"Não há mulher que dê conta de reduzir o machismo de Flávio Bolsonaro"

Em entrevista exclusiva, a ex-ministra do Planejamento e candidata ao Senado por São Paulo fala sobre eleições e tarifaço e diz: a sobretaxação dos EUA vai prejudicar Tarcísio de Freitas

Por Tales Faria e Rudolfo Lago

Simone Tebet: "Intenção do tarifaço é política e eleitoral"

Como ministra do Planejamento, Simone Tebet participou das negociações que fizeram o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recuar do primeiro tarifaço. Na sua avaliação, ficou evidente como o governo negociou intensamente e mesmo conseguiu reverter a primeira ameaça. Assim, Simone Tebet tem convicção: as razões agora do segundo tarifaço não são econômicas e nenhum decorrem de reação de fato a qualquer ação do governo brasileiros para prejudicar os Estados Unidos. “As razões são totalmente políticas e eleitorais”, considera Tebet.

Ela vai além. Candidata ao Senado por São Paulo pelo PSB, Simone Tebet considera que foi a interferência de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, e de seu irmão, Eduaro, que levaram o governo norte-americano a recuar da negociação que havia para impor nova sobretaxação. Esse recuo, avalia ela, veio exatamente depois da visita de Flávio à Casa Branca em maio.

Leia abaixo a entrevista de Simone Tebet:

A senhora foi ministra do Planejamento. Como ex-ministra, qual sua visão sobre o tarifaço de Donald Trump?
Eu estava ministra quando começou. O presidente Trump resolveu achar que a saída para diminuir o déficit público dos Estados Unidos seria tarifar o mundo. Sem se preocupar com o impacto social, econômico, inflacionário mundial que isso teria. Desde então, e não foram pouco foram poucas as vezes em que eu fui chamada, o governo do presidente Lula sistematicamente acordava e dormia com esse problema. Estamos há um ano negociando e as coisas estavam caminhando bem. Tanto é que a imprensa noticiou a tal da química entre Trump e Lula na última conversa entre eles. Nós não podíamos imaginar, porém, que aqueles que se dizem patriotas resolveriam se utilizar de uma preocupação de espaço de poder, porque fazem oposição, para vender o país. Resolveram entregar o país. E isso é muito grave. É crime de lesa-pátria.

A senhora, então, responsabiliza os Bolsonaros e seu grupo pelo que está acontecendo?
Eu não tenho dúvida, primeiro da interferência nefasta e desastrosa da família Bolsonaro nesse processo de taxação, de tarifaço. Segund, que houve uma reversão imediata do curso das negociações logo após a ida do então hoje senador e pré-candidato à presidência da República aos Estados Unidos. E se não bastasse isso, ele tem um espaço que poucas pessoas têm de representar talvez até o Senado Federal ou o Congresso nos cinco minutos que teve na audiência na Câmara Técnica de Comércios nos Estados Unidos e, em vez de fazer uma defesa do Brasil, faz uma crítica ao governo e ao país, né, misturando a o processo eleitoral com a questão institucional;

Como a senhora avalia as declarações do secretario de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de que o ego de Lula é interrompeu as negociações?
Não precisa muito. É só verificar de um ano para cá quantas vezes o Ministério das Relações Exteriores, o vice-presidente Geraldo Alckmin, enquanto ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil e o próprio presidente Lula negociaram e conversaram sobre o assunto. O Brasil só tem um senhor que é o povo brasileiro representado democraticamente por um presidente eleito que, gostando ou não. se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Quando se tem como interlocutor não o Ministério das Relações Exteriores, não o presidente da República, mas pessoas que estão apeadas do poder e querem ascender a ele, não tem como dar bom. Porque é lógico que essas pessoas vão levar inverdades, vão levar conteúdos contaminados, vão levar mentiras, fake News. E será baseado nessas mentiras a partir de uma ideologia que é a mesma da deles que as decisões serão tomadas. Decisões equivocadas, porque não vai causar inflação no Brasil, vai causar inflação nos Estados Unidos. Essa gente não deu um tiro no pé, deu um tiro no coração do povo brasileiro. Então, eu pergunto: cadê os demais políticos de centro ou de direita democrática? Vão ficar de que lado?

De quais políticos a senhora está se referindo?
Aqueles que botaram o boné americano. Posaram com aquele boné do Maga [Make America Great Again]. Eles vão pedir desculpas para o povo brasileiro e falar assim: ‘Olha, a minha bandeira é verde e amarela’.

Nominando, a senhora fala do governador Tarcísio de Freitas...
Entre outros, Tarcísio, né?

A senhora acha que a Lei da Reciprocidade será usada?
Eu estou fora do governo. Mas entendo que deva ser usada de forma escalonada. Verificar quais são as empresas brasileiras que estão sendo prejudicadas e verificar o uso da reciprocidade; Então, por exemplo, o setor de móveis que vai ser muito prejudicado, de calçado.

Ministra, passando agora um pouco aqui para o cenário eleitoral de São Paulo. A última pesquisa Datafolha apontou a chance de Tarcísio de Freitas vencer no primeiro turno. Em contrapartida, a senhora e Marina Silva lideram para o Senado. Qual sua leitura do quadro eleitoral paulista?
Primeiro, claro, se você só tem dois candidatos, a decisão é no primeiro turno. Não sabemos se teremos mais candidatos ou não. Mas pesquisa é uma fotografia. Eu quero crer que o desgaste de denúncias, de falhas no governo, mudará essa situação. O eleitor vai ver o que é verdade e o que é mentira e tirar suas conclusões. Nós temos uma chapa que é um Drean Team. A única que tem mulheres na eleição majoritária. Não uma, mas duas. Em que todos foram ministros. Um ex-governador [Márcio França, candidato a vice], três candidatos á Presidência da República, três ex-prefeitos na figura de quatro personagens.

É ponto pacífico que o tarifaço atrapalha os bolsonaristas. Mas atrapalha o governador Tarcísio de Freitas?
Atrapalha muito. Mas muito. Ele louvou a eleição do Trump e do conservadorismo e tudo mais. Ele colocou o chapéu do Maga. E não veio a público dizer em nenhum momento defender os interesses do Brasil e do Estado de São Paulo contra o tarifaço. O tarifaço prejudica em primeiro lugar São Paulo e depois Santa Catarina. O setor produtivo que costuma ser mais conservador e eleitor dele é o mais prejudicado. Deve estar se sentindo órfão, deve estar se sentindo abandonado, desprestigiado por um governador que não está interessado em governar São Paulo e muito menos nos interesses do Brasil.

Nós teremos esta semana as primeiras convenções partidárias, inclusive a do PL no fim de semana. E o senador Flávio Bolsonaro busca uma mulher para ser vice depois de toda aquela confusão com Michelle Bolsonaro. Flávio tem na sua avaliação alguma condição de conquistar o eleitorado feminino?
Não há mulher por mais heroica, guerreira que seja que dê conta do Flávio Bolsonaro. De tirar do Flávio essa pecha de alguém que não tem a capacidade de defender as mulheres brasileiras. Ele não podia deixar seu amigo Paulo Figueiredo falando sozinho por 48 horas, 72 horas, que mulher não sabe votar para depois dar uma desculpa esfarrapada. É terrível esse discurso de ódio deles contra todo mundo que pensa diferente. Um discurso de ódio que como a principal e maior vítima as mulheres. Mas também as minorias, os negros, a comunidade LGBT.