Ausência de Flávio e Lula em debate empobrece a democracia, dizem especialistas

Em uma disputa polarizada, onde os demais são coadjuvantes, os dois principais candidatos à Presidência avaliam não debater

Por Gabriela Gallo

Chance de um debate sem os personagens principais da disputa é grande

O primeiro debate entre os candidatos para a Presidência da República, realizado pela Band, está agendado para o dia 23 de agosto (domingo) às 20h. Contudo, como fora adiantado pela coluna Tales Faria do Correio da Manhã, até o momento a previsão é que os dois principais candidatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não compareçam.

Em entrevista ao UOL nesta segunda-feira (10), o diretor de jornalismo da emissora, Rodolfo Schneider, informou que a equipe de ambos os candidatos não confirmaram presença e que, por parte de Flávio, o senador está aguardando um posicionamento de Lula para decidir se vai ou não. Schneider reforçou que, mesmo sem os candidatos, o debate acontecerá.

Ao Correio da Manhã, o professor de direito eleitoral Alberto Rollo destacou que uma eventual ausência dos principais candidatos à Presidência empobrece o debate político. “A ida de todos os candidatos fortalece a informação e fortalece as opções para os eleitores. Ao contrário, se os dois principais candidatos de alguma maneira fogem do debate, ele fica empobrecido de informações, de opções para os eleitores”, avaliou Rollo.

“Covardia moral”

Em conversa com a imprensa durante um almoço com empresários em São Paulo nesta segunda-feira, o candidato à presidência e ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), classificou a possível ausência dos candidatos como “covardia moral”. “Ao não ter como explicar as denúncias que recaem sobre os dois, só resta a eles bater retirada de uma forma deprimente, uma forma covarde, onde deixa todos os seus apoiadores”, disse Caiado.

A reportagem também conversou com o professor de políticas públicas do Ibmec Brasília. Jackson De Toni avalia que a provável ausência dos candidatos vem de uma “lógica de minimização de danos e assimetria de riscos”, na intenção de “preservar o capital político para o confronto direto no segundo turno”, em que a tendência é de um cenário polarizado.

“Para candidatos consolidados na liderança (front-runners), o ganho marginal de votos nesses eventos é reduzido, enquanto a exposição a erros, gafes e ataques coordenados por parte de adversários com menor densidade eleitoral é desproporcionalmente alta. Além disso, o ambiente de múltiplos concorrentes tende a igualar simbolicamente os desafiantes ao nível dos favoritos e a fornecer farto material audiovisual para ser fatiado em microcortes agressivos nas redes sociais”, detalhou De Toni em conversa ao Correio.

Na mesma linha de raciocínio, a professora e cientista política do Ibmec-SP Deisy Cioccari reiterou que os debates são “um dos poucos momentos da campanha em que o candidato perde parte do controle sobre a própria narrativa”.

“Na propaganda eleitoral, nas redes sociais e nos vídeos produzidos pelas campanhas, quase tudo pode ser planejado. Já no debate, existe o contraditório. O candidato é confrontado, precisa reagir, responder ao adversário, lidar com perguntas incômodas e demonstrar, em tempo real, a tal da capacidade de argumentação”, detalhou.

“A democracia pressupõe uma disputa pública de argumentos, e não apenas uma disputa de imagens cuidadosamente construídas pelo marketing político. O debate rompe, ainda que parcialmente, essa mediação. É um dos momentos em que o eleitor pode observar o candidato para além da peça publicitária: como reage sob pressão, como sustenta suas propostas, como responde a críticas e como se comporta diante de quem pensa diferente”, completou Cioccari.