser uma executiva de sucesso, antes foi da iniciativa privada, o Paulo Guedes também, e de repente aparece, pelo destino, uma oportunidade histórica de transformar, ou até de retribuir para o país um pouco do que se ganhou. Isso poucas pessoas têm esse sentimento de história, porque todo mundo pensa na sua conta na Suíça, na sua conta bancária, na questão patrimonial, mas poucas pessoas se entregam como o Paulo Guedes se entregou. E perdeu dinheiro por causa disso, porque deixou de ir lá nos negócios dele. Nós dois, assim, deixamos tudo. Então, me fala um pouco desse sentimento de responsabilidade do gestor de poder aceitar o convite da história.

DM: É senso de missão mesmo, assim. O Paulo deixou uma contribuição que a história ainda vai reconhecer e premiar, o momento mais desafiador que todos nós vivemos, que foi o enfrentamento da pandemia. Nunca ninguém, nem nos estudos, em estudos de economia, você faz teste de estresse, teste de risco, ninguém nunca... nem... falava: qual é o pior cenário? Nem numa suposta previsão do pior cenário alguém dimensionou um choque econômico daquela magnitude, causado por uma crise de saúde. E podem falar o que quiser, o fato foi que o Brasil recuperou em V, né, e foi um dos países mais bem-sucedidos do ponto de vista econômico na gestão da crise, e isso é mérito justamente dessa sabedoria e dessa visão dele. E esse sentido da doação é que você pode ter, e a gente está nesse momento de novo, que é um momento de colapso absoluto. A hora que a segurança pública... você senta na zona de privilégio que a gente está e chegou, você senta num jantar no Rio de Janeiro, nós dois, eu morava no Rio de Janeiro antes de ir para Brasília, e a conversa da mesa é qual é o grau de blindagem do seu carro e se aguenta tiro de fuzil ou não. O que está acontecendo? Então a gente hoje vive uma crise moral, institucional, um colapso de segurança pública e uma crise econômica que, numa realidade de uma má gestão de um governo, que trouxe mais falência a empresas do que a própria Covid, que era uma crise econômica muito pior, produzida pela má gestão.

CM: Você tem uma linha do tempo que eu diria que metade do governo Bolsonaro foi consumido no enfrentamento de uma pandemia. Não só o enfrentamento com o lockdown, fechamento geral, olhar para o céu e não vir um avião passar, quer dizer, a gente esquece do que foi isso. Você tem depois a recuperação do Brasil, a preservação de emprego, preservação de negócios, lucros econômicos, usaram as ferramentas que foram criadas pelo Ministério da Economia, e você vê a entrega de um Brasil com as contas arrumadas, as estatais dando lucro, o país entrando no eixo e, de repente, em quatro anos, o cenário muda completamente. Vai ser complicado, no caso da vitória do Flávio, voltar à estaca zero do ponto que vocês deixaram para poder reconstruir o Brasil? Como é que você vê a diferença do que foi o governo que vocês entregaram, numa transição altamente civilizada, com os governos que possivelmente vocês possam receber?

DM: Eu vejo dois pecados, vamos dizer assim, as consequências dessa crise estão aí. Quando você está num país que tem a maior taxa de juro real do mundo, mais do que a Rússia, que está em guerra neste momento, a maior carga tributária da nossa história e criaram ou elevaram mais de 30 impostos para tentar fechar o buraco do país de contas nos vermelhos, esfolando os empreendedores. A hora que você tem mais de seis mil empresas entrando em recuperação ou falindo só nesses últimos seis meses, sendo que na pandemia não foram duas mil, e principalmente mais de 80% das famílias brasileiras endividadas não conseguindo pagar suas contas e se endividando para pagar conta básica, não para comprar um carro, né, ou a primeira casa, como era a classe média na época do meu pai, todo mundo está vendo que alguma coisa deu errado. Qual é o pecado original? Assim, pra mim tem duas causas principais. A primeira é a gastança. Então, quem não cuida das contas não cuida das pessoas. Quando você, de forma contínua, gasta mais do que arrecada e vai tentando esfolar o setor produtivo pra fechar essa conta e a conta não fecha, esse é o pecado original, que tem como consequência o aumento de preço lá na gôndola, e não é uma sensação que o supermercado está caro, nós sabemos que está, e o carrinho tá mais vazio. Por quê? Todo esse ciclo tóxico e nocivo de gastar descontroladamente, tentar aumentar imposto para pagar o buraco, tanto esse juro quanto esse imposto está refletido no preço dos serviços e dos alimentos. Esse é o primeiro pecado original. Qual é o outro pecado original? Quando você tem um câncer, um tumor, você vai num oncologista, né? Então você não vai num dentista, ou você não vai num banco. Então, esse governo, além de produzir uma gastança como foi a de um a dois, que levou o Brasil para uma recessão sem nenhuma crise externa, a gente viu um aparelhamento sem precedentes da máquina do Estado de novo. Sim, alguns números para te ilustrar. O presidente Bolsonaro, num decreto em março de 2019, para justamente a gente botar as contas no azul, cortou quase 20 mil cargos comissionados, cargos que existiam para você colocar os seus amigos e não serviam para nada, vide os resultados das pastas. E o PT agora, se você está endividado lá no seu Correio da Manhã, você contrataria mais 200 pessoas? Não, você fica tentando enxugar custos. Eles recontrataram 22.500 pessoas. Por que eles fazem isso? Porque está no estatuto do PT que quem é indicado por eles tem que pagar dízimo para o partido. Então isso é um ciclo vicioso. E aí, quando você aparelha a máquina do Estado de novo, por pessoas que não têm capacidade técnica para ocupar, você coloca no Ministério do Turismo alguém que não entende de turismo, Ministério da Saúde alguém que não entende de saúde, no Ministério da Economia alguém que não entende de economia, e assim vai, e na gestão das estatais, pessoas que não têm formação, o resultado é ruim. Então não é muito difícil entender, mesmo um brasileiro mais simples, ou o meu filho que tem 11 anos, que como as estatais, passando por uma pandemia, deram um resultado superior a 15 bilhões e agora só o Correio tem um buraco de 10? Má gestão, má resultado, para não fazer ilação sobre outras coisas. Então houve um retrocesso. Então, para mim, a combinação das duas coisas é que é a metástase do que a gente vê dessa bagunça que está o Brasil hoje.

