Após depoimento à PF, defesa de Vorcaro fala em colaboração
Banqueiro prestou esclarecimentos nesta sexta-feira; defesa nega corrupção e diz que ele está disposto a aprofundar explicações
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, deixou o depoimento prestado na sexta-feira (28) à Polícia Federal (PF) com uma nova estratégia pública de defesa: afirmar que respondeu a todas as perguntas, negar qualquer ato de corrupção envolvendo servidores citados na investigação e, ao mesmo tempo, sinalizar disposição para ampliar os esclarecimentos.
Na nota divulgada após a oitiva, que durou quase quatro horas, os advogados disseram que esta foi a primeira oportunidade em que Vorcaro pôde se manifestar diretamente sobre parte dos fatos investigados. A defesa afirmou ainda que ele respondeu “de forma clara e consistente” aos questionamentos e sustentou que teria ficado demonstrada a inexistência de corrupção envolvendo servidores mencionados no inquérito.
Colaboração
O trecho que mais chamou atenção, porém, veio no fim do comunicado. A defesa afirmou que Vorcaro tem “plena disposição de prestar esclarecimentos mais amplos e aprofundados”, desde que lhe seja assegurada a possibilidade de colaborar.
Daniel Vorcaro já havia buscado anteriormente abrir espaço para duas tentativas de colaboração premiada com as autoridades, mas as tratativas não avançaram. Agora, depois de apresentar sua versão diretamente à PF, a defesa volta a deixar essa porta entreaberta.
Para o advogado criminalista Jefferson Nascimento da Silva, a palavra “colaborar” não deve ser interpretada automaticamente como anúncio de uma nova tentativa de delação premiada.
“Juridicamente, eu teria bastante cautela antes de tratá-la como sinalização de colaboração premiada”, afirma.
Segundo o especialista, a colaboração prevista em lei segue um procedimento próprio, com negociação formal, participação obrigatória da defesa e análise sobre a relevância e a utilidade das informações oferecidas. Para ele, o simples uso do termo em uma nota pública não permite concluir que exista proposta, negociação ou acordo em andamento.
O depoimento desta sexta também não encerra a apuração. A versão apresentada por Vorcaro poderá ser confrontada pela Polícia Federal com documentos, movimentações financeiras, perícias, comunicações e depoimentos já reunidos ou que ainda venham a ser colhidos.
Jefferson Nascimento lembra que, no processo penal, nenhum relato deve ser analisado isoladamente.
“Um depoimento pode explicar circunstâncias, apontar novas linhas investigativas ou até enfraquecer determinada hipótese, mas sua força dependerá daquilo que conseguir ser confirmado pelos demais elementos objetivos da investigação”, diz.
Isso vale também para a afirmação da defesa de que não houve corrupção. A conclusão apresentada pelos advogados ainda precisará ser confrontada com o conjunto de provas reunido pelos investigadores.
“Não se condena alguém apenas porque existe uma suspeita, mas também não se encerra uma investigação apenas porque o investigado apresentou uma versão para os fatos”, afirma o criminalista.
Caso Vorcaro decida buscar formalmente uma colaboração premiada, o avanço também não dependerá apenas da vontade dele. Uma eventual negociação precisa apresentar utilidade concreta para a investigação e trazer fatos relevantes. Segundo a Polícia Federal, esse foi justamente um dos pontos que impediram o avanço das duas propostas apresentadas anteriormente.
“Colaboração premiada não significa simplesmente contar uma história em troca de benefício. Ela precisa entregar informação útil, verificável e capaz de ser corroborada”, reitera o especialista.
O depoimento desta sexta-feira marca a primeira vez em que Vorcaro apresentou diretamente à Polícia Federal sua versão sobre parte dos fatos investigados. Agora, as explicações passam a integrar o conjunto da apuração e serão confrontadas com os demais elementos já reunidos pelos investigadores.
A disposição anunciada pela defesa pode abrir espaço para novos movimentos no caso. Até aqui, porém, não há indicação de que uma nova colaboração premiada esteja formalmente em negociação. A investigação segue em curso.