Documentos de Dark Horse chegam à Polícia Federal

Informações abrem nova etapa de investigação

Por Beatriz Matos

"Dark Horse" recolocou corrupção no centro do debate

Os documentos do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, mudaram de endereço nesta semana. Saíram da Polícia Civil de São Paulo e chegaram à Polícia Federal, em Brasília, depois de uma determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).

No pacote, estão depoimentos, documentos, dados extraídos de celulares e outras informações reunidas durante uma operação realizada em junho contra a empresária Karina Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme inspirado na trajetória de Bolsonaro.

Peças do quebra-cabeça

A chegada desse material dá à PF novas peças para montar um quebra-cabeça que já vinha sendo investigado por caminhos diferentes: quem colocou dinheiro no filme, como esses recursos circularam e onde terminaram.

A Polícia Federal mantém duas frentes relacionadas à produção. Em uma delas, autorizada pelo ministro André Mendonça, os investigadores apuram o financiamento de “Dark Horse”. Em outra, sob relatoria de Dino, a PF investiga a possibilidade de repasses de emendas parlamentares a empresas ligadas à produtora.

Agora, os dados obtidos em São Paulo poderão ser confrontados com informações já reunidas nos inquéritos federais.

Para o advogado criminalista Marcus Gusmão, esse cruzamento pode ajudar a reconstruir a dinâmica financeira do projeto. “A partir desses dados, será possível traçar melhor todos os possíveis envolvimentos, se há valores envolvidos, as origens desses valores e toda a dinâmica dos fatos para verificar a possível ocorrência de crimes”, afirma.

Exterior

O desafio aumenta quando parte desse caminho passa pelo exterior. Uma perícia sobre as contas da produção apontou que cerca de 70% dos recursos foram gastos nos Estados Unidos. Foram R$ 54 milhões de um orçamento de aproximadamente R$ 75 milhões.

Segundo Gusmão, hoje as autoridades dispõem de sistemas capazes de reconstruir a trilha do dinheiro, inclusive em situações de ocultação ou dissimulação. Quando os valores cruzam fronteiras, porém, entram em cena outras leis, acordos de cooperação e pedidos formais de informação.

“Os métodos e tecnologias investigatórias permitem o rastreamento de valores até mesmo fora do Brasil”, explica. Ele ressalta, no entanto, que a obtenção de dados em outro país pode depender de acordos internacionais e tornar a apuração mais demorada.

A investigação ainda deve receber um segundo pacote de documentos. Além do material encaminhado pela Polícia Civil, Karina Gama se comprometeu a entregar voluntariamente à PF, até esta sexta-feira (28), notas fiscais, contratos e a prestação de contas completa de “Dark Horse”. São ao menos 300 contratos apenas de profissionais que participaram das diferentes etapas da produção.

A entrega pode acrescentar uma nova camada à apuração. Flávio Bolsonaro afirma que a prestação de contas sobre “Dark Horse” já foi feita e trata o episódio como uma “página virada”. Ao comentar as cobranças sobre o financiamento do filme, o senador também disse que “quem tem que prestar conta é o Lula”.

Com documentos produzidos pela própria empresa de um lado e dados obtidos pela investigação paulista de outro, a PF poderá comparar versões, valores e movimentações. A próxima etapa é justamente refazer o caminho do dinheiro, da origem ao destino final, e identificar quem aparece nesse percurso.