Ex-comandante da FAB reafirma golpe em plena disputa pelo Planalto

Carlos Baptista Junior revela em livro bastidores para impedir a posse de Lula; lançamento em setembro pode reavivar o debate sobre o 8 de Janeiro em pleno período eleitoral

Por Beatriz Matos

Baptista Júnior ofereceu voo turbulento a Bolsonaro

Os bastidores da articulação para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que antecedeu os ataques de 8 de janeiro de 2023 e terminou anos depois com a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e aliados no Supremo Tribunal Federal (STF), vão ganhar um novo capítulo em plena campanha presidencial.

Ex-comandante da Aeronáutica no governo Bolsonaro e testemunha da acusação no processo da trama golpista, Carlos Baptista Junior lança em setembro “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista”, livro em que relata as pressões sofridas pela cúpula das Forças Armadas e as reuniões realizadas após a derrota do então presidente nas eleições de 2022.

A obra recupera o período entre 2021 e a posse de Lula, mas ganha peso político pelo momento. Quatro anos depois da eleição que desencadeou a crise e com Flávio Bolsonaro (PL) disputando a Presidência, episódios já investigados pela Polícia Federal (PF) e julgados pelo STF voltam ao debate público pela versão de um militar que estava no centro das reuniões.

Baptista Junior conta que, entre 3 de outubro e 14 de dezembro de 2022, os comandantes das três Forças foram chamados 12 vezes ao Ministério da Defesa para encontros relacionados ao cenário político e eleitoral. Depois da derrota de Bolsonaro, as discussões avançaram para possibilidades como Estado de Defesa, Estado de Sítio e Garantia da Lei e da Ordem.

Foi em uma dessas reuniões que ocorreu um dos episódios que depois se tornariam centrais na investigação. Segundo Baptista Junior declarou ao STF, o então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, reagiu à possibilidade de uma ruptura e advertiu Bolsonaro: “Se você tentar isso, eu vou ter que lhe prender”.

Dos quartéis para a campanha

Os relatos de Baptista Junior ajudaram a reconstruir o caminho percorrido entre as articulações posteriores à eleição e a tentativa de impedir a transferência de poder. O ex-comandante da FAB tornou-se testemunha no processo que terminou, em setembro de 2025, com a condenação de Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão. O então comandante da Marinha, Almir Garnier, apontado como o integrante da cúpula militar que colocou tropas à disposição, também foi condenado.

A ideia de transformar aqueles bastidores em livro surgiu depois de uma longa passagem de Baptista Junior pela Polícia Federal. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele contou que passou quase 12 horas prestando depoimento e que, ao final, ouviu de dois agentes que deveria registrar aquela história para as próximas gerações. Mais tarde, uma pesquisa eleitoral funcionou como novo estímulo. “Eu falei: eu tenho que fazer a minha parte”, relatou.

É justamente essa decisão de publicar agora que transporta uma história já conhecida dos autos para outro terreno. O livro chega quando Lula e Flávio Bolsonaro estão na disputa pelo Planalto e oferece material para que a campanha volte a discutir não apenas o 8 de Janeiro, mas o que aconteceu antes dele, quando integrantes do governo Bolsonaro buscavam alternativas para impedir a posse do presidente eleito.

Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, boa parte dos fatos já veio a público durante o julgamento no STF, mas a publicação pode devolver o tema ao eleitorado sob uma nova perspectiva.

“Então, a depender da forma como for explorado, pode ter sim algum impacto, reavivando a memória recente”, afirma. Segundo Rodrigo Prando, o PT pode recuperar na campanha o discurso de defesa da democracia utilizado em 2022 e recorrer aos relatos de alguém que ocupava uma das posições mais importantes das Forças Armadas naquele momento.

O alcance eleitoral, para ele, dependerá da maneira como esse passado será explorado. “Dependendo como a comunicação política for explorada, pode sim ter algum impacto e chegar a arranhar a candidatura de Flávio Bolsonaro.”