"Não quero Lulinha paz e amor. Eu quero o Lulinha porreta!"

Convenção do PT aprova Lula como candidato à reeleição, que afirma que vai investir em defesa num eventual próximo mandato

Por Rudolfo Lago -BSB

Convenção do PT homologou a chapa Lula e Alckmin, que tentará a reeleição

Apresentado pelo presidente do PT, Edinho Silva, como o "anti-Trump", numa referência ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao crescimento da direita no mundo, no Brasi representada pelo candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e por sua família, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou-se na convenção nacional do seu partido com uma postura mais agressiva e de defesa dos interesses nacionais.

"Não quero Lulinha Paz e Amor", declarou Lula à plateia que ouvia na manhã deste domingo (2), no Expo Center Norte, em São Paulo, o seu discurso. "Eu quero o Lulinha porreta!", completou. Na declaração que fez após ser aprovado na convenção nacional do PT candidato à reeleição, tendo como candidato a vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, Lula apresentou uma plataforma para seu eventual quarto mandato como presidente voltada à defesa nacional, aos direitos das mulheres e à educação, principalmente.

Foi a primeira vez que se ouviu um candidato à Presidência de esquerda defender a necessidade de maior investimento militar. Uma resposta direta à sensação de Lula de que há uma tentativa externa de interferência no país. Isso acontece pelas ações de Trump, pelo tarifaço e outros exemplos, ou mesmo pela presença direta do presidente da Argentina, Javier Milei, na convenção do PL que oficializu a candidatura de Flávio Bolsonaro na semana passada.

Defesa

"Chega a esquerda de dizer que não se deve investir nas Forças Armadas", disse Lula. "Nós precisamos investir na defesa. Eu quero estar preparado para que ninguém invada este pais. Quero estar preparado para a paz. Para ninguém ousar se fazer de besta conosco", discursou.

Lula, então, pareceu querer exorcisar os temores de novo golpe e outra ditadura no país. "Muita gente tem medo da ditadura militar. Mas o tempo passa. A gente evolui". E deu exemplos do que pretenderia fazer em termos de investimento militar. "Como um pais do tamanho do país não tem uma fábrica de drone?", questionou. E apontou como centro da ameaça ao país o interesse nas chamadas "terras raras", as áreas que possuem minerais estratégicos. "Vou levar a sério esse negócio de terra rara. Muita gente metendo o dedo na nossa terra. Isso vai parar".

Mulheres

Lula, então, focou também em boa parte do seu discurso uma política de defesa de combate à violência contra a mulher, provável resposta às declarações do jornalista e blogueiro Paulo Figueiredo, aliado de Flávio Bolsonaro, de que "mulher vota muito mal" e exploração do episódio da briga de Flávio com sua madrasta, Michelle. Ao iniciar seu discurso, acabou admoestando Edinho Silva e os organizadores da convenção por não terem reservado nenhum discurso para mulheres. E passou, então, a palavra à sua esposa, Janja da Silva.

"É difícil porque a gente precisa todo dia estar se reafirmando, né, mulherada?", disse Janja. Que, então, defendeu o Pacto Nacional contra o Feminicídio, bandeira que leva junto ao governo. "Muito importante porque você é o único líder mundial que fala disso", disse, dirigindo-se a Lula.

"Se bater na mulher, não precisa votar em mim", provocou Lula. "Eu quero criar uma sociedade de respeito. Não existe contrato que permita ser dono. É parceiro. É companheiro. Desde que fizemos um pacto contra o feminicídio, já fizemos mais leis do que em um século. Se tiver raiva da mulher tem que lembrar que veio da barriga de uma mulher".

O candidato à reeleição falou ainda em educação, comparando a sua necessidade com a de candidatos que focam mais em segurança pública. "Um preso de segurança máxima custa R$ 40 mil. Um estudante de Engenharia Espacial custa R$ 20 mil. É mais barato investir em educação que em segurança", afirmou.

"Um milagre"

Vestido com uma camisa branca para fora da calça preta e chapéu panamá, Lula apontou para a roupa de Janja, que vestia um blazer branco e uma camiseta com o rosto de Lula quando era criança, aos cinco anos. "Sou resultado de um milagre", declarou o candidato. "Essa foto é um milagre, porque eu quase morri de fome", disse. Depois, Lula classificou como outro milagre a sua entrada na política.

