Recuperação de Lula e desgastes de Flávio mudam cenário da disputa
Quaest revela recuperação da aprovação do governo, enquanto analistas apontam obstáculos para o senador ampliar apoio além do núcleo bolsonarista
Depois de meses em que pesquisas mostravam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reduzindo a diferença para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e chegando a empatar em alguns cenários, a nova pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta terça-feira (15) aponta uma retomada da vantagem do petista tanto na avaliação do governo quanto nas intenções de voto.
Pela primeira vez desde o início da série, Lula aparece numericamente com aprovação superior à desaprovação. O levantamento mostra 48% de aprovação contra 47% de desaprovação, diferença dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Na avaliação do governo, os índices positivo e negativo também empataram em 36%, enquanto 26% classificam a gestão como regular.
Na disputa presidencial, a mudança também aparece. No primeiro turno, Lula alcança 40% das intenções de voto, contra 28% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, Lula venceria por 45% a 37%, abrindo oito pontos de vantagem sobre o senador, depois de um período em que Flávio chegou a reduzir a diferença para apenas um ponto.
Embora Lula e Flávio concentrem a disputa, a pesquisa mostra que outros pré-candidatos seguem ocupando espaço, ainda que distante dos líderes. No primeiro turno, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) aparece com 4% das intenções de voto, seguido pelo ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) com 2%, e por Renan Santos (Missão), com 3%. Os demais nomes somam 3%, enquanto 11% se declaram indecisos e 8% afirmam que pretendem votar em branco, nulo ou não comparecer. O cenário reforça que parte do eleitorado conservador continua distribuído entre diferentes candidaturas, sem migrar integralmente para Flávio Bolsonaro.
Para o cientista político Elton Gomes, esse movimento evidencia que ainda existe um segmento da direita que busca uma alternativa fora do bolsonarismo. "Existe o espectro de eleitores (...) que tende a buscar uma alternativa de oposição que não necessariamente esteja identificada com o bolsonarismo", afirma.
O cientista político também pondera que o levantamento representa apenas "uma fotografia de momento" e lembra que o cenário ainda pode mudar até a campanha. Mesmo assim, avalia que os números indicam uma consolidação da polarização. "Os dois principais candidatos são muito rejeitados", afirma. Segundo ele, justamente por causa dessa rejeição elevada, parte do eleitorado procura alternativas na direita que não estejam diretamente vinculadas ao bolsonarismo, favorecendo nomes como Ronaldo Caiado (PSD-GO) e Romeu Zema (Novo-MG).
Desgaste
A dificuldade para ampliar o eleitorado fora do núcleo bolsonarista também aparece nas análises dos especialistas. Para o professor de Políticas Públicas do Ibmec Brasília, Jackson De Toni, a pré-campanha de Flávio vem sendo prejudicada por problemas internos. "O principal erro de campanha evidenciado até o momento é a incapacidade de blindar a estratégia política contra o 'fogo amigo' e a desorganização interna", afirma.
Para Jackson De Toni, a dificuldade de Flávio em ampliar sua força para além do eleitorado bolsonarista e o recuo entre a direita não bolsonarista "podem ser explicados pela fricção exposta em praça pública". Segundo ele, a própria pesquisa mede o impacto dos vídeos em que Michelle Bolsonaro critica publicamente o senador e as alianças que ele tenta construir, episódio que o levou a divulgar um vídeo de desculpas. "Esse episódio transmite a imagem de uma campanha instável, fraturada e refém de uma ala purista que sabota ativamente a construção de palanques mais amplos".
Sicário
Além desse desgaste, um novo fato entrou no radar da pré-campanha. O portal ICL Notícias divulgou uma fotografia em que Flávio aparece ao lado de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como "Sicário", apontado pela Polícia Federal como integrante do grupo ligado ao empresário Daniel Vorcaro. Segundo as investigações, ele seria responsável por cumprir ordens do empresário e integrar o núcleo encarregado de monitorar jornalistas. Mourão foi preso durante a Operação Cúmplice Zero.
Em nota, a assessoria do senador afirmou que Flávio "não conhece e nunca viu a pessoa na foto" e alegou que, por ser uma figura pública, registra imagens diariamente com dezenas de pessoas. A defesa também declarou que "não se sabe qual a procedência da foto, nem se a imagem é real ou produzida por Inteligência Artificial".
Apesar da melhora de Lula, o especialista Elton Gomes faz um alerta para não transformar a pesquisa em tendência definitiva. Segundo ele, "a pesquisa não permite concluir nada substancialmente a esse respeito ainda, apenas um movimento específico da construção atual".
Ainda assim, avalia que o governo entra na disputa em posição mais confortável. "O governo tem a dianteira, tem as vantagens naturais que o incumbente sempre tem", afirma. Para o cientista político, a campanha tende a ser marcada menos pela apresentação de propostas e mais pela disputa em torno da rejeição dos dois principais candidatos, enquanto Flávio buscará manter unido o campo conservador para chegar fortalecido ao segundo turno.