Lulinha e Dark Horse: como campanhas tratarão fragilidades de Lula e Flávio

Os dois casos concentram as ofensivas dos dois principais candidatos na disputa pela Presidência da República

Por Beatriz Matos

Caso Lulinha e Dark Horse são principais pontos frágeis das campanhas de Lula e Flávio

As investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, passaram a integrar a disputa política entre as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Iniciado o período oficial de campanha, às vésperas do começo da propaganda de rádio e TV, as equipes dos candidatos intensificaram os ataques. Mas, aparentemente, os impactos das duas maiores fragilidades de Lula e Flávio Bolsonaro, os dois principais nomes na disputa, não afetaram muito o humor do eleitor. A primeira pesquisa de intenção de voto após o início da campanha, divulgada pelo Datafolha na noite de sexta-feira, não registra mudança significativa.

Divulgado nesta sexta-feira (21), o levantamento mostra Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio com 33%. Em julho, eram 40% e 32%, respectivamente. Ou seja, as oscilações verificadas ficam dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais.

No segundo turno, Lula aparece com 47% e Flávio, com 43%, empate técnico no limite da margem de erro. Em julho, eram 48% e 43%. Novamente, oscilações dentro da margem de erro. O Datafolha ouviu 2.058 eleitores entre 18 e 20 de agosto.

Os números não permitem estabelecer relação direta entre os casos e o comportamento do eleitorado. Ainda assim, 27% dizem poder mudar o voto.

Possível desgaste

Para o cientista político Leandro Gabiati, professor do Ibmec Brasília, episódios envolvendo pessoas próximas podem produzir desgaste, especialmente entre eleitores menos identificados politicamente.

“O efeito costuma ser mais robusto entre eleitores de baixo envolvimento político e sem identificação partidária consolidada, exatamente o segmento indeciso”, afirma. “Pode haver desgaste de imagem, mas não necessariamente impacto traduzido em perda de votos”, acrescenta.

Lulinha

O caso surgiu de desdobramentos da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em benefícios do INSS. Lulinha é alvo de três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido da Polícia Federal (PF), sobre suspeitas de tráfico de influência e intermediação de interesses privados.

Para Leandro Gabiati, há diferença em relação ao momento vivido pelo adversário. “O caso Lulinha ganhou tração porque há, neste momento, vazamento contínuo de informações, além de um conflito institucional aberto que envolve a PF, a PGR (Procuradoria-Geral da República) e o ministro André Mendonça. Do outro lado, a operação que vincula Flávio Bolsonaro ao caso Master não revelou novos fatos ou vazamentos, diminuindo o impacto midiático.”

O cientista político Rodrigo Prando avalia que o eventual impacto depende também da reação das campanhas. Ele lembra que Lula afirmou acreditar no filho, mas defendeu que ele apresente explicações e disse que não interferirá na atuação da PF.

“A pesquisa a gente costuma dizer que é a fotografia do momento. É importante a gente acompanhar o filme, que é a sucessão das pesquisas”, afirma. Para ele, “a forma como responder e se esse escândalo vai escalar pode ser determinante em relação a entender se é algo pontual o desgaste ou algo duradouro que pode chegar até a eleição”.

Dark Horse

No campo de Flávio Bolsonaro, o ponto maior de pressão segue a Dark Horse. Trocas de mensagens reveladas nas investigações apontaram tratativas do senador com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master, para financiar a produção.

O senador Flávio Bolsonaro afirmou nesta semana que o episódio é “página virada” e sustenta que a prestação de contas já foi realizada. O candidato atribui essa prestação a uma perícia contratada pela produtora e anexada ao inquérito na Polícia Civil de São Paulo. O documento aponta despesas de R$ 75 milhões, mas não apresentou recibos ou notas fiscais. Flávio Bolsonaro pediu a Vorcaro R$ 134 milhões, dois quais foram efetivamente repassados R$ 61 milhões. Uma prestação de contas detalhada, cobrada publicamente desde maio, ainda não foi divulgada.

Em julho, André Mendonça autorizou inquérito da PF para apurar os repasses e eventual contrapartida.

Para o especialista em marketing político Leandro Coutinho, crises obrigam candidatos a responder a temas negativos quando buscam apresentar propostas.

“Dizemos, usualmente, que é um grande prejuízo quando o candidato tem que ficar se explicando quando deveria estar pedindo votos. O maior prejuízo ocorre quando existem desdobramentos mais próximo do dia da eleição, por isso as campanhas tentam se antecipar para criar vacinas que minimizem a repercussão: antecipar respostas claras e diretas, apontar para problemas do adversário e tentar virar a pauta.”

Leandro Coutinho acrescenta: “O prejuízo é grande para os dois candidatos, mas principalmente, para o debate em torno do projeto de nação para o futuro do país.”

Disputa chega ao Congresso

A disputa chegou ao Congresso. O senador Carlos Viana (PSD-MG) começou a recolher assinaturas para uma CPMI destinada a investigar a atuação de Lulinha. São necessárias 171 assinaturas de deputados e 27 de senadores.

Na Câmara, há apoios de PL, MDB, Novo, PP, União Brasil, PSD, Podemos e PSDB; no Senado, de PL, PSD, PP, PSDB e Republicanos. Flávio confirmou que assinou o requerimento. Também aderiram Rogério Marinho (PL-RN), coordenador político da campanha de Flávio, e Cleitinho (Republicanos-MG), candidato ao governo de Minas Gerais.

Carlos Viana também pediu à PF informações sobre a localização de Lulinha e sua disponibilidade para eventuais diligências. Viana ressalvou que a mudança do endereço comercial de uma empresa do filho de Lula para Madri não significa, por si só, tentativa de fuga.

Do lado governista, a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), encaminhou ofícios à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitando informações sobre investigações relacionadas ao financiamento do Dark Horse e aos repasses atribuídos a Vorcaro.

Com a campanha nas ruas, os dois casos passaram a ser usados como pressão política. O Datafolha não mostra, por enquanto, deslocamento significativo do eleitorado em relação à rodada anterior. Para os especialistas, a sequência das pesquisas e o surgimento ou não de novos fatos indicarão se os episódios terão capacidade de alterar a disputa até outubro.