Batalha nos quatro estados gigantes decidirá a eleição deste ano
São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia reúnem 47% do eleitorado brasileiro, e Lula e Flávio Bolsonaro estão empatados em dois deles e muito próximos em São Paulo
Quase metade do eleitorado brasileiro está concentrada em apenas quatro estados. Um levantamento do Correio da Manhã, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, que juntos reúnem 47% dos eleitores do país, tiveram papel decisivo na eleição presidencial de 2022 e voltam ao centro da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) neste ano.
Os quatro estados somam 74,6 milhões dos 158,7 milhões de eleitores aptos a votar em 2026. São Paulo é o maior colégio eleitoral do país, com 34,1 milhões de eleitores. Em seguida, aparecem Minas Gerais, com 16,3 milhões, Rio de Janeiro, com 12,8 milhões, e Bahia, com 11,3 milhões.
Os dados mostram que o comportamento desses estados foi diferente na última eleição presidencial. Em 2022, Jair Bolsonaro venceu em São Paulo e no Rio de Janeiro, enquanto Lula terminou à frente em Minas Gerais e na Bahia. Agora, parece haver uma disputa mais acirrada, pelo menos neste momento, em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O cenário ajuda a explicar por que as campanhas concentram esforços justamente nesses colégios eleitorais.
Quatro anos depois, o adversário do petista é outro Bolsonaro. E as pesquisas estaduais indicam que Flávio conseguiu manter competitividade nos três grandes colégios do Sudeste, mas ainda encontra uma barreira muito maior na Bahia. É justamente essa combinação que transforma a disputa pelos quatro gigantes uma conta de ganhos, perdas e, sobretudo, margens.
O mapa de 2022
No primeiro turno de 2022, Jair Bolsonaro recebeu 12,2 milhões de votos em São Paulo, contra 10, 5 milhões de Lula. Uma vantagem de quase 1,75 milhão de votos para o então presidente. No Rio de Janeiro, o cenário foi semelhante: 4,8 milhões para Bolsonaro e 3,8 milhões para Lula, diferença de 984 mil.
Minas Gerais caminhou na direção oposta, mas com distância menor. Lula teve 5,8 milhões de votos no estado, enquanto Bolsonaro recebeu 5,2 milhões. O petista saiu à frente por 563,3 mil votos.
Foi na Bahia, porém, que a conta mudou de escala. Lula recebeu 5,8 milhões de votos no primeiro turno, contra 2 milhões de Bolsonaro. A diferença, de 3,8 milhões de votos, foi maior que as vantagens de Bolsonaro em São Paulo e no Rio somadas.
No segundo turno, a polarização aprofundou algumas dessas diferenças. Em São Paulo, Bolsonaro passou para 14,2 milhões e Lula chegou a 11,5 milhões. A vantagem bolsonarista aumentou para 2,7 milhões. No Rio, também cresceu: Bolsonaro teve 5,4 milhões e Lula, 4.1 milhões.
Minas mostrou outra dinâmica. Lula venceu novamente, mas por apenas 49,6 mil votos: 6,3 milhões contra 6,1 milhões. Foi praticamente uma divisão ao meio do eleitorado mineiro. Na Bahia, Lula manteve larga distância, com 6,1 milhões ante 2,3 milhões de Bolsonaro.
No resultado nacional daquele segundo turno, Lula acabou eleito com 60,3 milhões de votos, contra 58,3 milhões de Bolsonaro. A eleição inteira foi decidida por pouco mais de 2,1 milhões de votos, uma distância menor, por exemplo, do que a vantagem que Bolsonaro conseguiu sozinho em São Paulo.
É por isso que, numa disputa apertada, vencer um estado não conta toda a história. “O peso é extraordinário. São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia são os quatro maiores colégios eleitorais do Brasil e, juntos, concentram aproximadamente 47% de todo o eleitorado nacional. Isso significa que praticamente um em cada dois eleitores brasileiros está nesses quatro estados”, afirma o advogado eleitoral Luiz Gustavo Cunha.
Segundo ele, é preciso olhar também para o tamanho das diferenças. “Em uma eleição decidida por margem estreita, portanto, não basta observar quem vence determinado estado. É fundamental analisar por quanto vence ou perde.”