"Em junho de 78, achava o máximo dizer que não gostava de política", seguiu, lembrando de quando comandava as greves do ABC, como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. "Dois meses depois, estava apoiando o Fernando Henrique Cardoso para o Senado. Tudo que eu era, não era para estar aqui mesmo. Se eu estou aqui é primeiro por Deus e depois por vocês", concluiu, dirigindo-se à plateia.

O jingle escolhido para a campanha, exibido na convenção, parece querer reforçar toda essa trajetória contada por Lula em seu discurso. É uma adaptação do "Rap do Silva", do MCRun. A letra original da canção diz: "Era só mais um Silva que a estrela não brilha, ele era funkeiro, mas era pai de família". A versão que será utilizada na campanha diz: "Era só mais um Silva, com a estrela que brilha, ele é brasileiro, trabalhador e família". Um outro jingle, "Tapete Vermelho", busca reforçar a forma como o PT afirma que Lula é recebido por líderes políticos de outros países.

A referência à trajetória de Lula está ainda relacionada ao local onde acontecerá o primeiro comício da campanha, no dia 16 de agosto. Será o Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Era nesse estádio que aconteciam os comícios de Lula durante as greves do ABC, origem da criação do Partido dos Trabalhadores.

Lula ainda voltou a fazer suas metáforas usando o futebol. Lembrou que Pelé jogou quatro Copas do Mundo, tendo sido campeão em três deles. Então, lembrou, dos números agora obtidos por Lionel Messi, da Argentina, e Cristiano Ronaldo, de Portugal, que jogaram seis Copas. "O que eles não sabem é que eu já participei de sete Copas", disse, referindo-se a todas as vezes em que foi candidato à Presidência.

Lula com Chuchu

Oficializado na convenção do PT como o candidato a vice-presidente, Geraldo Alckmin centrou seus discurso em números da economia e fez o ataque mais direto ao principal adversário de ambos na disputa presidencial. Numa recente conversa com embaixadores, Flávio Bolsonaro imitou o que fizera seu pai, Jair Bolsonaro, na Presidência ao lançar suspeitas sobre o sistema eletrônico brasileiro de votação. "A desconfiança com as urnas é cheiro de derrota", provocou Alckmin. "A urna brasileira é tão competente, que não aceita voto de argentino nem de americano". E adotou o que antes fora lançado contra ele quando era adversário de Lula e do PT, o apelido "Picolé de Chuchu", para designar alguém que seria insosso. "É Lula com Chuchu! Vamos, presidente!"

Alckmin vestia um figurino semelhante ao de Lula, mas ao seu estilo. Se o candidato à reeleição vestia uma camisa branca para fora das calças, ele também trajava uma camisa branca mas dentro da calça igualmente preta. Ao som de "Charriots of Fire", a música de Vangelis que é trilha sonora do filme "Carruagens de Fogo", eles entraram no palco da convenção. Lula ao lado de Janja; Alckmin ao lado de sua esposa, Lu, com um vestido vermelho, e, com eles, Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo, também acompanhado de sua esposa Ana Estela. Haddad usava um paletó azul e Ana Estela calça e camisa brancas.

Entrevistas

O evento político, que foi apresentado pelo ator Aílton Graça, aconteceu depois da convenção propriamente dita. Enquanto a convenção acontecia, o secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, e sua secretária adjunta, Camila Moreno, conduziam entrevistas pelo canal do partido no YouTube, com personalidades políticas ligadas ao PT e aos partidos da coligação (que tem a federação PT/PV/PCdoB, o PSB, o PDT e a Rede). Nessas entrevistas, falaram outras personalidades que não discursaram, como as candidatas da chapa ao Senado em São Paulo, Simone Tebet e Marina Silva.

"É uma eleição difícil, e nós teremos que saber jogar esse jogo", disse Simone Tebet. "Eles virão com fake News e nós vamos responder com a verdade. Vamos dormir com o olho aberto".

"O presidente Lula representa a causa do combate à desigualdade, do respeito à democracia. Fico muito orgulhosa de ter sido por três vezes com Lula ministra do Meio Ambiente e poder dizer que no final deste ano teremos a menor taxa de desmatamento da história da Amazônia", disse Marina Silva.