CM - Mas como consertar isso? Porque vai ter que ter um choque de ordem. Isso significa o quê? Demissão, enxugamento da máquina, redução...

DM - Isso significa, primeiro de tudo, o Flávio… eu estou aqui como porta-voz de um time muito robusto que está vindo com ele nesse espírito público de servir e transformar o Brasil. Então eu, o Adolfo Sachsida, já anunciamos ainda na campanha mais de dez PhDs em economia que estão contribuindo. O Adolfo coordena 27 grupos que trazem sugestões e, trazendo, redigindo medidas, são mais muitas pessoas. Você tem o doutor Cláudio Lottenberg, foi presidente por dez anos do maior hospital de referência do Brasil. Você tem o Adriano Pires na Energia. Então, a hora que o Flávio se cerca de pessoas que têm autoridade nos temas, isso é autoridade, é uma autoridade movida a conhecimento.

CM - Esse respeito ao especialista e a carta branca dada ao especialista, eu diria que foi uma das marcas do presidente Jair Bolsonaro. Você convivia com ele, ele acordava às cinco horas da manhã, queria saber das coisas, mas ele tinha uma coisa chamada carta branca, autonomia. Ele respeitava a opinião, ele não procurava entender de economia, ele delegava. O Flávio tem esse mesmo DNA?

DM - Muito, houve muito. Mas o que funciona, Magnavita? É a combinação, é uma independência de pensamento, não de execução, porque os técnicos, eles trazem a visão e a formulação técnica, e você tem o ouvido no povo, aquilo que é o anseio do povo. Então o Flávio, assim como o presidente Bolsonaro, ele me ligava às cinco da manhã todo dia e eu tive o privilégio de conviver, despachar com ele. E eu fazia o despacho, eu comia dobradinha com ele, eu comia o pastel, ele era um líder muito generoso, mas ele era o quê? O que o vendedor de churrasquinho quer? Ele era uma antena. Ele era uma antena, captando o anseio do povo. Esse é o papel da liderança política. É isso que o Flávio, quando o Flávio fala pra mim, Dani, eu quero que a Caixa seja o Itaú ou o Bradesco da favela e da periferia, qual é a tradução técnica disso? Ora, se nós temos orientação financeira nos nossos investimentos, nos nossos negócios e as estruturas do setor financeiro servem a quem tem renda mais alta... E você tem um banco que é 100% estatal, com um time técnico capacitado, que chega em 99,5% dos municípios. Vamos preparar esse time para levar não só a política pública na porta giratória, que é o que a Caixa faz hoje, mas para explicar para o cara que ele pode formalizar o negócio dele e não perder o Bolsa Família, para explicar como ele troca uma dívida cara por uma dívida mais barata. Então ele vem com esse sentimento e esse olhar político, é essa combinação que dá resultado. Um governo só de técnicos não daria o resultado porque os técnicos não têm esse... Então o Flávio faz interface com a necessidade popular. E tem o terceiro pilar, que é com a realidade do Congresso Nacional, que vai ser soberano para aprovar, e ele tem 20 anos de vida pública, então ele conhece onde o calo aperta, e eu conheci o Flávio justamente no governo do presidente Bolsonaro.

Continua nas páginas 4 e 5