‘Dívida de vida’, contratos milionários e alerta antes da prisão: o que a PF revelou sobre Moraes e Vorcaro

Relatório tornado público por André Mendonça reúne mensagens do dono do Banco Master, registros de encontros com ministro do STF e contratos envolvendo escritório de Viviane Barci de Moraes.

Por Bianca Lobianco

Conversas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro são bem comprometedoras e instauraram uma crise institucional no STF

A retirada do sigilo de um relatório da Polícia Federal revelou novos detalhes sobre a relação entre Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O documento reúne mensagens, contratos e registros de encontros envolvendo os dois.

Entre os episódios de maior repercussão está uma conversa registrada dois dias antes da prisão do banqueiro. Em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou ao contato atribuído a Moraes: "Acha que segunda já tenho que estar fora?".

Segundo o relatório, as mensagens indicam que os dois discutiam a possibilidade de uma operação da Polícia Federal contra Vorcaro. Dois dias depois da conversa, o banqueiro foi preso ao tentar embarcar em um jato particular. A operação investigava a venda de títulos de crédito falsos pelo Banco Master.

Vorcaro está preso no âmbito das investigações sobre a instituição financeira. De acordo com a PF, o esquema investigado teria inflado artificialmente o valor do Master para transmitir uma situação financeira mais sólida, permitindo a atração de bilhões de reais de investidores e a realização de operações sem garantias reais.

'Dívida de vida'

Outra mensagem encontrada pela PF foi enviada por Vorcaro em 14 de novembro de 2025, três dias antes de sua prisão. Nela, o banqueiro afirmou ter uma “dívida de vida” com Moraes e agradeceu ao ministro por "tudo". No mesmo dia, segundo o relatório, os dois também trataram de um encontro na casa do empresário.

As conversas extraídas do celular de Vorcaro apontam ainda para diversos encontros entre o empresário e Moraes entre março de 2024 e agosto de 2025.

Contratos com escritório da mulher de Moraes

A investigação também trouxe novos elementos sobre os contratos envolvendo o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Registros digitais e metadados obtidos pela PF apontam que Moraes participou da edição de um contrato de aproximadamente R$ 130 milhões entre o escritório e Vorcaro.

Em nota, a banca afirmou que o ministro foi consultado somente para verificar se havia algum impedimento legal para a contratação e que, como nenhuma restrição foi identificada, o acordo acabou assinado. 

A PF encontrou ainda um segundo contrato, de R$ 50 milhões, firmado entre o escritório e a Viking Participações, empresa ligada a Vorcaro. Uma das propostas discutidas previa que R$ 40 milhões fossem pagos por meio da entrega de cotas de duas aeronaves, um jatinho e um helicóptero. Os outros R$ 10 milhões seriam destinados ao reembolso de despesas relacionadas ao uso das aeronaves.

Em outra mensagem, Vorcaro demonstrou preocupação com pagamentos destinados ao escritório de Viviane. Ao conversar com funcionários, classificou o compromisso como o "mais importante que temos" e, ao reclamar que determinado pagamento não havia sido realizado, afirmou: "Vamos ter problemas".

Visita 'ultra VIP' e eventos em Londres

O relatório também recuperou mensagens sobre uma visita atribuída a Moraes a Campos do Jordão, em dezembro de 2023. Vorcaro teria determinado que funcionários preparassem uma "experiência completa" para convidados classificados como "ultra VIP".

A estrutura acomodava nove convidados, quatro seguranças, cantor, cavalos e chef particular. Nas conversas, o principal convidado aparece identificado como "Alex", que a PF atribuiu a Alexandre de Moraes.

Outro conjunto de mensagens trata de eventos jurídicos organizados pelo Banco Master em Londres. Segundo a investigação, conversas indicam que Moraes participava de decisões sobre a programação e a relação de convidados. Os diálogos registram nomes submetidos ao ministro, além de vetos atribuídos a ele e alterações na programação. Em uma das conversas, Vorcaro afirmou que precisava "aprovar com Alexandre" a lista de participantes.

O relatório teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça nesta terça-feira (1º), colocando as mensagens e os demais elementos reunidos pela Polícia Federal no centro da repercussão do caso Banco Master.