Sem Michelle, Flávio busca conter desgaste no PL Mulher
Senador fez autocrítica sobre a comunicação com o eleitorado feminino; no STF, PGR defende que Bolsonaro permaneça em prisão domiciliar
Flávio Bolsonaro entrou na ofensiva para tentar reduzir um dos principais desgastes provocados pela crise com Michelle Bolsonaro: a relação do PL com o eleitorado feminino. Em reunião com lideranças do PL Mulher nesta quarta-feira (1º), o senador condenou declarações de Paulo Figueiredo, fez uma autocrítica sobre a comunicação da direita com as mulheres e buscou transmitir uma imagem de unidade, poucos dias depois do racha exposto pela ex-primeira-dama.
A reunião aconteceu um dia depois de Michelle se encontrar com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, ocasião em que confirmou sua saída do comando do PL Mulher.
Nos bastidores, interlocutores afirmam que a ex-primeira-dama chegou a cogitar até mesmo deixar o partido e abrir mão da disputa eleitoral ao Senado, mas foi convencida por lideranças como a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), e pela senadora Damares Alves (Republicanos) a aguardar as convenções partidárias. A avaliação é que Michelle ainda desempenha um papel estratégico na mobilização de pautas ligadas às pessoas com deficiência, doenças raras e grupos vulneráveis.
Aceno
Durante o encontro com lideranças femininas, Flávio fez questão de rebater a declaração de Paulo Figueiredo, que afirmou recentemente que as mulheres "votam muito mal". O senador classificou a fala como "completamente equivocada" e afirmou que ela não representa sua campanha.
Ao reconhecer a dificuldade do bolsonarismo em dialogar com esse segmento do eleitorado, fez uma das declarações mais significativas desde o início da pré-campanha.
"Se as pesquisas mostram que muitas mulheres ainda não estão votando conosco, é falta de competência minha. É a falta de comunicação que nós, da direita, temos que resolver", declarou.
Flávio também voltou a elogiar Michelle e afirmou que pretende caminhar ao lado da ex-primeira-dama durante a campanha, destacando o trabalho desenvolvido por ela à frente do PL Mulher e dizendo acreditar que "mais esse momento difícil será superado".
Na avaliação do jurista e analista político Melillo do Nascimento, o movimento reúne duas estratégias ao mesmo tempo. "No curto prazo, é claramente uma gestão de crise. Mas há também um componente estratégico", afirma.
Segundo ele, ao assumir a responsabilidade pela dificuldade de conquistar votos entre mulheres, Flávio tenta construir uma identidade política própria, embora ainda dependa da legitimidade que Michelle consolidou junto ao eleitorado feminino.
Decisão
A tentativa do PL de reorganizar o partido ocorre enquanto Jair Bolsonaro continua sem saber se permanecerá em prisão domiciliar. O ex-presidente, que segue afastado das articulações políticas, aguarda uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a prorrogação da medida concedida por razões humanitárias.
Nesta quarta-feira (1º), a Polícia Civil do Distrito Federal concluiu o inquérito sobre a pistola registrada em nome de Bolsonaro e apreendida durante uma blitz da Lei Seca com um de seus seguranças. A investigação afastou qualquer responsabilização criminal do ex-presidente ao concluir que a arma possuía registro válido e permanecia em situação regular. O indiciamento foi feito apenas contra o sargento Estácio Leite da Silva Filho, que transportava o armamento sem a documentação exigida.
Com o relatório em mãos, Moraes abriu novo prazo para manifestações da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da defesa antes de decidir sobre a manutenção da prisão domiciliar. Na manifestação encaminhada ao Supremo, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que, até o momento, não há elementos que justifiquem a revogação do benefício e defendeu que Bolsonaro permaneça em prisão domiciliar. Ao mesmo tempo, opinou pela manutenção da apreensão da arma até a conclusão definitiva das investigações.
Para Melillo do Nascimento, o momento vivido pelo bolsonarismo é marcado pela sobreposição de crises. "A discussão jurídica segue seu curso próprio, mas o ambiente político exige outro tipo de resposta. Quando surgem crises simultâneas — uma institucional e outra interna — a preocupação passa a ser também preservar a capacidade de mobilização do grupo para 2026", avalia.