São Paulo
É em São Paulo que a comparação entre 2022 e o cenário atual chama mais atenção. Bolsonaro terminou o segundo turno há quatro anos com 55,24% dos votos válidos no estado, contra 44,76% de Lula. Agora, a vantagem que aparecia claramente naquele resultado não se reproduz com a mesma dimensão na disputa entre o petista e Flávio Bolsonaro.
A pesquisa Genial/Quaest de julho mostrou Flávio numericamente quatro pontos à frente de Lula no primeiro turno paulista: 34% para Flávio e 30% para Lula, uma diferença que ainda configura empate técnico considerando a margem de erro de dois pontos. Em uma simulação de segundo turno, a distância chegava a cinco pontos.
Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a situação do senador no estado não pode ser lida simplesmente como uma reprodução do desempenho do pai. O quadro atual, segundo ele, aponta para uma eleição bastante competitiva.
“Se Lula não ganhar em São Paulo ou no Rio, ou em Minas Gerais, está ok, mas ele não pode perder de muito, porque são colégios eleitorais muito importantes”, avalia.
O tamanho de São Paulo dá dimensão a essa necessidade. Com mais de 34 milhões de eleitores, uma mudança de poucos pontos entre os candidatos pode representar centenas de milhares de votos na conta nacional.
Minas, voto a voto
Se São Paulo importa pelo volume, Minas Gerais volta a se apresentar como o território do equilíbrio. Em 2022, apenas 49.6 mil votos separaram Lula e Bolsonaro no segundo turno entre mais de 12 milhões de votos válidos.
Em 2026, essa característica permanece. Na pesquisa estadual da Genial/Quaest, Lula tinha 30% e Flávio, 29% no primeiro turno.
Para o advogado eleitoral Luiz Gustavo Cunha, Minas apresentou nas últimas eleições, forte correspondência com o resultado nacional, mas pondera que isso não deve ser tratado como uma regra capaz de prever o vencedor. Para ele, a característica ajuda a revelar a diversidade do eleitorado mineiro e torna um cenário equilibrado no estado um sinal relevante da competitividade nacional.
Para o estrategista político Adriano Canutto, esse equilíbrio exige uma campanha muito mais localizada. “Em Minas, o eleitor é pragmático e desconfiado de radicalismo — pede o famoso ‘jeito mineiro’: proximidade sem confronto.”
Rio testa força
No Rio de Janeiro, a disputa envolve também um componente simbólico. Jair Bolsonaro venceu o estado em 2022 por mais de 1,2 milhão de votos no segundo turno. Flávio construiu ali toda a sua trajetória eleitoral e, por isso, chega à corrida presidencial com um vínculo político que não existe nos demais grandes estados.
Mesmo assim, a vantagem hoje é bem menor do que a obtida pelo pai quatro anos atrás. A Genial/Quaest mostrou Flávio numericamente à frente de Lula nos cenários de primeiro e segundo turnos, mas com diferenças dentro da margem de erro. No primeiro turno, 32% a 30%.
“O reduto eleitoral do bolsonarismo, que é o Rio de Janeiro, tem hoje no Flávio Bolsonaro um candidato menos competitivo do que foi o Jair Bolsonaro”, analisa o professor Rodrigo Prando.
A comparação dá ao estado uma importância dupla para a campanha do senador: além de tentar preservar um território historicamente favorável à família Bolsonaro, Flávio precisa impedir que Lula reduza uma diferença que, em 2022, ajudou a compensar vantagens petistas em outras regiões.
Bahia, reserva de Lula
Na Bahia, a lógica é outra. O estado permanece como o mais confortável dos quatro para o presidente.
Na pesquisa Genial/Quaest divulgada no fim de julho, Lula aparecia com 52% no primeiro turno, contra 18% de Flávio. Em uma simulação de segundo turno, eram 56% para o presidente e 23% para o senador.
Para Luiz Gustavo Cunha, a missão das duas campanhas é diferente. Lula precisa preservar a larga vantagem, enquanto Flávio não necessariamente precisa vencer o estado para obter algum ganho estratégico. “Para Flávio Bolsonaro, reduzir essa diferença, mesmo sem necessariamente vencer o estado, pode ter relevância estratégica, porque cada ponto percentual retirado de uma vantagem muito ampla representa um número significativo de votos.”
Adriano Canutto resume a estratégia baiana em uma lógica de contenção. “Para Lula, a Bahia é praça conquistada que não pode virar praça de risco: a estratégia é de contenção ativa.”