Às vésperas da convenção, Flávio ainda não convenceu o Centrão
Partido mantém negociações com PP, Republicanos, Podemos e PSDB para ampliar a coligação
A poucos dias da convenção nacional do PL, marcada para sábado (25), o senador Flávio Bolsonaro ainda enfrenta dificuldades para ampliar sua coligação na disputa pelo Palácio do Planalto.
Enquanto adversários já definiram alianças e, em alguns casos, até o candidato a vice, o partido segue negociando com legendas do Centrão para evitar uma candidatura isolada, cenário que pode reduzir tempo de propaganda eleitoral, capilaridade nos estados e até a percepção de viabilidade da campanha.
A busca por um vice é hoje um dos principais entraves. Nos bastidores, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, defende que a chapa seja composta por uma mulher, mas as conversas ainda não produziram um consenso.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS), um dos nomes cogitados, informou a Valdemar que sua prioridade é disputar a presidência do Senado em 2027. Ao Correio da Manhã, o dirigente negou que tenha formalizado um convite para que ela integrasse a chapa, mas confirmou que as negociações seguem abertas. Quem o Flávio escolher será nossa candidata", afirmou Valdemar.
Apesar das dificuldades, o PL mantém expectativa de fechar uma aliança com o PP. Flávio Bolsonaro chegou a cogitar outro nome, a deputada federal Simone Marquetto (PP-SP). A composição, no entanto, depende do aval do presidente nacional do Progressistas, senador Ciro Nogueira (PI), responsável por conduzir as negociações da legenda.
Paralelamente, as conversas do partido seguem com Republicanos, Podemos e PSDB, especialmente em Minas Gerais, na tentativa de ampliar a coligação antes do encerramento do prazo legal.
Na leitura de Valdemar, a demora decorre do fato de Flávio Bolsonaro ter sido escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro sem ter construído previamente uma candidatura presidencial. A expectativa é que novas reuniões entre dirigentes do PL e o senador ocorram nos próximos dias para tentar destravar as negociações.
Além da TV
Para o especialista em marketing político Leandro Coutinho, uma aliança vai muito além da divisão do tempo de televisão. "Uma coligação forte tem múltiplos benefícios para a chapa majoritária. Além do tempo de TV e dos recursos do fundo eleitoral, agrega um nome que possa dialogar com uma parcela diferente do eleitorado" e amplia a estrutura política disponível para a campanha.
A cautela também tem sido alimentada pelo cenário político. Leandro Coutinho avalia que as investigações envolvendo o caso Master atingiram tanto Flávio quanto lideranças do Centrão, o que levou os partidos a "uma espécie de pausa para hidratação para avaliar riscos e oportunidades".
Segundo ele, outra dificuldade está nas negociações estaduais. "Para fazer composições, Flávio precisa aceitar coligações regionais indesejadas. Se ele se abrir para essa possibilidade, pode ser que consiga trazer algum partido do Centrão."
Efeito simbólico
Na avaliação do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), o impacto de uma candidatura isolada vai além da propaganda eleitoral. "Sem uma coalizão ampla, o candidato corre o risco de disputar a eleição com poucos palanques estaduais robustos."
Para ele, há ainda um efeito simbólico, já que parte do eleitorado pode interpretar o isolamento como dificuldade de construir maiorias. O especialista Murilo Medeiros destaca que PP, União Brasil, Republicanos e MDB preferem manter margem de negociação até observar o avanço das pesquisas e lembra que as tratativas podem continuar mesmo após a convenção. "Até o encerramento do prazo legal para o registro das candidaturas e formalização das coligações majoritárias, que é dia 15 de agosto, ainda existe espaço para ajustes e acordos."
Enquanto isso, outros presidenciáveis já avançaram. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repetirá a chapa com Geraldo Alckmin (PSB) e garantiu na segunda-feira (20) o apoio do PDT. Ronaldo Caiado (PSD) disputará a eleição ao lado de Gilberto Kassab, mas também não tem outros partidos aliados na coligação. Renan Santos terá como vice o militar da reserva Aroldo Medina. Romeu Zema (Novo) segue sem definição, após Michelle Bolsonaro descartar publicamente a possibilidade de integrar sua chapa.
As dificuldades do PL não se limitam à montagem da chapa. Enquanto Flávio busca ampliar sua base de apoio, a Polícia Federal decidiu demitir o ex-deputado Eduardo Bolsonaro do cargo de escrivão por abandono de função após a cassação do mandato. A medida, que ainda depende de formalização pelo Ministério da Justiça, ocorre em meio à confirmação de que Eduardo e sua família receberam o Green Card para residir permanentemente nos Estados Unidos, onde vivem desde fevereiro de 2025.