Flávio ainda administra crises após convenção do PL
Resposta à PF, indefinição do vice e resistência entre mulheres mantêm pressão sobre candidatura
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresentou nesta terça-feira (28) esclarecimentos por escrito à Polícia Federal (PF) no inquérito que apura possível calúnia contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O depoimento estava marcado para as 14h, mas a defesa pediu que a manifestação substituísse a oitiva. Diante da ausência, o ministro Alexandre de Moraes determinou o retorno do caso à Procuradoria-Geral da República, que terá 15 dias para se manifestar.
A investigação foi aberta por causa de uma publicação feita em 3 de janeiro. Flávio compartilhou notícias sobre Nicolás Maduro e uma reunião convocada pelo governo brasileiro e escreveu as frases “Lula será delatado” e “É o fim do Foro de São Paulo”, seguida de referências a crimes.
A defesa sustenta que as frases são independentes. A primeira seria apenas uma previsão de que Lula poderia ser mencionado em uma colaboração, sem atribuição de crime. A segunda se referiria a Maduro e repetiria acusações feitas contra ele nos Estados Unidos (EUA).
O episódio ocorre poucos dias depois da convenção nacional do PL, que oficializou Flávio como candidato à Presidência. O evento reduziu uma das crises mais visíveis da campanha, após a reaproximação pública com Michelle Bolsonaro. A bandeira branca, porém, resolveu apenas parte do problema. O senador ainda precisa lidar com frentes jurídicas, com a resistência entre as mulheres e com a definição de um nome para a vice até o início de agosto.
Fios soltos
Na avaliação do cientista político Isaac de Luna Ribeiro, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), Flávio ainda administra uma disputa dentro do próprio campo bolsonarista. Para ele, o senador precisa organizar a base mais fiel antes de ampliar a campanha para eleitores de centro, centro-direita e independentes.
“Flávio precisa continuar administrando crises e os fios soltos que ligam a campanha dele internamente ao voto bolsonarista”, afirma. Segundo o especialista, o principal atributo do senador ainda é ser filho de Jair Bolsonaro e se apresentar como destinatário natural dos votos do pai. A reaproximação com Michelle ajuda, mas não encerra a disputa nem garante, sozinha, o engajamento da estrutura construída pela ex-primeira-dama no PL Mulher.
Voto feminino
A dificuldade aparece nos números do Datafolha. Em um eventual segundo turno, Lula tem 50% das intenções de voto entre as mulheres, contra 40% de Flávio. Entre os homens, há empate técnico, com 46% para o senador e 45% para o presidente.
A rejeição também é maior entre as eleitoras. Metade das mulheres ouvidas afirma que não votaria em Flávio “de jeito nenhum”, enquanto a rejeição a Lula nesse grupo é de 44%.
O especialista relaciona essa resistência à identidade política construída pelo bolsonarismo, mais associada a pautas tradicionalistas e moralistas. “Esse discurso acaba sendo um fator social e político muito relevante para explicar a resistência das mulheres em votar no Flávio Bolsonaro”, diz.
Escolha do vice
A campanha também precisa definir quem ocupará a vaga de vice. Entre os nomes citados nos bastidores estão o senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), a deputada federal Priscila Costa (PL-CE) e a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques.
Priscila é vista como um nome capaz de dialogar com o eleitorado evangélico e feminino. Daniella ocupou lugar de destaque no palco da convenção e discursou durante o evento. E o senador Marcos Pontes afirmou estar à disposição.
Para o cientista político, a indefinição ainda não altera de forma significativa a percepção da maioria dos eleitores. O impacto maior virá do perfil escolhido. “A depender de quem seja escolhido, isso poderá ter um impacto fundamental na abrangência da campanha”, avalia.
Frente jurídica
O inquérito sobre a postagem não é a única frente aberta. A defesa de Flávio também se manifestou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a retirada do vídeo produzido com inteligência artificial e exibido durante a convenção do PL.
O conteúdo recriou a imagem e a voz de Jair Bolsonaro para apresentar Flávio como seu sucessor político. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, acionou o TSE e alegou propaganda antecipada irregular e uso indevido de inteligência artificial.
Na peça, a defesa afirma que o vídeo avisava sobre o uso da tecnologia, não continha pedido explícito de voto e foi exibido em ambiente partidário. Também sustenta que o material não poderia ser classificado como deep fake porque informava, desde o início, que se tratava de uma simulação.
Isaac de Luna explica que as investigações têm potencial maior de desgaste do que a demora para definir o vice ou a dificuldade de montar alianças. Ele avalia que o eleitor bolsonarista mais fiel tende a permanecer com Flávio, mas esse grupo, sozinho, não basta para vencer.
Apesar das pressões, o especialista considera que a candidatura continua competitiva. O desafio será evitar que novas investigações afastem justamente os eleitores que Flávio ainda precisa conquistar fora do núcleo mais fiel do bolsonarismo.