Lula aciona TSE contra onda de posts sobre preço dos alimentos atribuída a perfis ligados ao PL
Campanha acusa rede de divulgação coordenada e inautêntica de vídeos e imagens. Conteúdos sobre supermercado viraram uma das principais frentes da disputa entre petistas e bolsonaristas
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para pedir investigação sobre uma suposta ação coordenada de perfis que vêm publicando críticas ao governo federal relacionadas ao preço dos alimentos. O levantamento apresentado pela equipe do petista aponta mais de 20 influenciadores com conteúdos semelhantes, incluindo roteiros, imagens e argumentos praticamente idênticos.
A suspeita levantada pela campanha é de disseminação coordenada de material inautêntico durante a campanha eleitoral. Segundo informações, alguns dos influenciadores citados afirmaram em suas próprias redes sociais ter recebido doações de empresários ou de canais ligados ao bolsonarismo depois da publicação dos vídeos.
A acusação, no entanto, ainda será submetida à análise da Justiça Eleitoral. Até o momento, a existência de conteúdos semelhantes não comprova, por si só, que todos os perfis tenham participado de uma operação ilegal ou que tenham sido remunerados para publicar as mensagens.
O episódio ocorre em meio a uma disputa cada vez mais intensa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL) nas redes sociais. O preço dos alimentos se tornou um dos principais temas utilizados pela oposição para atacar o governo, enquanto a campanha petista passou a responder com vídeos, preços de produtos e dados oficiais sobre inflação e cesta básica.
Preço dos alimentos virou arma eleitoral
A discussão sobre comida ganhou força nas redes sociais nas últimas semanas, com vídeos de consumidores e influenciadores mostrando preços de carnes, arroz, feijão e outros produtos nos supermercados. O discurso da oposição explora a percepção de perda de poder de compra e questiona promessas feitas por Lula durante a campanha de 2022.
O governo, por sua vez, passou a confrontar os vídeos com levantamentos sobre a evolução dos preços. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostram que a realidade é mais complexa do que uma comparação isolada de preços.
Em julho, o custo da cesta básica caiu em 26 das 27 capitais pesquisadas pelo Dieese em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No Rio de Janeiro, a redução mensal foi de 7,12%, e a cesta passou a custar R$ 855,37. São Paulo registrou o maior valor, de R$ 915,01.
Apesar da queda mensal, os preços não recuaram de forma generalizada na comparação anual. Entre julho de 2025 e julho de 2026, o custo da cesta aumentou em 22 capitais. No acumulado do ano, todas as 27 cidades registraram alta.
O levantamento também mostra que alguns alimentos tiveram forte aumento em 12 meses. O feijão carioca subiu 43,83%, enquanto o leite integral avançou 13,53% e a carne bovina de primeira teve alta de 12,67%. Ao mesmo tempo, tomate, arroz, café, açúcar, manteiga e óleo de soja ficaram mais baratos no período.
Os números ajudam a explicar por que o tema dos alimentos se tornou eleitoralmente sensível: embora alguns produtos estejam mais baratos e a cesta tenha recuado em julho, determinados itens continuam pressionando o orçamento das famílias.
Guerra de narrativas chega à Justiça Eleitoral
A ofensiva jurídica da campanha de Lula ocorre poucos dias depois de a equipe de Flávio Bolsonaro também recorrer à Justiça para denunciar uma suposta rede de perfis falsos que, segundo os aliados do senador, seria utilizada para disseminar ataques contra sua candidatura. O cenário indica uma escalada da judicialização das disputas nas redes sociais durante a eleição de 2026.
A preocupação do TSE com conteúdos coordenados aumentou neste ciclo eleitoral. As regras para 2026 estabelecem restrições ao uso de inteligência artificial, conteúdos manipulados e determinadas formas de impulsionamento político. A Corte também determinou mecanismos de transparência para conteúdos sintéticos e reforçou regras relacionadas à circulação de material eleitoral na internet.
A propaganda eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. Com isso, candidatos e partidos passaram a poder fazer campanha na internet dentro das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral. O TSE ressalta que manifestações espontâneas de eleitores e influenciadores são permitidas, mas existem restrições para conteúdos pagos, perfis falsos, uso abusivo de automação e outras formas de propaganda irregular.
A ofensiva também acontece em um momento de forte aumento da judicialização eleitoral. Levantamento publicado pela Folha apontou 202 representações protocoladas no TSE até 15 de agosto, mais que o dobro das 84 registradas em 2022. Mais de 80% das ações envolvem as pré-campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro.
O pedido da campanha petista deverá colocar sob análise da Justiça Eleitoral não apenas o conteúdo dos vídeos, mas também a origem das publicações, eventual coordenação entre os perfis, existência de pagamentos ou benefícios e possível participação de estruturas partidárias.
Enquanto a acusação não for analisada pelo TSE, os conteúdos devem ser tratados como alvo de investigação, e não como prova definitiva de uma operação ilegal. A disputa sobre o preço dos alimentos, entretanto, já se consolidou como uma das principais batalhas de comunicação entre Lula e Flávio Bolsonaro na eleição presidencial de 2026.